Home / * PORTAL / * OPINIÃO E LITERATURA / * SINA AUTORAL / BOCHA, O MAIOR CHIBEIRO DO RIO URUGUAI. por ROGER BAIGORRA MACHADO

BOCHA, O MAIOR CHIBEIRO DO RIO URUGUAI. por ROGER BAIGORRA MACHADO

Quem, assim como eu, nasceu às margens do rio Uruguai, com certeza sabe que certas histórias não precisam de testemunhas, elas precisam apenas de alguém que as conte com convicção. Em 2023 eu ouvi uma destas histórias.

Um amigo me contou, pedindo para que eu escrevesse sobre ela. E a história é tão incrível que nunca saiu da minha cabeça.

Ela é tão extraordinária que já foi repetida tantas vezes nas mesas de bar de Uruguaiana, nos galpões de estância e nos bancos da Praça Barão do Rio Branco que ninguém mais sabe onde termina o causo e onde começa a lenda. Sempre que eu a conto, aumento um pouco, com muita convicção, é claro, e algumas pitadas da mais pura verdade.

Uns já me juraram que tudo aconteceu no verão de 1954. Outros batem o pé dizendo que foi no verão seguinte, quando o rio estava mais baixo. Há ainda quem sustente que tudo não passou da invenção de algum bêbado do Cabaré da Dórica, o mais famoso da cidade na época. Mas existe uma parte da história sobre a qual ninguém discute. O protagonista.

Ele se chamava Dardo Benites. Por sinal, se alguém souber mais sobre ele, ou for parente dele, peço que me procure. Gostaria de ouvir outras versões desse causo e descobrir onde termina a memória e onde começa a invenção.

Eu vou contar esta história do mesmo jeito que faço com os meus contos, de uma forma em que qualquer um de nós poderia estar presente nela.

Sobre o protagonista, o que sei é que pouca gente o chamava pelo nome. Para Uruguaiana inteira ele era apenas o Bocha. Morava onde a rua praticamente se entregava ao rio, numa casinha simples de madeira, dessas que abundam nas nossas vilas. Casa de gente trabalhadora, que acordava antes do sol, que vivia com o cheiro da água e que dormia com o barulho dos peixes pulando no Uruguai. Dali da casa do Bocha se enxergava Paso de los Libres, a cidade argentina era o pátio do vizinho.

Naquele tempo, o rio não separava dois países. Separava apenas duas burocracias aduaneiras.

A comida, as palavras, os costumes, as roupas, tudo era compartilhado. Dizem que o Bocha aprendera a nadar antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome. Disseram-me também que ele atravessava o Uruguai com a mesma facilidade com que um homem atravessa a rua Duque de Caxias de uma calçada à outra. No extinto Praia Clube, venceu tantas travessias que os cronistas esportivos já nem sabiam como descrever sua resistência. Enquanto os outros nadadores chegavam à margem ofegantes, Bocha saía da água sorrindo e perguntava se havia mais alguma coisa para fazer naquele dia. E quase sempre havia.

De noite, quando o sol desaparecia atrás dos salsos-chorões e os fiscais da aduana acreditavam que a noite bastava para vigiar a fronteira, era quando começava o verdadeiro trabalho de Dardo Benites. Era ali que o atleta dava lugar ao chibeiro. E o homem começava, pouco a pouco, a virar lenda. Para quem não sabe, a profissão de chibeiro vem da palavra chibo, que em espanhol significa ovelha. Logo, quem levava carne de ovelha para vender de um lado ou outro da fronteira, era chamado de chibeiro. O chibo é qualquer produto que cruza a fronteira sem pagar impostos, é o descaminho, o contrabando. 

Dizem que, naquela época, havia duas maneiras de atravessar o rio. A primeira era pela ponte internacional, de chapéu na cabeça, documento no bolso e paciência suficiente para responder às perguntas dos gendarmes. A segunda era pelo Bocha.

