Há um lugar, na superfície da água, em que a vida não é rio nem é ar. Neste espaço definido que a ciência chama de Neuston, gravitam vidas de minúsculos seres, se equilibrando, sem peso, sobre a nata da água ou pendurados sob o líquido.

Eles são o que separam a água do rio, a interface transparente entre o que inunda e o espaço total. Um mundo à parte, um lugar invisível aos olhos despidos. É provável que funcionem como as imensas cidades em que nos esquecemos de nós mesmos e dos outros.
Fazemos isto displicentes, sem a exata consciência de que a vida e o mundo são bem maiores. Como em metrópoles que também têm vidas intermediárias. Gente que existe a metros do chão, meio fora d’água e meio submersa no cotidiano. Milhares de indivíduos escondidos em apartamentos, que não saem de casa nem para comprar leite.
Pedem quase tudo por aplicativos, sozinhos em seus isolamentos emocionais, onde convivem com lembranças de uma vida ausente. Não é solidão, nem solitude. Não é desfrutar da própria companhia ou existir livre dos outros. É habitar o nada deslocado de si próprio e, ainda assim, continuar.
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