No Brasil o título do filme é “Dia D”, livre tradução do original “Disclosure Day”, aliás muito bem pensado como arte da propaganda, pois somos induzidos à memória do icônico Dia D, que marcou a tomada do litoral da Normandia, vital para o desfecho da Segunda Guerra.
De alguma forma, mesmo que não tenha sido a intenção de Spielberg e seus produtores induzir a essa analogia, em um dos assuntos que mais atormenta a humanidade há muitas décadas, há de alguma forma similitude, pois o filme no oferece uma trama cujo ponto de chegada se propõe ser a grande revelação ou, ainda mais significativo, aquele momento que pode ser o ponto de virada para a história humana. Um dia que possa ser escrito com letra maiúscula, onde finalmente saibamos que não estamos sós no cosmos. Mas deixando de lado as relações analógicas e desvestindo a fantasia presente em praticamente toda a obra desse grande diretor, podemos ver e refletir sobre esse filme a partir de outra mirada, que pode ser incômoda para certas ortodoxias. Nesse sentido, eu me atreveria a dizer que trata de um filme com alta carga filosófica, talvez o filme da maturidade definitiva do coautor, Spielberg. A coautoria se refere a que, mesmo sendo o roteiro assinado por seu parceiro de outros grandes êxitos, David Koepp, é e sempre será a visão e a mão de Spielberg que darão o selo final à obra, seu desenho artístico e a gama de sensações e sentimentos que esta provoca. E aqui desejo sugerir um olhar mais generoso e aberto àqueles que preguiçosamente o veem apenas como um maestro do espetáculo, onde, aliás, ele é um dos grandes artífices e gênios. Ou mesmo a quem o vê essencialmente como o standard do cinema hollywoodiano, um mestre em urdir tramas fantasiosas e efeitos sofisticados, com uma certa dose de sentimentalismo, cujos filmes resultantes estão entre os que mais contribuíram para consolidar a posição hegemônica das majors do entretenimento cinematográfico nos últimos 50 anos. Isso tudo tem um fundo de verdade, é certo, e é assim que funciona desde sempre a engrenagem dessa grande máquina que está prestes a completar 131 anos de existência, desde a exibição organizada pelos irmãos Lumière em Paris.
Mas a obra de Spierlberg tem sido muito mais do que isso, como pode ser visto em filmes emblemáticos como “A Lista de Schindler”.
A sensação que tive ao sair do cinema, depois de assistir “Dia D”, usando aqui o título brasileiro, é vê-lo como alguém que já chegou a seu zênite, que nada mais tem a provar ou mesmo a buscar, em termos de aceitação e aprovação. Alguém que se sente plenamente apto a mexer com uma grande incógnita que habita seu próprio ser. Como algo que quer se libertar enquanto “verdade”, ou mesmo como crença e sair do território da suposição e das fantasias conspiratórias. Uma verdade que passa pela tão esperada entrega de provas sobre o que há de oculto na suposta presença de extra-terrestres entre nós. Spielberg, ele mesmo, indo mais além da suposição lógica e probabilística de Carl Sagan, confessou em entrevista recente ao podcast de Michele Obama e Craig Robinson, ter uma forte crença de que “eles estão entre nós” há muito tempo e grande parte do que se poderia saber é oculto da opinião pública pelas mais diferentes razões estratégicas ou, como no caso do aparato militar e de informação dos EUA, por uma questão de Estado. O filme, aqui, funciona como uma antecipação ao amanhã, como ele de alguma forma já se antecipava premonitoriamente há 25 anos, quando dirigiu “Inteligência Artificial”, em um momento em que essa era apenas um tema digno de sci-fi e talvez de uma perspectiva futura distante. Ou mesmo, como já ensaiou, com o filtro quase ingênuo do olhar infanto-juvenil em “ET” ou a partir de uma perspectiva universalista em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, realizado há quase 50 anos, se dispõe a apresentar uma proposta de relação ética com seres que não se enquadram na lógica e leis humanas. Seus filmes neste tema, vão além do olhar desconfiado da sociedade sobre aquilo que os governos escondem, lançando a premissa da cooperação e do reconhecimento mútuo. Com esse terceiro e, creio, definitivo filme sobre o contato da humanidade com outra civilização além das fronteiras de nosso planeta – certamente mais avançada, ou melhor, muito mais avançada que o gênero humano – ele conclui um ensaio de alguém que parece não querer ceder à mera distopia. Neste filme atual, a presença extra-terrestre é capaz de desencadear a redefinição de todos nossos paradigmas, de científicos a religiosos e para isso é preciso que entre em cheque o poder de decisão – e ocultação – concedido aos ocupantes transitórios do Estado. Em “Dia D”, é também posta em questão a onipresença de um Estado paralelo, onde megacorporações insubmissas a qualquer tipo de controle social, reúnem informações e o controle sobre segredos mais além daqueles que os próprios organismos da comunidade de inteligência possuem. Algo que, em seu limite, já experimentado pela humanidade em trágicas e repetidas vezes, leva quase inevitavelmente ao totalitarismo, cujos traços e ambições estão cada vez mais presentes em distintos governos em quatro continentes nos dias correntes.