Enquanto os fiscais conferiam papéis, carimbavam formulários e discutiam regulamentos, Dardo Benites já estava no meio do rio, cortando a correnteza em silêncio. Arrastava atrás de si uma ou duas bolsas de lona, bem amarradas, que deslizavam sobre a água como se fossem apenas mais um tronco levado pela corrente. Ninguém sabe ao certo o que havia dentro delas. Uns falavam em tecidos finos, outros garantiam que era vinhos, perfumes, uísque escocês, relógios suíços ou apenas remédios argentinos. O certo é que na fronteira, mercadoria nunca falta. Ela só vai mudando conforme a necessidade de quem compra e a vigilância de quem fiscaliza.

O Bocha nunca perguntava o que carregava. Também nunca contava para quem entregava. Seu trabalho começava na margem brasileira e terminava na argentina. O resto era assunto dos outros.

Havia quem dissesse que ele conhecia cada remanso, cada banco de areia e cada redemoinho do rio como um padre conhece as páginas da Bíblia. Sabia onde a corrente empurrava para o sul, onde a água escondia um tronco submerso, onde os dourados descansavam e onde os fiscais jamais conseguiam enxergar uma chalana na escuridão. Era um conhecimento que não se aprendia em escola. Aprendia-se vivendo. Aprendia-se sobrevivendo.

Por isso, quando alguém dizia que uma travessia era impossível, o Bocha costumava apenas dar de ombros, acender um cigarro e responder: “Impossível é palavra de quem nunca entrou no Uruguai de madrugada.” E ninguém discutia. Toda Uruguaiana sabia que o Bocha era capaz, que ele cruzava o rio com as mãos nas costas se quisesse. Ele era o “Leão do Rio” e o Uruguai o seu quintal. Bocha era acostumado a salvar gente se afogando e cruzar qualquer coisa da Argentina para o Brasil e daqui para lá. Esse era um dos seus principais trabalhos. Ser chibeiro. E, talvez por isso, até aquele verão, realmente parecia que não existia carga que o Bocha não fosse capaz de levar de uma margem à outra.

Isso até aparecer um freguês disposto a lhe pedir justamente aquilo que nenhum chibeiro da fronteira jamais imaginara transportar.

Um elefante. 

Naquele verão de 1954, Uruguaiana ganhou um assunto novo. O Gran Circo Estrella del Plata chegou numa manhã quente, levantando uma nuvem de poeira pela Rua do Comércio, a atual Duque de Caxias. Vinham carroções coloridos, caminhões antigos, jaulas, tigres, leões, cavalos, macacos, cães amestrados, trapezistas, palhaços, músicos e uma gente que parecia carregar o mundo inteiro nas costas. À frente de tudo vinha o dono do circo. Chamava-se Don Emilio Carranza, um espanhol de voz grave, bigode cuidadosamente aparado e um chapéu branco que parecia nunca conhecer poeira. Don Emílio era daqueles homens que sorriam para o público e faziam contas sem precisar de papel. Tinha passado a vida inteira cruzando estradas da América do Sul atrás de plateias e algum dinheiro para manter o negócio da família. 

Na terceira noite de espetáculo já não cabia mais gente debaixo da lona. As crianças saíam encantadas com os malabaristas. Os adultos fingiam que tinham ido pelos trapezistas, mas voltavam para casa comentando mesmo das roupas das equilibristas. As mulheres, andavam de volta para casa impressionadas era com a coragem do domador e as graças dos palhaços. Só que nenhuma atração roubava tantos olhares quanto o elefante. Chamava-se Rajá.

Era um macho asiático de pele cinzenta, já um pouco enrugada pela idade, olhos profundos, tranquilos e um temperamento tão manso que aceitava, resignado, o carinho das crianças e as bananas que lhe ofereciam por entre as cercas. Para muita gente de Uruguaiana, era a primeira vez na vida que se via um elefante de verdade. Alguns velhos juravam que o bicho era maior que uma carreta de bois. Outros garantiam que pesava mais do que cem terneiros. 

