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Lucas e Pedro. Foto divulgação do autor.

PEDRO BRUM SANTOS: A VOZ | por Lucas Zamberlan

A morte do Professor Pedro Brum Santos deixou uma lacuna difícil de traduzir em palavras. Desde a notícia de sua partida, sua presença tem retornado à memória de muitos de nós: por meio de uma aula, de uma orientação, de um livro compartilhado ou mesmo de um breve encontro pelos corredores da UFSM. Para muitos, essa lembrança está associada à sua voz singular: grave, serena e imediatamente reconhecível. Havia nela uma rara combinação de conhecimento, sensibilidade e potência. Antes mesmo de ser pesquisador, gestor universitário ou referência nacional nos estudos literários, Pedro foi, para muitos de nós, uma voz. Na verdade, a voz.

Quem teve a oportunidade de assistir às suas aulas certamente se recorda da maneira singular como conduzia uma leitura. Não havia afetação nem exibicionismo. Havia respeito pelo texto. Quando Pedro lia um poema, os versos pareciam adquirir uma espessura nova. As pausas, o ritmo, as inflexões discretas faziam com que palavras já conhecidas revelassem sentidos inesperados. Muitos estudantes aprenderam com ele que a literatura não era apenas objeto de análise; era também experiência, escuta, ritmo e musical

Essa capacidade de aproximar as pessoas da literatura explica, em parte, a profunda admiração que despertava. Professor do Departamento de Letras Vernáculas e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria, Pedro participou da formação intelectual de inúmeras gerações de estudantes. Sua influência se estende por salas de aula, bancas, orientações, projetos de pesquisa e grupos de estudo que ajudou a construir ao longo de décadas. Sua trajetória acadêmica foi marcada por uma combinação admirável de rigor intelectual e generosidade humana. À frente do grupo Literatura e História, financiado pelo CNPq, CAPES e FAPERGS, contribuiu decisivamente para consolidar um espaço de reflexão que se tornou referência nacional. Gostava de falar em uma visão “dilatada” da literatura, expressão que sintetizava sua capacidade de relacionar obras literárias, processos históricos e transformações culturais sem reduzir a complexidade de nenhum desses elementos.

Na Universidade Federal de Santa Maria, exerceu papel fundamental em diferentes frentes. Foi diretor do Centro de Artes e Letras durante duas gestões consecutivas, entre 2010 e 2018, período em que conduziu a instituição com equilíbrio e senso público. Em âmbito nacional, participou de comissões da CAPES, presidiu a ABRAPLIP e atuou como secretário executivo da ANPOLL, atividades que demonstram o reconhecimento conquistado junto à comunidade acadêmica brasileira. Entretanto, reduzir Pedro a cargos e funções seria insuficiente e algo de injusto com as pessoas que aprenderam com ele.

Muito ligado à história cultural da região, dedicou parte significativa de sua vida à preservação da memória literária do Rio Grande do Sul e de Santa Maria. A organização das memórias de João Daudt Filho e, sobretudo, o trabalho em torno da obra de Felippe D’Oliveira revelam uma compreensão profunda de que preservar livros, documentos e trajetórias também é uma forma de construir futuro.

Tive a felicidade de compartilhar com ele alguns desses projetos. Trabalhamos juntos na recuperação da herança literária e biográfica de Felippe D’Oliveira, especialmente nas publicações do selo Patrimônio e Memória da Editora da UFSM. Hoje, apenas dois anos depois do lançamento, percebo que aqueles livros eram mais do que pesquisas ou edições críticas: constituíam um esforço coletivo de permanência e esperança no futuro e nos novos leitores. Nessa caminhada, vivemos momentos que hoje assumem um significado especial. Entre eles, a viagem a Brasília para o Congresso da ABRALIC, ocasião em que pudemos apresentar resultados de anos de pesquisa e acompanhar o reconhecimento de um trabalho desenvolvido aqui na cidade. Recordo também a emoção em torno do documentário Cartas de Felippe, produzido pela TV OVO, e dos lançamentos realizados em Santa Maria, Porto Alegre e Caçapava do Sul. Eram ocasiões em que Pedro parecia especialmente feliz ao perceber que o trabalho acadêmico conseguia ultrapassar os limites da universidade e alcançar comunidades diversas.

Embora transmitisse seriedade e imponência, especialmente para quem o conhecia pela primeira vez, Pedro possuía um bom senso de humor uma simplicidade quase tímida. Gostava de rir e apreciava as situações inesperadas que surgiam na convivência universitária. Muitos contam que, em determinada aula, ao tratar de um tema lateralmente (como ele gostava de dizer) relacionado à cultura britânica, exibiu uma fotografia em que aparecia junto ao monumento de Stonehenge, na Inglaterra. Em dado momento, apontou para a imagem e comentou: “Observem este monumento”. Imediatamente, um aluno perguntou: “Qual deles, professor?”. A sala inteira riu, um pouco constrangida. Ele também, apesar de ter se divertido com a situação. Esse era o Pedro que muitos de nós conhecemos: erudito sem pedantismo, exigente sem arrogância, respeitado sem jamais se tornar inacessível.

Sua partida representa uma perda profunda para a literatura, para a universidade e para a cultura gaúcha. Mas representa, sobretudo, a ausência de alguém que soube transformar conhecimento em encontro e celebração, pois ninguém comemorou mais e melhor Felippe D’Oliveira e Prado Veppo, nossos poetas mais conhecidos. Pedro deixa a esposa, Lisianne, os filhos Pedro, Marcel e João Pedro, além da mãe, Hercília, aos quais se soma uma imensa família intelectual formada por colegas, orientandos, ex-alunos e amigos espalhados por diferentes instituições do país.

Entre livros, pesquisas, aulas, projetos e amizades, construiu uma obra que ultrapassa qualquer currículo. Ela permanece viva na memória daqueles que ouviram suas aulas, participaram de suas pesquisas ou simplesmente tiveram a sorte de compartilhar uma conversa.

Se a morte impõe o silêncio, ela nem sempre consegue apagar uma voz. A de Pedro Brum Santos, por certo, continua e continuará ecoando na memória de seus alunos, colegas e amigos, como um verso que o tempo não consegue apagar.

Lucas da Cunha Zamberlan é professor do Departamento de Letras Vernáculas e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFSM. Atua, principalmente, na área da teoria da literatura, literatura brasileira e ministra disciplinas voltadas à leitura crítica e à análise de textos artísticos. Em sua trajetória de pesquisa, tem se dedicado ao estudo das relações entre literatura, outras artes e mídias e entre literatura e história. Coordena o projeto de pesquisa Literatura Brasileira e Intermidialidade (LIBRIN) e o projeto de extensão Literaturas Contemporâneas e Saberes Populares. Participa também de iniciativas editoriais voltadas à preservação e à difusão do patrimônio literário. É autor da biografia Felippe D’Oliveira: o poeta da lanterna verde, de Moacir Santana: obra completa e de Artes e Letras: crônica dos começos, livro que homenageia os 60 anos do Centro de Artes e Letras da UFSM.
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