No jogo entre Brasil e Noruega, a ser realizado neste domingo, um momento que poderia ser apenas uma resposta bem-humorada entre torcidas acabou levantando um debate muito mais profundo. Enquanto os noruegueses celebrizam a tradicional “remada viking”, gesto coletivo que simboliza força, união e identidade cultural, parte da torcida brasileira escolheu responder com uma coreografia inspirada na música Créu.
À primeira vista, muitos podem enxergar apenas uma brincadeira irreverente. Mas a escolha da música e, principalmente, do trecho “é créu, é créu”, carrega um significado que merece reflexão.
Embora o funk tenha enorme importância na cultura popular brasileira e não possa ser reduzido a estereótipos, essa música específica se consolidou ao longo dos anos por uma performance corporal associada à simulação do ato sexual.
Quando essa coreografia é utilizada como forma de “humilhar” ou “dominar” o adversário, o gesto deixa de ser apenas dança e passa a comunicar uma ideia conhecida: vencer significa “penetrar”, “submeter” ou “violar” o outro.
Essa lógica não nasce no estádio. Ela faz parte de uma cultura que, historicamente, associa masculinidade ao domínio sexual e transforma a violência simbólica em motivo de celebração. É nesse ponto que surge o conceito de cultura do estupro.
A cultura do estupro não significa que uma sociedade apoie explicitamente o crime de estupro. Significa que determinadas práticas, piadas, músicas, cantos de torcida e metáforas normalizam a associação entre poder e violência sexual, tornando aceitável utilizar a ideia do estupro como instrumento de humilhação.
A diferença entre a remada viking e o “créu” é justamente o significado simbólico. A primeira celebra uma tradição nacional. A segunda, naquele contexto, foi usada como linguagem de dominação sexual. A mensagem implícita não era apenas “vamos vencer”. Era “vamos submeter vocês”.
É importante fazer também uma distinção necessária: criticar esse uso da música não significa condenar o funk nem criminalizar manifestações populares. O problema não está no gênero musical, mas no contexto e no sentido atribuído à performance. A mesma música pode ter significados completamente diferentes dependendo de onde, como e para quê é utilizada.
O futebol costuma ser chamado de espelho da sociedade. Talvez por isso episódios como esse sejam tão reveladores. Eles mostram como determinadas formas de violência permanecem naturalizadas a ponto de passarem despercebidas por grande parte do público.
Questionar essas manifestações não significa acabar com a irreverência das torcidas nem impedir a criatividade das arquibancadas. Significa apenas reconhecer que há diferenças entre celebrar a própria cultura e utilizar referências à violência sexual como linguagem de superioridade.
Se queremos um esporte mais inclusivo, capaz de acolher mulheres, crianças e pessoas de diferentes origens, vale perguntar: por que ainda recorremos à ideia de violência sexual para demonstrar força?
Talvez a resposta diga mais sobre nós do que sobre o resultado de qualquer partida.
Mel Inquieta
Jornalista, produtora cultural e fundadora da Rede Sina
Rede Sina Comunicação fora do padrão