Como acontece com toda boa história da fronteira (inclusive essa), o animal crescia um pouco cada vez que alguém a contava. Durante duas semanas, o circo foi o centro da cidade. Mas, como todo circo, também chegou o dia de partir. As lonas foram desmontadas. As carroças carregadas. Os caminhões revisados. Os artistas despediram-se da cidade. E a longa composição atravessou a Ponte Internacional rumo a Paso de los Libres. Ou, pelo menos, esse era o plano…  

E é aqui que a nossa história começa. Quando todos imaginavam que a viagem terminaria em poucas horas, um funcionário da aduana, acompanhado por três gendarmes, levantou a mão diante de Don Emilio Carranza e pronunciou uma frase que mudaria para sempre a história da fronteira: “El elefante no puede pasar”. 

Don Emilio primeiro pensou que fosse um mal-entendido. Sorriu daquele jeito educado de quem acredita que toda burocracia pode ser resolvida com uma boa conversa, tirou o chapéu da cabeça e perguntou ao oficial o que estava acontecendo. O gendarme explicou, num espanhol carregado de solenidade que só os funcionários públicos conseguem dar às palavras simples, que a documentação do circo estava em perfeita ordem. Os cavalos podiam entrar. Os leões também. Os tigres, os macacos, os cachorros, os caminhões, as carroças e até os palhaços. Menos o elefante. 

Faltavam autorizações sanitárias. Faltavam certificados. Faltavam carimbos. Faltava uma papelada que, segundo o funcionário, precisaria vir de Buenos Aires. Quem conhece a aduana na Argentina, sabe que existe uma unidade de tempo diferente da que utilizamos nos relógios. O ponteiro marca horas. A burocracia da aduana argentina marca “quando der”. Don Emilio tentou argumentar. Disse que o circo tinha espetáculos marcados em Corrientes, depois em Resistência e, semanas mais tarde, no Paraguai. Explicou que Rajá era a principal atração da companhia. Sem ele, metade do público pedia o dinheiro de volta. O gendarme ouviu tudo com educação exemplar. Depois respondeu apenas: – Lo siento, señor. Sin autorización, el elefante se queda.

E o elefante ficou. 

No primeiro dia, Don Emilio acreditou que resolveria tudo na manhã seguinte. No segundo, começou a perder a paciência. No terceiro, perdeu o sono. No quinto, já havia alugado um terreno próximo à estação ferroviária para manter Rajá alimentado enquanto aguardava a resposta das autoridades. O restante do circo ficou esperando em Paso de Los Libres. Pela primeira vez em mais de vinte anos de estrada, Don Emilio Carranza ficou sozinho. Sozinho… e com quase quatro toneladas de problema amarradas por uma corrente. 

Mas Uruguaiana tinha um costume que se mantem até hoje. Quando acontece alguma coisa diferente, a cidade inteira tomava conhecimento do ocorrido antes mesmo do jornal e das rádios. No final da primeira semana já havia gente levando frutas para o elefante. As crianças matavam aulas para vê-lo tomar banho. O elefante havia criado até um comércio ao seu redor. Os fotógrafos cobravam alguns cruzeiros por um retrato ao lado do animal. Os vendedores de pipoca agradeciam a Deus pela demora da papelada. E havia quem jurasse que Rajá já entendia português melhor do que muito argentino entendia espanhol. 

Foi justamente numa dessas tardes, sentado no balcão do Cabaré da Dórica, afogando a preocupação em dois dedos de conhaque, que Don Emilio ouviu pela primeira vez o nome do homem que, segundo diziam, atravessava qualquer coisa pelo rio. 

– O senhor está perdendo tempo esperando por estes documentos. O espanhol levantou os olhos. O velho que falara acendeu um cigarro, deu uma tragada demorada e completou: – Aqui na fronteira a gente é chibeiro. Aqui a gente atravessa mercadoria sem precisar de ponte. Inclusive, tem um chibeiro que dizem ser capaz de levar qualquer coisa de uma margem para a outra. Chamam ele de Bocha. 

Don Emilio terminou o conhaque sem desviar os olhos do velho. 

–  ¿Y dónde encuentro a ese hombre? 

O velho apagou o cigarro na borda do cinzeiro, pediu outro trago ao balconista e respondeu com a calma de quem nunca teve pressa. 

