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Fonte: Trabalho de campo // Acervo pessoal Pedro Spode

SANTA MARIA E O GRITO DO TERRITÓRIO! | Por Pedro Leonardo Cezar Spode

Resumo

Este texto trata de breve comentário acerca da expressão territorial da pobreza urbana em Santa Maria, a partir da análise de Índice de Privação Social. A cartografia permite visualizar geograficamente a pobreza na área urbana de Santa Maria, que se concentra, especialmente, nas periferias longínquas da cidade, em bairros como Nova Santa Marta, Itararé, Urlândia, Lorenzi, Diácono João Luiz Pozzobon, entre outros. A pobreza, enquanto privação de recursos materiais e imateriais, concentra-se em determinadas estruturas, como o aparato ferroviário, o Arroio Cadena e outros rios urbanos, o Morro Cechella, em uma dialética socioespacial entre as formasespaciais e os conteúdos que as animam. Conclui-se que a pobreza não se limita à privação de recursos básicos necessários à vida, ela também envolve luta e resistência, expressas na insurgência de processos de tomada de consciência pelos grupos hegemonizados, no que Milton Santos vinha chamando de período popular da história.

Palavras-chave: Pobreza Urbana; Privação Social; Cidadania; Período Popular da História.


Abstract

This text offers a brief commentary on the territorial expression of urban poverty in Santa Maria, based on the analysis of the Social Deprivation Index. The cartography makes it possible to geographically visualize poverty in the urban area of Santa Maria, which is concentrated especially in the city’s distant peripheries, in neighborhoods such as Nova Santa Marta, Itararé, Urlândia, Lorenzi, and Diácono João Luiz Pozzobon, among others. Poverty, understood as the deprivation of material and immaterial resources, becomes concentrated in specific structures such as the railway system, the Cadena Stream and other urban rivers, and Morro Cechella, forming a socio-spatial dialectic between spatial forms and the contents that animate them. It is concluded that poverty is not limited to the deprivation of basic resources necessary for life, it also involves struggle and resistance, expressed through the emergence of consciousness-raising processes among hegemonized groups, in what Milton Santos referred to as the popular period of history.

Keywords: Urban Poverty; Social Deprivation; Citizenship; Popular Period of History.

 

Pobreza urbana e privação social em Santa Maria. Alguns comentários

Em Santa Maria, como em todas as grandes e médias cidades do Brasil, o território grita. Este grito é reflexo das precariedades vivenciadas pelas populações que habitam as periferias pobres do país, que se insurgem e fazem ecoar a necessidade de melhores condições de vida.

Os pobres no Brasil são alijados da maioria dos recursos, muitos deles necessários para a sobrevivência, como o saneamento básico, infraestrutura essencial e que ainda não alcança a totalidade do território brasileiro. Dados de 2023 do SINISA – Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico do Brasil, apontam que os índices de população urbana com acesso à rede de abastecimento de água alcança 93,4%, à rede coletora de esgoto apenas 67,4% (BRASIL, 2023).

um processo de privação social que inclui a ausência de condições, materiais e imateriais, que impactam na participação plena dos grupos nas atividades cotidianas, nos costumes e padrões habituais da sociedade (Townsend, 1987). Em outras palavras, há um processo de privação da própria cidadania, uma vez que as condições sociais dos grupos depende do contexto histórico e territorial a qual se está inserido. É nesse sentido que o território emerge como categoria fundamental para a compreensão da sociedade e suas contradições.

E como a pobreza se expressa territorialmente na área urbana de Santa Maria? Como tentativa de resposta para tal questionamento e no intuito de compreender a pobreza em suas diferentes dimensões, há pelo menos 10 anos viemos produzindo pesquisas com foco para a cidade de Santa Maria. São diversos artigos acadêmicos, teses de doutoramento e dissertações de mestrado que versaram sobre temas como: saúde pública e desigualdades socioespaciais(Erthal, 2023); pobreza urbana, privação social e planejamento territorial (Spode, 2020, 2024);saneamento básico (Moraes, 2020); mobilidade urbana e privação social (Rorato, 2023); moradia urbana e privação social (Brum Vargas, 2025) entre outros.

