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Cinco poemas do livro “Não derramarás o vinho” de Cecilia Kemel

 

  1. Retrato

 

Eu sou aquilo que sou

e nada mais me atormenta

nos quarenta, nos cinquenta…

Enquanto a vida me tenta.

 

Há esquinas que não dobro

porque a alma não sustenta.

Mas há becos que percorro

na escuridão poeirenta

iluminados de lua

aspergidos de água benta

 

onde estrelas adormecem

pisadas de sonhos breves

que a solidão alimenta.

 

E há uma chama desperta

que ainda acesa, sim, se atreve

a descrever o caminho

que minha esperança inventa.

 

  1. Caldeirão

 

Se América não fosses

que serias?

Um manancial, um porto,

um rito,

inspiração?

 

Tuas águas seriam

saborosa energia das

sombreadas matas

e nas verdes campinas

brotariam parreirais

de uvas perfumadas

de rara emanação.

 

O vernáculo seria

a tua língua e

das virgens seria

o teu chão.

 

As sementes plantadas

nasceriam no

coração das gentes

 

Serias serena América.

 

Hoje és um caldeirão.

 

  1. Decantação

 

Trago comigo um

recipiente de sombras.

No meio

guardo uma pedra envolta

em cicatrizes.

 

Enquanto

o dia desce a colina

da noite

costuro mágoas em pedaços

cubro uma a uma

e sopro

aliviando feridas.

 

É ali que

as ponho a decantar

a tempo de vigiar

as trevas

do outro lado

a arrancarem raízes.

 

  1. Sombras

 

Sou das madrugadas

insones

como sou das manhãs.

 

Pinto quadros na

mente como quem

desenha Monalisas pálidas

ou falsas Guernicas que me

assombram

ao entardecer.

 

Inspiro o ar da

tormenta e

ergo-me aos deuses

em brado de

perdão.

 

A culpa é a flor

que boia sobre

a água entre

dois nenúfares sem

cor.

 

E é no silêncio que

escuto a

escuridão.

 

  1. Reverso

 

Por que me odeias

se juntos plantamos os

cedros e

apascentamos as ovelhas

e colhemos as uvas

do pomar dos avós?

 

Por que me odeias se

brincamos com pedrinhas e

cantamos juntos

à sombra das videiras

longas canções de

amor?

 

Por que derrubamos os

muros se

agora insistes em

reerguer distâncias?

 

A terra que nos

sustenta tem agora

um ácido sabor de sangue e

abriga cadáveres.

 

Para quê?

 

Cecilia Kemel, de Cachoeira do Sul/RS, é Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa (UFRGS). Seu currículo inclui premiações em concursos e registros na mídia impressa de Porto Alegre e do interior, com poemas, contos, crônicas e ensaios críticos, além de publicações em mídia digital. Conta com 11 obras individuais, entre elas, uma na área da Antropologia, uma em braille e uma traduzida para o francês. Conta ainda com participação em inúmeras coletâneas. É membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL), da Academia de Belas Artes do RS (ABARS), da Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências (ALPAS-21) e ocupa a Cadeira 13 na Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul (ALFRS).

 

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