– Não é difícil de achar. Difícil é convencer ele. 

– ¿Y cuánto cobra? 

– Dinheiro não costuma ser o problema do Bocha. O problema é fazer ele acreditar que o serviço vale a história que vai render depois. 

Na manhã seguinte, Don Emilio seguiu as instruções. Desceu a Rua Duque, dobrou na Santana, continuou caminhando até que as casas começaram a rarear e o cheiro de barro tomou conta do ar. Quanto mais se aproximava do rio, menos parecia estar dentro da cidade. No fim da rua onde hoje é a Eustáquio Ormazabal encontrou uma casinha simples, de madeira escurecida pelo tempo, um pequeno galpão ao lado e um cachorro dormindo debaixo de um salso-chorão. 

O homem que procurava estava sentado num mocho de madeira, remendando uma tarrafa. Nem levantou os olhos quando ouviu os passos. Don Emilio tirou o chapéu. 

– ¿Don Dardo Benítez? 

O homem continuou trabalhando. Só então levantou a cabeça. Era um sujeito jovem e magro, queimado de sol, peito de nadador e braços compridos de quem passou a vida dentro d’água. Os olhos tinham aquela cor impossível de definir, mistura de rio, barro e céu nublado. 

– O senhor deve estar procurando outra pessoa. 

– Me dijeron que usted es Bocha.  

– Depende do que é para fazer. 

O espanhol respirou fundo. Passara dias imaginando aquela conversa. Ensaiara argumentos. Pensara em valores. Preparara um discurso inteiro, afinal, já estava dominando o português. Quando abriu a boca, porém, saiu apenas a verdade. 

– Preciso atravessar uma carga para Paso de los Libres. 

Bocha deixou a tarrafa de lado e, finalmente, deu atenção ao espanhol. 

– Isso eu faço. 

– Mas é uma carga… diferente. 

– Já ouvi isso antes. 

– Nunca. É uma carga diferente mesmo. – Afirmou Don Emílio. 

Bocha acendeu um cigarro e encarou o espanhol. 

– Então desembucha. 

Don Emilio olhou para os lados, tinha receio de que alguém pudesse ouvir. Abaixou um pouco o tom da voz e disse: 

– É um elefante. 

Durante alguns segundos ninguém falou nada. O vento continuou mexendo nas folhas do salso. O cachorro continuou dormindo. Lá no rio, um biguá mergulhou atrás de um peixe.  Bocha tragou o cigarro devagar, soltou a fumaça para o alto e, com a maior naturalidade do mundo, perguntou: 

– E ele é bravo? Morde? 

Don Emilio piscou algumas vezes, sempre fazia isso quando ficava nervoso. Durante cinco dias ele havia imaginado todas as respostas possíveis. “Está maluco.” “Nem por todo o ouro do mundo.” “Saia da minha casa.” Mas nunca lhe passara pela cabeça que a primeira preocupação do homem fosse descobrir se o elefante mordia. 

– Não… ele é muito manso.  

Bocha concordou com a cabeça, como se isso resolvesse metade do problema. 

– Menos mal. 

Fez uma pausa, olhou para o cachorro dormindo e completou: 

– Porque, se mordesse, aí complicava.

Depois disso, Bocha Bocha permaneceu alguns segundos olhando para o rio, pensando longe. 

– O senhor sabe que eu nunca atravessei um elefante. 

– E eu também nunca tentei. – respondeu Don Emilio. 

– Pois é. 

Bocha coçou a barba por fazer, jogou a ponta do cigarro no chão e falou consigo mesmo: 

– Se fosse cavalo, boi ou até um touro chucro, eu já tinha uma ideia. Mas elefante… Nunca lidei com um. 

Levantou-se do mocho, bateu a poeira da bombacha e disse: 

– Pois eu não vou lhe responder agora. 

Don Emilio sentiu o coração afundar. 

– Então o senhor não aceita o serviço? 

– Eu não disse isso. Disse apenas que preciso conversar antes com um homem que sabe mais do que eu. 

– Quem? 