Em um destes estudos elaboramos um instrumento para identificar territorialmente a pobreza urbana na cidade, o qual chamamos de Índice de Privação Social, ou apenas IPS(Spode, 2020). O IPS de Santa Maria foi construído a partir dos dados do IBGE de 2010, com variáveis que combinavam a educação, a renda e o domicílio/saneamento, através de tratamento estatístico, o qual foi descrito com maiores detalhes em Spode (2020). Os indicadores que compõem o IPS são: (i) taxa de alfabetização; (ii) taxa de pessoas sem rendimento nominal mensal e até ½ salário-mínimo; (iii) rendimento médio por domicílio; (iv) taxa dos domicílios com 5 ou mais moradores; (v) taxa dos domicílios com esgotamento via vala.

Vale ainda mencionar que foram utilizados os dados do Censo de 2010 em razão de que o mais recente Censo Demográfico foi realizado apenas no ano de 2022, com a divulgação dos novos dados ainda em curso neste final de 2025. O mapa do IPS pode ser visualizado na figura que se segue.

 

Figura 1: Índice de Privação Social (IPS) da área urbana de Santa Maria, RS.


Fonte: IBGE (2010). Elaboração do mapa: Maurício Rizzatti

O IPS nos permitiu visualizar a “geografia da pobreza” na cidade, com detalhamento sobre os bairros e vilas que apresentam as mais altas taxas de privação social (áreas em vermelho no mapa). É possível visualizar verdadeiras manchas de pobreza que circundam a área urbana de Santa Maria, especialmente as regiões norte, sul e oeste, em bairros como: Itararé, Campestre do Menino Deus, Salgado Filho, Nova Santa Marta, Renascença, Urlândia, Lorenzi, Diácono João Luiz Pozzobon, entre outros.

Há bairros em que a pobreza recobre praticamente toda a sua extensão, como é o caso do Nova Santa Marta, Caturrita, Diácono João Luiz Pozzobon. Outros bairros apresentam manchas, fragmentos de pobreza que abrangem determinados pontos do território, como nos bairros Juscelino Kubitschek, Urlândia, Lorenzi, Presidente João Goulart, Tomazzetti e Camobi.Como afirmou Milton Santos (2009), a pobreza, assim como o próprio território, é um processo dinâmico e relativo ao lugar em que ocorre, uma vez que os recursos postos à disposição dos homens se alteram de acordo com o tempo e com o espaço.

A cartografia do IPS nos permite, também, identificar algumas estruturas ou formas materiais que concentram a pobreza na cidade, quais são: (a) as estruturas ferroviárias, como as estradas de ferro, os antigos galpões de oficinas, as estações, muitas delas abandonadas e que ao longo do processo histórico foram se tornando local de moradia para parte da população pobre da cidade; (b) os rios urbanos, sobretudo o Arroio Cadena, mas não somente ele, que abrigam moradias improvisadas, em áreas de risco para alagamentos e outros processos que impactam as populações; (c) o Morro Cechella, cuja vertente por anos esteve ocupada com moradias em áreas de risco à vida. Não à toa duas pessoas terem perdido a vida durante deslizamento ocorrido no Morro Cechella, precisamente na vila Canário, no bairro Itararé, no contexto das enchentes do ano de 2024.

Foram inúmeros trabalhos de campo realizados nas áreas de elevada privação social em Santa Maria. Tais incursões permitiram verificar in loco a precariedade que se expressa nas periferias longínquas da cidade. São fragmentos da área urbana de Santa Maria onde todos os recursos são inexistentes, como o saneamento básico, a energia elétrica, a segurança, a moradia adequada etc. Como exercer a cidadania sem o mínimo necessário para o desenvolvimento e a reprodução da vida? Devemos lembrar que as pessoas não são “entidades que levitam no ar”,pois elas usam o território e todos os atributos necessários como direito existencial (Souza, 2019).

O território somente existe enquanto usado, como bem disse Milton Santos (2015), com estes usos produzindo as paisagens que observamos nas cidades e, no caso deste texto, nas periferias pobres de Santa Maria. Os trabalhos de campo nos permitiram organizar rico levantamento fotográfico dos usos do território nas áreas de elevada privação social da cidade, muitas das quais expressando a pobreza, a precariedade e a ausência do Estado, fato que se inscreve na paisagem através das ausências. A privação, cabe lembrar, é uma condição social e histórica de ausências, tanto no sentido material, quanto imaterial, que impacta no pleno uso do território pelas pessoas.

