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Foto: Gilberto Perin

MAR ABERTO | ITALINA FABBRI EM MAIS UM INVERNO

por Boca Migotto.

Um enterro é o ponto de partida para essa história que inicia nos anos 1930. Quase um lugar-comum na literatura. São inúmeras as narrativas que iniciam com a morte da personagem principal para, depois, retornar ao seu nascimento e acompanhar toda sua trajetória. A escolha por essa estratégia, em MAIS UM INVERNO, meu mais novo livro, é deliberada e se justifica ao final do livro. Mas, sem spoiler. Infelizmente – ou felizmente, para mim – o leitor terá que chegar até o final para poder criticar se tal escolha foi acertada.

Italina Fabbri nasceu no seio de uma família de imigrante italianos. Se fosse escolher uma temática para desenvolver, com potencial de venda, certamente não seria a imigração italiana. Temos José Clemente Pozenato, é verdade. Mas, salvo este que é nosso principal nome na literatura serrana-colonial, são ainda poucos os autores que ambientam seus livros na Serra Gaúcha, com a imigração como pano de fundo. Essa temática, parece, não desperta o interesse. Tal constatação até mereceria um estudo antropológico, mas o fato é que nem aqueles que fazem parte dessa história se mostram atraídos por essa temática.

Sou um teimoso. E por isso decidi assumir o risco e o compromisso de retratar esse universo, o qual eu mesmo estive inserido por boa parte da minha vida. Claro, como todo aquele que sai da sua aldeia e passa a observá-la de outra forma, tento fazer isso com certo distanciamento, embora isso soe quase contraditório, uma vez que minhas memórias também compõem algumas passagens do livro.

Muitos, aqui, talvez por me acompanharem nas redes sociais ou por terem lido outras colunas escritas por mim, sabem que me considero uma espécie de elo perdido. Nasci em 1976, filho de uma mãe que estava com 40 anos, quando deu à luz, e um pai com 53 anos. Dois velhos para a época. Por isso, na medida que fui crescendo também fui me percebendo diferente dos meus amigos. Por conta da idade, mas também de outros fatores sociais, meus pais estavam mais próximos daqueles imigrantes que atravessaram o oceano, no final do século XIX, que do tempo histórico ao qual o filho cresceria. E não eram apenas meus pais.

Eu não tive irmãos em uma época quando era comum casais terem três, quatro, e até cinco filhos. Meus primos eram todos bem mais velhos que eu, o que me garantiu uma infância bastante solitária. Minha família se reduzia aos meus pais e duas tias, uma materna e outra paterna, ambas solteiras e, claro, também bem mais velhas que a média de idade das tias dos meus amigos. De certa forma, posso dizer que fui criado por três avós e um avô. De certa forma, uma compensação, pois, por ser filho temporão, não tive o privilégio de conhecê-los. Muita terapia para analisar e processar isso tudo.

Imagino que já tenha chamado a atenção do leitor mais atento o fato de que entre as três mulheres dessa história, duas acabaram solteiras e a única que casou – minha mãe – pôde fazer isso somente aos 40 anos. Numa época quando as mulheres casavam antes dos 20 anos. Hoje isso pode ser uma escolha. Não nos anos 1950/60. Não na minúscula Carlos Barbosa. Sem querer entrar em pormenores, basta dizer que, por trás destes três destinos, havia um condicionamento social inerente à época, sobre o qual eram pautadas as oportunidades de cada mulher.

Minha tia materna e minha mãe viram seus irmãos ganharem o mundo enquanto tiveram que assumir os cuidados de uma mãe que ficara paraplégica após a morte prematura do marido. Até onde se sabe, pois pouco se fala sobre isso na minha família, minha tia paterna, única filha mulher, fora impedida de casar por ciúmes do meu avô. E assim adoeceu. E após a morte dos meus avós paternos, meu pai, o filho mais velho, precisou cuidar da irmã. Por pouco não nasci.

Meu pai sempre contava que, após muito refletir, decidira terminar o namoro com a minha mãe. Na idade que eles já estavam, e com dois “doentes” para cuidar – minha mãe com a minha avó e meu pai com minha tia – o casamento, nessas circunstancias, seria apenas um nível a mais de dificuldade nas vidas já medíocres que ambos levavam. Chamem de coincidência ou destino, mas na mesma noite que papai decidiu terminar o namoro, meu tio bateu à janela para informar que a minha avó havia falecido. Foi graças a morte dela que eu pude vir ao mundo.

Ao longo de toda sua gestação minha mãe ouviu que ela era uma louca por engravidar aos 40 anos. Que ela iria morrer ao dar à luz. Imaginem o que passa na cabeça de uma mulher que, ao mesmo tempo, carrega seu filho na barriga e o fantasma da morte sobre sua cabeça. Durante longos nove meses. No final deu tudo certo, tanto que aqui estou, escrevendo essa coluna. Mas, para minha mãe, minhas tias e as amigas da minha mãe, que frequentavam nossa casa, até aquilo que deu certo, de certa forma estava mal escrito.

Cresci em meio a essas mulheres, brincando no chão da cozinha enquanto ouvia, em talian, as inúmeras histórias sobre a filha de fulana que fora expulsa de casa por ter engravidado do namorado que, por sua vez, fugira. Sobre a esposa de ciclano que fora proibida de sair de casa porque o marido a pegou olhando para outro homem. Sobre beltrana que ficara mal falada após se separar do marido cachaceiro que à agredia quando estava de pileque. Entre cafés, chás e pedaços de bolo, antes ou após a rodada de conversas sobre quem estava doente ou havia morrido, esses foram os relatos que marcaram minha infância.