Bocha sorriu: –  Um vivente que lê livro por gosto. O nome dele é Anísio Azambuja. Se existe alguém capaz de descobrir como se atravessa um elefante, é ele.

Na cidade diziam que Anísio Azambuja tinha mais livros do que roupas. Que ele era capaz de citar um filósofo grego e, na frase seguinte, explicar como se curava bicheira em cavalo. Nunca ninguém conseguiu descobrir onde ele aprendera tanta coisa. Havia quem apostasse que Anísio lera todos os livros da Biblioteca Pública e os que garantiam que metade dos livros da biblioteca eram dele. 

Bocha pediu auxílio para Anísio. Explicou o serviço que estava prestes a realizar e queria saber qual a melhor maneira de se levar um elefante para Paso de Los Libres. Anísio ouviu tudo sem interromper uma única vez. Enquanto Bocha falava, limitava-se a balançar lentamente a cabeça, como fazia toda vez que alguma ideia começava a se acomodar entre os livros que guardava na memória. Quando a história terminou, levantou-se da cadeira de balanço, caminhou até uma estante abarrotada e passou os dedos pelas lombadas dos livros. Havia volumes de História Natural, tratados de veterinária, atlas, enciclopédias francesas, almanaques argentinos e livros escritos em idiomas que quase ninguém em Uruguaiana seria capaz de reconhecer. Alguns estavam tão gastos que pareciam ter sido lidos por mais de uma geração.  Outros conservavam folhas ainda fechadas, esperando pelo dia em que alguém precisasse exatamente da informação que escondiam. 

Anísio retirou três volumes, espalhou-os sobre a mesa e passou o restante da tarde lendo. De vez em quando fazia pequenas anotações num caderno de capa preta. Em outros momentos, aproximava uma lupa das páginas, como se as letras miúdas escondessem algum segredo importante. Bocha observava tudo em silêncio. Nunca tivera paciência para livros. Preferia aprender conversando com os velhos, escutando os pescadores ou prestando atenção no próprio rio. Mas conhecia Anísio havia tempo suficiente para saber que, quando ele mergulhava nos livros daquela maneira, era porque estava pescando respostas. Já era quase noite quando Anísio fechou o último volume. Recostou-se na cadeira, cruzou os braços e deixou escapar um sorriso que Bocha conhecia muito bem. Era o sorriso de quem acabara de encontrar exatamente o que procurava. 

A resposta estava ali havia muitos anos, impressa em papel, esperando apenas que alguém fizesse a pergunta certa. Os livros afirmavam que os elefantes eram excelentes nadadores. Cruzavam rios largos na África e na Ásia desde muito antes de existirem pontes ou embarcações. Nadavam por quilômetros sem dificuldade, mantinham apenas a ponta da tromba para fora da água e a utilizavam como um verdadeiro tubo de respiração. A própria flutuação do enorme corpo ajudava o animal a permanecer na superfície, enquanto as quatro patas trabalhavam lentamente, empurrando a água com uma calma que impressionava os naturalistas. Bocha ouviu tudo sem dizer nenhuma palavra. 

Pela primeira vez, desde que Don Emilio aparecera em sua casa, a travessia deixou de parecer impossível. Restava apenas descobrir como convencer um elefante de que o rio Uruguai era o caminho mais curto até a Argentina. 

Na manhã seguinte, Bocha foi à casa onde estava hospedado Don Emilio Carranza, levando consigo apenas uma corda grossa de couro cru, um pequeno saco de estopa, tranquilo, parecia até estar indo pescar lambaris. Os dois caminharam até o terreno onde Rajá aguardava havia tantos dias. O elefante reconheceu o espanhol imediatamente, balançou as enormes orelhas e estendeu a tromba em busca de um afago. Bocha permaneceu alguns minutos observando o animal. Não tinha pressa. Aproximou-se devagar, passou a mão sobre a pele grossa do bicho, examinou-lhe as patas, os olhos, a tromba, o comprimento das presas e o peso aparente de cada movimento. Depois caminhou até a margem do rio. Ficou um bom tempo olhando a correnteza. 