 

Figura 2: Habitação precária nas margens do Arroio Cancela, bairro Urlândia, julho de 2023.


Fonte: Trabalho de Campo (2023).

Figura 3: Prolongamento irregular da rua Willy Pereira da Silveira, nas proximidades do Arroio Cadena, bairro Noal, julho de 2023.

Fonte: Trabalho de Campo (2023)

 

Figura 4: Habitações na área do antigo Jockey Club, bairro Juscelino Kubitschek, abril de 2024.

Fonte: Trabalho de Campo (2024).

 

O território grita, como nos alerta Maria Adélia de Souza (2025), e, de um lado, evidencia a precariedade inscrita na paisagem e, de outro, a insatisfação dos grupos diante das enormes desigualdades e seletividades na distribuição das infraestruturas de uso coletivo. As imagens apresentadas expressam a dialética entre as formas e os conteúdos que os animam ou, ainda, entre os grupos humanos e a forma natural “geografizada, alterada pela ação humana. O conceito de segunda naturezadesenvolvido ainda no século XIX por Karl Marx ajuda a entender esta questão.

Esta dialética entre a segunda natureza e os grupos sociais se expressa por toda a área urbana de Santa Maria, seja nas formas ditas “naturais, como os rios urbanos, os arroios, os morros, as áreas de campo, como também nas estruturas públicas e privadas, como o aparato ferroviário, as rodovias, entre outros. Tal dialética é reveladora, antes de mais nada, da privação do uso pleno do território pelas populações, resultando, sobremaneira, em trágicas e recorrentes situações de risco à vida.

Em suma, os privados de tudo usam o território da maneira que conseguem, a partir de processos de luta, resistências e solidariedades, constituindo lugares a partir da necessidade basilar da sobrevivência. O grito do território é também luta e resistência, não devemos esquecer disso.

Em Santa Maria temos demonstrações deste processo. O bairro Nova Santa Marta, cuja formação socioespacial esteve ligada a luta pela moradia, isto é, pelo uso do território, é exemplar nesse sentido. Como nos lembra Dias (2017), a pobreza pode ser considerada um problema e ao mesmo tempo resistência e transformação, uma vez que a própria escassez é conteúdo para a produção de estratégias de sobrevivência. Os pobres urbanos criam estratégias, organizadas, conscientes, mas também espontâneas, que conduzem os grupos hegemonizados para uma maior tomada de consciência social.

Os pobres urbanos, em seu cotidiano de escassez, constroem alternativas de sobrevivência e denúncia a realidade socioespacial, seja nos movimentos organizados, nasmanifestações artísticas, nas solidariedades, como também no campo individual, que se processa instintivamente em cada sujeito. Como nos lembra Milton Santos (1997), os “tempos lentos”, em que os pobres urbanos estabelecem suas relações sociais e constituem suas vidas,em princípio pode parecer uma fraqueza, porém, tornam-se a sua força. Na realidade, a força dos pobres é seu tempo lento, como explica o autor:

[…] na cidade, na grande cidade atual, tudo se dá ao contrário. A força é dos “lentos” e não dos que detêm a velocidade elogiada por um Virilio em delírio na esteira de um Valéry sonhador. Quem, na cidade, tem mobilidade — e pode percorrê-la e esquadrinhá-la — acaba por ver pouco da Cidade e do Mundo. Sua comunhão com as imagens, frequentemente pré-fabricadas, é a sua perdição. Seu conforto, que não desejam perder, vem exatamente do convívio com essas imagens. Os homens “lentos”, por seu turno, para quem essas imagens são miragens, não podem, por muito tempo, estar em fase com esse imaginário perverso e acabam descobrindo as fabulações (SANTOS, 1997, p. 41).

A pobreza é uma situação de carência, de ausência, mas também de luta e resistência. As periferias populares de Santa Maria estão repletas destas situações de enfrentamento, de luta, seja no Nova Santa Marta, com os movimentos sociais; ou nas ruas do Itararé, com os músicos de rap, que em suas letras revelam suas condições sociais; nas escolas de samba localizadas em diversos pontos da cidade, como a Vila Brasil, que expressam a sua cultura popular, que é ao mesmo tempo política; as expressões artísticas da Vila Resistência, no bairro Pinheiro Machado, alçadas para o mundo, como também os mutirões realizados para a produção de estruturas coletivas, entre muitas outras formas de resistência e solidariedades que se processam por toda a periferia de Santa Maria.

