- Retrato
Eu sou aquilo que sou
e nada mais me atormenta
nos quarenta, nos cinquenta…
Enquanto a vida me tenta.
Há esquinas que não dobro
porque a alma não sustenta.
Mas há becos que percorro
na escuridão poeirenta
iluminados de lua
aspergidos de água benta
onde estrelas adormecem
pisadas de sonhos breves
que a solidão alimenta.
E há uma chama desperta
que ainda acesa, sim, se atreve
a descrever o caminho
que minha esperança inventa.
- Caldeirão
Se América não fosses
que serias?
Um manancial, um porto,
um rito,
inspiração?
Tuas águas seriam
saborosa energia das
sombreadas matas
e nas verdes campinas
brotariam parreirais
de uvas perfumadas
de rara emanação.
O vernáculo seria
a tua língua e
das virgens seria
o teu chão.
As sementes plantadas
nasceriam no
coração das gentes
Serias serena América.
Hoje és um caldeirão.
- Decantação
Trago comigo um
recipiente de sombras.
No meio
guardo uma pedra envolta
em cicatrizes.
Enquanto
o dia desce a colina
da noite
costuro mágoas em pedaços
cubro uma a uma
e sopro
aliviando feridas.
É ali que
as ponho a decantar
a tempo de vigiar
as trevas
do outro lado
a arrancarem raízes.
- Sombras
Sou das madrugadas
insones
como sou das manhãs.
Pinto quadros na
mente como quem
desenha Monalisas pálidas
ou falsas Guernicas que me
assombram
ao entardecer.
Inspiro o ar da
tormenta e
ergo-me aos deuses
em brado de
perdão.
A culpa é a flor
que boia sobre
a água entre
dois nenúfares sem
cor.
E é no silêncio que
escuto a
escuridão.
- Reverso
Por que me odeias
se juntos plantamos os
cedros e
apascentamos as ovelhas
e colhemos as uvas
do pomar dos avós?
Por que me odeias se
brincamos com pedrinhas e
cantamos juntos
à sombra das videiras
longas canções de
amor?
Por que derrubamos os
muros se
agora insistes em
reerguer distâncias?
A terra que nos
sustenta tem agora
um ácido sabor de sangue e
abriga cadáveres.
Para quê?
Cecilia Kemel, de Cachoeira do Sul/RS, é Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa (UFRGS). Seu currículo inclui premiações em concursos e registros na mídia impressa de Porto Alegre e do interior, com poemas, contos, crônicas e ensaios críticos, além de publicações em mídia digital. Conta com 11 obras individuais, entre elas, uma na área da Antropologia, uma em braille e uma traduzida para o francês. Conta ainda com participação em inúmeras coletâneas. É membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL), da Academia de Belas Artes do RS (ABARS), da Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências (ALPAS-21) e ocupa a Cadeira 13 na Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul (ALFRS).
Rede Sina Comunicação fora do padrão