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“Quando ninguém nos vê” – Uma série que chamou pouco a atenção mas que tem algo a dizer | por BETO RODRIGUES

A HBO Max é, atualmente, a 4.a plataforma de streaming mais assistida no Brasil, situação que se altera de maneira constante, assim como recentemente a Prime Video ultrapassou a Netflix, passando a ocupar o primeiro posto. Ao observarmos a repercussão midiática, entretanto, podemos notar que nos portais de Internet predominam de sobremaneira comentários, críticas e análises sobre obras do catálogo da Netflix. Isso, em si, não indica necessariamente ser este o melhor catálogo entre todas e, sim, que esta plataforma investe bem mais do que as outras em ocupar espaços nessas mídias, que de “espontâneas” não tem quase nada.

Assim, muitas vezes passam desapercebidos entre nós, como parte das audiências, filmes e séries de bom e até ótimo valor artístico, assim como narrativas envolventes e bem construídas.

Aqui quero me debruçar sobre uma série presente do catálogo da HBO Max que é uma dessas peças quase solenemente desconhecidas, que encontrei dando buscas, pois praticamente nada foi escrito sobre ela na imprensa especializada de nosso país. Se trata da espanhola “Quando ninguém nos vê” que, segundo informações no Imdb, se trata de uma coprodução com os Estados Unidos, com avaliação 6.2 pelos usuários do site, assim como havendo obtido 3 estrelas no site brasileiro Adoro Cinema, onde não encontrei comentários.

Com elenco liderado pela sempre em forma e já veterana atriz espanhola Maribel Verdú, que ganhou grande visibilidade no começo dos 90 no excelente filme de Vicente Aranda, “Amantes”, a série se desenrola em 8 episódios durante a Semana Santa, mesclando, de maneira eficiente e envolvente, drama, ação e suspense, tendo como pano de fundo o fervor católico da Andaluzia e a presença nada simpática de uma base militar estado-unidense na vizinhança.

A trama, muito bem urdida e favorável às viradas inesperadas, envolve um suicídio, que abre o primeiro episódio, em simultâneo à desaparição de de um jovem adolescente algo transgressor e de um sargento do setor de TI da base americana, localizada próxima à pequena cidade de Morón de la Frontera, na região de Sevilha. Cabe à sargenta Lucía, da polícia judicial da Guarda Civil espanhola, vivida por Maribel Verdú, investigar tanto as circunstâncias misteriosas do suicídio, como as duas desaparições em sua zona de atuação, ambos sumiços cheirando a algo mais. Como contraponto, é enviada dos EUA a essa base, a tenente Magaly Castillo, do serviço de inteligência das forças armadas, vivida pela bela atriz cubano-americana Mariela Garriga, que vem para investigar o sumiço do sargento Miller, depositário de inúmeras informações sigilosas e portanto um ponto sensível para a comunidade militar e de informação. Aos poucos, apesar das resistências iniciais da policial espanhola ao que sente ser uma intromissão “gringa” pouco aceitável em seu território de atuação, vai se formando entre as duas, por força das circunstâncias, um amistoso laço de cooperação movido pela meta comum em desvendar fatos, ainda que pareçam desprovidos de ligação.

Dito isso, à maneira de resenha cinematográfica, vamos ao que interessa. Esta série oferece, primeiramente, um interessante espaço de reflexão sobre a presença militar e de forças de inteligência dos EUA em vários países. Lançada essa ficção em 2025, portanto antes da guerra declarada ao Irã e ao bombardeio unilateral deste país há poucos meses, de alguma maneira chega a ser irônica, notadamente nesse momento, pois nos dá uma antevisão do que veio a acontecer no mundo real, onde vimos o Governo espanhol negar o uso desta e de outras bases em seu território como parte das operações militares dos EUA no Oriente Médio. O que podemos ver na trama da série é exatamente esse conflito latente pondo em confronto competências territoriais. Em tese, e a partir da aderência da Espanha a OTAN, o sentimento de intrusão pode ser minimizado pela ação colaborativa, a partir do princípio básico de cooperação e respeito à soberania. Ou, na mão inversa, um constante gerador de tensões e conflitos oriundos da soberba recorrente dos EUA e seus militares, movidos pela crença de poderem estar acima de tudo, ancorados na ordem que ocupam na geopolítica mundial. A personagem da tenente Magaly, de origem latina, encarna de certa forma essa visão de mundo, se posicionando como agente estrangeira que vem solicitar parceria na investigação, acompanhada do enigmático Sargento Taylor, ao mesmo tempo que vai, por conta própria, se intrometendo na investigação local, bem além de suas competências legais. Na contramão de sua postura, temos o Coronel, diretor e chefe-geral da Base, buscando sabotar o trabalho da tenente o tempo todo e tratando os espanhóis em geral, como se fossem seus subordinados. Vinculado, ele mesmo, a um esquema de corrupção e tráfico com um político conservador local e homem mais rico da região, o Cel. Hoppen quer encerrar logo o caso, pois a presença de uma militar da inteligência na Base, põe em risco seus esquemas, que envolvem inclusive o desvio de armas e suprimentos. O que há de novo aqui? Nada que não conheçamos entre nós e certamente no mundo inteiro que envolve a política profissional, estamentos militares privilegiados e o crime organizado. Mas certamente estimulante, por tirar do lugar-comum de situar a fragilidade dos ecossistemas sócio-políticos locais e a corrupção endêmica como parte apenas de uma elite há muito tempo parasitária do Estado. No caso desta série mostrando como facilmente estes cenários, mesmos situados em microcosmos, podem compor com uma ordem predatória globalizada, onde forças armadas como a dos EUA, são apenas uma peça a mais das engrenagens. E aqui também incluindo mais um elemento extremamente sintonizado com o que vivemos no Brasil, onde esse empresário e pretenso candidato a prefeito da cidade, planeja um esquema de plantar provas falsas e fazê-lo repercutir na mídia local e redes sociais, com a finalidade de derrotar a sua agora adversária, a prefeita em exercício sua ex aliada. Pensemos nesse coquetel como um todo: interferência estrangeira e vinda do país que vem, corrupção e fake news com objetivos políticos, associado a ingredientes como tráfico de armas e drogas. Aí vemos a força e atualidade da história contada nessa série que tem, ainda, como parte do pano de fundo, questões bastantes sensíveis à sociedade contemporânea e as fronteiras com nossa psiquê, como identidade de gênero e conflito com a própria identidade, busca de aceitação social e de si mesmo, além da violência em grau extremado ancorada em dogmas religiosos.

Mesmo que eu não situe esta série no panteão daquelas que quando arrebatados chamamos de “imperdível”, não deixo de recomendar. Vale a pena ver e inclusive relevar alguns escorregões narrativos, inclusive com direito a desfrutar sem culpa um gostinho de “quero mais”.

Como em geral tem sido em quase todas as séries espanholas de suspense que estão nas principais plataformas, mostrando a força narrativa dessa cinematografia que já nos brindou alguns gênios e que tem se adaptado com maestria às realizações seriadas. Bom proveito a quem gosta do gênero!

 

Beto Rodrigues – Produtor e Realizador Audiovisual

Pós-graduado em Cinema na Univ. Complutense de Madrid, foi sócio e fundador da Panda Filmes e Pé Na Estrada Filmes. É produtor, diretor e roteirista. Produziu e trabalhou em 32 longas-metragens e 7 séries. foi presidente do SIAV-RS, da FUNDACINE RS e Coordenador do FAMES. Foi professor em 3 universidades e é professor na ABC.

junho 26.

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