Spielberg não oferece aqui uma obra de fácil classificação ou enquadramento, como somos tentados a fazer apressadamente muitas vezes e que se evidenciam quando olhamos conhecidos sites especializados brasileiros, como Adoro Cinema, onde a classificação do filme está restrita à duas estrelas e meia.
Não tenho dúvida em dizer que mesmo considerando como predominante a perspectiva do entretenimento nessa obra, esta, sem dúvida, oferece outras camadas mais profundas onde cabe somente a nós, espectadores, desejar ou não as investigar.
Talvez com uma carga menor de densidade e incursões metafísicas como vimos em “Contato” (de Robert Zemeckis, 1997) ou em “Interestelar” (de Christopher Nolan, 2014), mas não menos capaz de gerar indagações que nos remetam a um ponto de virada civilizacional e de compreensão do universo. Diferente desses dois filmes que citei e que são emblemáticos no gênero, Spielberg prefere trabalhar com códigos mais compreensíveis e assimiláveis e com uma realidade mais plana, simbolizado às vezes por diálogos e colocações mais rasas, imediatamente identificáveis pelo público espectador em seu repertório, assim como nas cenas de ação, não deixa de usar convenções já bastante estabelecidas, como as clássicas perseguições automobilísticas e os aparatos policiais-militares que parecem tudo controlar. Aqui, no entanto, sua refinada inteligência criativa, mostra que – para bem e para mal – a difusão da comunicação instantânea, entrelaçando a cadeia de veículos tradicionais, como as redes de TV, com a avassaladora presença da Internet e das redes sociais, pode ser o maior antídoto e força reparadora no enfrentamento aos Estados visíveis e invisíveis, que cada vez querem sufocar as liberdades elementares, entre elas o direito à transparência da informação. Enfim, também cabe comentar a escolha do elenco, encabeçado pela inglesa Emily Blunt, uma atriz que sempre consegue dar força dramática, mesmo em filmes cujos elementos centrais não sejam seus elencos ou o que o senso comum no ecossistema audiovisual costuma chamar como “filmes de personagens”. Emily vem ganhando grande notoriedade desde o prêmio Bafta de melhor atriz, por sua marcante interpretação em “A Garota no Trem” (de Tate Taylor, 2016). A seu lado outro ator de origem inglesa, Josh O’Connor, ainda que sem uma carreira marcante, desempenhando muito bem a figura de um personagem perplexo e movido por suas convicções. E, ainda, curiosamente, como antagonista principal na trama, foi escolhido o também inglês Colin Firth. O que demonstra que a sabedoria madura de Spielberg expressa a clara consciência de beber nas melhores fontes, em especial quando se trata de interpretação. De resto, além dos sempre cuidadosos efeitos visuais e especiais, a magistral fotografia do polonês Janusz Kamiński, diretor de foto de Spielberg há 33 anos. Um artesão que sabe variar da dramaticidade do chiaroscuro à momentos de grande solaridade.
O filme, que já ultrapassou duzentos milhões de dólares em bilheterias ao redor do mundo, ainda deve estender sua estadia nos principais complexos de cinema por mais algumas semanas. Portanto, vale a experiência, pois é uma obra daquelas que pede a sala grande.
Beto Rodrigues – Produtor e Realizador Audiovisual
Pós-graduado em Cinema na Univ. Complutense de Madrid, foi sócio e fundador da Panda Filmes e Pé Na Estrada Filmes. É produtor, diretor e roteirista. Produziu e trabalhou em 32 longas-metragens e 7 séries. foi presidente do SIAV-RS, da FUNDACINE RS e Coordenador do FAMES. Foi professor em 3 universidades e é professor na ABC.
P.S. – texto sem uso de IA
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