Minha mãe se anulou ao longo de toda a vida. Primeiro em relação ao seu pai. Depois da morte do meu avô, cuidou da mãe, em estado vegetativo, e mais tarde veio o marido. Por fim, viveu sua vida por mim. Minha tia Elsa, sua irmã, não casou. Quando minha mãe e eu discutíamos, enchia a boca para dizer que ficar solteira havia sido sua melhor escolha. O problema é que sua solteirice não havia sido uma escolha, mas, sim, imposto por outras circunstâncias. Algo semelhante ocorreu com minha tia Linda, irmã do pai. Embora, no caso dela, tudo tenha sido ainda mais dramático. Estas três mulheres não são exceções nessa história. A maturidade, minhas leituras, um tanto de sensibilidade, sessões de terapia para compreender melhor minha relação maternal, e, sobretudo, a luta das mulheres em nos fazer – nós, homens – percebermos isso tudo, me permitiu olhar para essas histórias de uma forma diferente. Aquele foi um tempo de perdas para todos, principalmente para as mulheres.

Escrever MAIS UM INVERNO, portanto, foi a forma que achei de resgatar essas lembranças e processa-las. Afinal, escrever um livro não deixa de ser, também, uma forma de autoanálise. Trata-se, ainda, de uma tentativa de ressignificar a história da imigração italiana. Lançar luz não aos heróis que construíram as bases de uma região pujante economicamente, mas a todas e todos que foram apagados pelo tempo. Pois também estes foram infelizes. Sofreram pelo sacrifício que a vida impôs, mas também por valorizarem demasiadamente o trabalho em detrimento à própria felicidade. Embora, talvez, nem se dessem conta disso.

A história de mulheres e homens que falharam, que sucumbiram perante a realidade e que tiveram, como homenagem, quando muito, apenas o direito a terem seus nomes escritos sobre uma lápide qualquer é o que me interessa. A pequena história. A história dos esquecidos. Dos não lembrados. Dos oprimidos. De todos aqueles que não viraram nome de ruas. Daqueles que nem mesmo no cemitério encontram a paz, pois nada garante que a especulação imobiliária expulse seus ossos do campo santo onde foram enterrados para que se possa erguer um novo condomínio de luxo. Aquilo que chamamos de progresso não respeita nem as memórias dos nossos antepassados, por isso, é fundamental que reflitamos sobre que tipo de progresso é este o qual tanto corremos atrás. Para o qual, muitas vezes, damos a própria vida.

A Italina, minha personagem, representa estas pessoas invisibilizadas. Uma mulher que sofreu as injustiças do seu tempo, mas que também decidiu permanecer viva na memória da cidade que viu crescer ao seu redor. Uma mulher que escolheu assombrar a sociedade com sua casa velha, com sua presença, e confrontando esse progresso esquizofrênico, o qual avança sobre tudo e sobre todos como um asfalto mal aplicado sobre a terra.

Impermeável, mas que sucumbe rapidamente quando confrontado à fragilidade da chuva e à perenidade do tempo, o asfalto é a perfeita metáfora de como tratamos a nós mesmos. Sufocados pelo piche quente, viscoso e pegajoso, observamos, inertes, o futuro correr irresponsavelmente sobre nossas cabeças. E sobre nossa história.

MAIS UM INVERNO

Para quem se interessou pela história de Italina Fabbri, o livro está sendo vendido pelo valor promocional de 55 reais – quem comprar mais de um, sai por 50 reais – através das minhas redes sociais: Instagram e Facebook.

Além disso, já temos algumas datas de lançamento presencial:

  • Dia 11/10, às 18 horas, lançamento em Bento Gonçalves, no café AmoTe Lisboa.
  • Dia 18/10, às 13 horas, participação no evento Ato Literário, da Feira do Livro de Veranópolis.

No mesmo dia 18/10, às 16 horas, bate-papo e autógrafos na Feira do Livro de Bento Gonçalves. Conversa mediada pela produtora cultural, Eunice Pigozzo, proprietária da Livraria Dom Quixote.

  • Dia 19/10, às 18 horas, sarau, bate-papo e sessão de autógrafos no espaço cultural ECOA, em Garibaldi.
  • Dia 7/11, às 18 horas, sessão de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre.

 

 

I. BOCA MIGOTTO

I., de Ivanir, Boca Migotto é cineasta, pesquisador, fotógrafo e escritor. Publicitário formado pela Unisinos, cedo se deu conta que estava na área certa – a Comunicação – mas no curso errado. Formado, então, largou tudo e foi para Londres. Nos dois anos que permaneceu na Inglaterra fez de tudo: lavou prato, fez café, foi garçom e auxiliar de cozinha, estudou inglês e cursou cinema na Saint Martins College of Arts and Design. Ao regressar para o Brasil, fez Especialização em Cinema e Mestrado em Comunicação, ambos pela Unisinos. Nesta mesma instituição, foi professor de Documentário no Curso de Realização Audiovisual, onde permaneceu por dez anos, atuando também em disciplinas dos cursos de Jornalismo, Comunicação Digital e Publicidade. Finalizou seu Doutorado em Comunicação pela FABICO/UFRGS, com extensão na Sorbonne/Paris 3. Foi quando morou em Paris, aliás, que decidiu lançar seu primeiro livro de ficção “Na antessala do fim do mundo”. Como cineasta – diretor e roteirista – realizou mais de vinte curtas-metragens e séries de TV, além dos longas-metragens “Filme sobre um Bom Fim”, “Pra ficar na história”, “O sal e o açúcar” e “Já vimos esse filme”. Em 2021 lançou seu segundo livro “Um certo cinema gaúcho de Porto Alegre”, resultado da sua pesquisa de doutorado. Em 2023 lançou seu terceiro livro “A última praia do Brasil” pela editora Bestiário em parceria com a Rede Sina. Atualmente é graduando em História- Bacharelado na PUCRS.

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