Quem conhecia Bocha sabia que ele não estava olhando para a água. Estava conversando com ela. O Uruguai tinha humores diferentes conforme o vento, a lua e as chuvas que caíam muito acima dali. Às vezes parecia um rio manso. Outras vezes escondia redemoinhos capazes de engolir pequenas embarcações inteiras. Mas naquela manhã o Uruguaia corria preguiçoso, largo e profundo. A notícia espalhou-se antes do meio-dia. 

Ninguém sabe quem contou primeiro. Talvez um menino que vira Bocha examinando o elefante. Talvez algum pescador. Em Uruguaiana dos idos de 1954, as notícias nunca tiveram dono. 

Quando o sol começou a descer, já havia gente escondida sobre os barrancos, em cima de carroças e até nos galhos das figueiras para assistir ao que prometia ser a maior loucura já inventada por um cristão. Uns apostavam que o elefante pisaria na água e voltaria correndo.Tinha gente com certeza de que o Bocha desistiria antes mesmo de começar. Os mais velhos apenas balançavam a cabeça em desaprovação. Conheciam Dardo Benites. Sabiam que, se ele resolvera aparecer ali, era porque já tinha decidido atravessar. O resto pertence às versões. 

Há quem diga que Rajá entrou na água sem demonstrar qualquer medo, como se atravessar rios fosse parte da rotina de todo elefante de circo. Outros garantem que ele hesitou apenas nos primeiros passos e só avançou quando Bocha começou a remar à sua frente, chamando-o com gestos tranquilos.  Tem alguns que afirmavam que o Bocha levou o elefante carregado de chibo. Uns juram que o espanhol permaneceu ajoelhado na margem brasileira durante toda a travessia, rezando para todos os santos que conhecia. Outros dizem que ele rezava em espanhol, chorava em silêncio e prometia abandonar o circo se aquele plano terminasse em tragédia. 

Também há quem afirme que centenas de pessoas acompanharam tudo das duas margens. Outros sustentam que apenas meia dúzia de pescadores viu a cena. Como em todo grande causo, cada testemunha guarda uma verdade diferente. Existe, porém, um outro detalhe sobre o qual ninguém discorda. Naquele fim de tarde, pela primeira vez, um elefante atravessou o rio Uruguai a nado. Um elefante foi chibeado para Paso de Los Libres e nenhum gendarme foi capaz de impedir.

Quando Rajá colocou as quatro patas na barranca argentina, ainda molhado e sacudindo a tromba, fez-se um silêncio tão grande na margem brasileira. Depois vieram os aplausos. Primeiro poucos. Depois muitos. Até que brasileiros e argentinos aplaudiam juntos um feito que nenhum dos dois países teria coragem de autorizar. Dizem que Don Emilio abraçou Bocha como se abraçasse um irmão perdido. Dizem também que ofereceu uma fortuna pelo serviço. Quanto recebeu, ninguém sabe. Há quem diga que Bocha aceitou apenas o suficiente para comprar uma canoa nova. Outros garantem que gastou tudo numa roda de amigos, distribuindo comida e bebida até o amanhecer. 

E existe uma terceira versão, a minha preferida, segundo a qual recusou quase todo o dinheiro e pediu apenas que, dali em diante, o chamassem como “Bocha, o maior chibeiro do rio Uruguai”.  

O Gran Circo Estrella del Plata seguiu viagem naquela mesma noite. Rajá voltou a ser a principal atração da companhia. Bocha voltou para sua casa na beira do Uruguai. Na manhã seguinte atravessou novamente o rio, desta vez carregando apenas duas bolsas de lona, como fizera tantas outras vezes. A verdade é que as lendas nunca sabem o que são. E uma boa história como esta, precisa ser contada sempre com convicção.

Roger Baigorra Machado é formado em História e tem Mestrado em Integração Latino-Americana pela UFSM. Foi Coordenador Administrativo da Unipampa por dois mandatos. Atualmente é Conselheiro Municipal de Desenvolvimento Econômico de Uruguaiana e trabalha com Ações Afirmativas e políticas de inclusão e acessibilidade no Campus da Unipampa em Uruguaiana.
Please follow and like us:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.