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Tráfico humano em países africanos deu origem a ZERU, disponível na Amazon | Ricardo F. Mendes

Saiu do forno o conto inédito ZERU, no formato ebook pela Amazon. Ele começou a ser escrito por mim quando planejava uma viagem para Ruanda, na África Central, em 2016. Eu tentava chegar até uma comunidade isolada de mulheres que viviam naquela região. Em suaíli (Kiswahili), uma língua bantu, a palavra zeru quer dizer fantasma, uma forma pejorativa de chamar os pretos albinos.

Em vários países do Continente Africano, os albinos são considerados seres mágicos. São pessoas com uma condição genética caracterizada pela ausência de melanina — o pigmento que dá cor à pele, olhos e cabelos. Feiticeiros usam sangue e outras partes deles em poções e amuletos. A prevalência de albinos na África é considerada alta.

Ebook está em pré-venda por R$ 9,99, na Amazon, até 12 de março. Assinantes do Kindle Unlimited podem ler de graça.

Gente alva

À história dos pretos albinos que conheci se juntou a reportagem que supervisionei sobre o sequestro de jovens negros em Moçambique, onde vivi por cinco anos treinando jornalistas investigativos locais. Veio daí a ideia do conto, mas também de uma inexplicável presença de pessoas e animais alvos nas minhas narrativas — talvez um recurso para falar, de forma indireta, sobre o racismo, a respeito das diferenças.

Aqueles jovens são traficados por razões diversas. O assunto foi tema de um relatório contundente da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre o trânsito internacional de “partes humanas”. Durante a reportagem, eu estive na província de Manica e na fronteira do Zimbabwe, por onde são levados adolescentes aos pedaços. Fomos abordados, em Machipanda, por oficiais armados com metralhadoras AK47, de fabricação russa.

Quando nos viram dentro de um carro, a cerca de 200 metros de onde estavam, caminharam até nós enquanto eu trocava o cartão de memória da câmera para evitar que as imagens fossem confiscadas. Ao questionarem se eu estava fotografando, exibi registros que não tinham qualquer relação com o lugar. Um dos oficiais havia estudado com um amigo querido que me acompanhava e, de certa forma, isto também nos salvou.

Estive ainda na divisa entre Moçambique e a África do Sul, onde uma cabeça de criança pode custar até 5 mil dólares. Oficiais de imigração corruptos deixavam passar todo tipo de “material”, desde que recebessem alguma “ajuda”.

Conheci um rapaz que teve o pênis decepado e foi socorrido pela embaixada de um país europeu que ajudou a comprar uma prótese. Conversei com a mãe dele, que morreu de malária no dia seguinte à entrevista. E estive com uma menina que foi levada por traficantes, mas escapou, fugiu do cativeiro de volta para casa.

Em Machipanda, fronteira com o Zimbabwe, oficiais com metralhadoras AK47 nos abordaram enquanto eu escondia o cartão de memória da câmera, com teleobjetiva, que usava. Foto: Ricardo F. Mendes/Arquivo Pessoal.
Em Machipanda, fronteira com o Zimbabwe, oficiais com metralhadoras AK47 nos abordaram enquanto eu escondia o cartão de memória da câmera, com teleobjetiva, que usava. Foto: Ricardo F. Mendes/Arquivo Pessoal.

O Conto

ZERU, uma obra ficcional, se passa na Tanzânia (África Oriental), na Garganta de Olduvai, lugar que arqueólogos consideram o berço da humanidade. Em uma aldeia inventada, albinos africanos com hábitos maasai são atacados por mercenários que querem vender suas partes para feiticeiros. Um jovem é sequestrado e começa a perseguição de um pai preto, Azizi, em busca de resgatar o seu filho albino. Ele é ajudado por um guepardo. O conto está em pré-venda na Amazon até 12 de março e é gratuito para assinantes do Kindle Unlimited.

Ricardo Fontes Mendes é baiano, escritor, tradutor e jornalista multimídia graduado pela PUC de Campinas (SP). Cientista social com mestrado pela Universidade Federal de São Carlos (SP), é também colaborador do Global Voices. Foi repórter e editor do JN, na Globo; editor-chefe do Grupo A Tarde; repórter e editor da Folha de S. Paulo e consultor internacional à serviço da USAID (Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA). Escreveu Salvator Mundi; Caminho Para Varanasi; Território Livre de Duquesa; Mangue e A Morte de Zuleica Martan, este último um dos vencedores do Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, em 1993. Ganhou duas vezes o prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. Conheça mais sobre o autor no Substack dele. 

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