Desse modo, portanto, de um lado o território grita pela precariedade, pela privação dos recursos e do pleno uso do território, necessário ao desenvolvimento adequado. De outro lado, o território grita, pulsa, a partir das resistências que se processam em todas as vilas pobres e precárias da cidade de Santa Maria. A resposta, talvez, esteja no cotidiano das massas,desconsiderado por muitos pesquisadores e estudiosos, mas que pode estar produzindo a revanche dos privados, ensejando, para o futuro, o que Milton Santos (2015) vinha chamando de período popular da história.

 

Referências bibliográficas

BRASIL. Ministério das Cidades. Sistema Nacional de Informações em Saneamento – SINISA. Disponível em: https://tratabrasil.org.br/wp-content/uploads/2025/07/Versao-Final-de-Estudo-da-GO-Associados-Ranking-do-Saneamento-de-2025_Rio-Corrigido-V4.pdf#page=30.76

BRUM VARGAS, R. M. Direito à cidade e à moradia: análise socioespacial das ocupações irregulares em Santa Maria, RS. Tese [Doutorado], Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2025.

DIAS, C. Práticas socioespaciais e processos de resistência na grande cidade: relações de solidariedade nos bairros populares de Salvador. 2017. 285f. Tese (Doutorado em Geografia) – Instituto de Geociências, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017.

ERTHAL, D. B. Difusão e distribuição espacial da Covid-19: desafios e potencialidades da atenção básica à saúde no ano de 2020 em Santa Maria, RS. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Maria, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Santa Maria, RS, 2023.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IBGE. Base de informações do Censo Demográfico 2010: resultados do universo por setor censitário. 2010.

MORAES, L. M. Privação ao saneamento e à saúde no território urbano da Vila Lídia em Santa Maria, RS. Dissertação [mestrado]. Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Naturais e Exatas, Programa de Pós-Graduação em Geografia, RS. 2020.

RORATO, L. C. Mobilidade urbana em Santa Maria, RS: os desafios da integração territorial em áreas de alta privação social. Dissertação [Mestrado], Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2023.

SANTOS, M. Pobreza urbana / Milton Santos; – 3.ed. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2009.

SANTOS, M. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal / Milton Santos. 25ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2015.

SANTOS, M. Técnica, espaço, tempo. Globalização e meio técnico-científico informacional. Editora Hucitec. 2 ed. 1997.

SOUZA, M. A. A. de. Território usado, rugosidades e patrimônio cultural: ensaio geográfico sobre o espaço banal. PatryTer. Revista Latinoamericana e Caribenha de Geografia e Humanidades. V. 2, n. 4, p. 1-17. 2019.

SOUZA, M. A. A. Geografia e Razão Prática: Diálogos Multidisciplinares. Maria Adélia de Souza. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2025.  

SPODE, P. L. C. Pobreza e privação social na área urbana de Santa Maria, Rio Grande do Sul: uma análise a partir dos usos do território. 175 páginas (Dissertação de Mestrado) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Naturais e Exatas, Programa de Pós-Graduação em Geografia. Santa Maria, 2020.

SPODE, P. L. C. Privação social como conceito de análise da pobreza urbana: horizontes teórico-conceituais para a geografia brasileira. Tese [Doutorado], Programa de Pós-Graduação em Geografia, Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2024.

TOWNSEND, P. Deprivation. Journal of social policy, v. 16, n. 2, p. 125-146, 1987.

 

PEDRO LEONARDO CEZAR SPODE

Doutor em Geografia – PPGGEO – UFSM

Professor de Ciências Humanas no CTISM – UFSM

Atua em pesquisas no campo da Geografia, especialmente nos seguintes temas: pobreza urbana, privação social, desigualdades socioespaciais e planejamento territorial.

Publicação mais recente:

Privação Social e Pobreza na Cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul: Análise a partir das Periferias Populares de Alta Privação Social

Revista Sociedade & Natureza (UFU), 37, 2025. https://www.scielo.br/j/sn/a/7zz76zX88k8FvQz9jmJ39XM/abstract/?lang=pt

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