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Santa Maria faz 168 anos em 2026. foto em: https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/wp-content/uploads/2025/07/Edicoes-55.png

NOSSA SANTA MARIA | POR FELIPE MÜLLER

Provocado pela Melina para escrever algo sobre a cidade de Santa Maria, que dia 17 de maio de 2026, completa 168 de emancipação política, resolvi fazer uma retrospectiva da minha vida nela. Sei que muitos irão se identificar com os fatos e lembranças que trarei e espero que com isso possa render minhas homenagens a cidade.

Meus pais se mudaram para Santa Maria em 1963, quando meu pai assumiu o cargo de professor do curso de Medicina Veterinária e minha mãe como professora primária na escola Cícero Barreto.

Nasci em 1966, em Taquara – RS, e só não sou santamariense em virtude de ser o primogênito e minha mãe resolveu estar perto de sua família para o parto, porém grande parte de minhas lembranças da infância estão nessa cidade. Fui alfabetizado em casa e depois lapidado na casa da Dona Albertina (professora aposentada que alfabetizava crianças no porão de sua casa na Rua Doutor Bozzano). Morei na Rua Coronel Niederauer, em frente a Loja Eletrofios, no Edifício Brenner, onde tive como vizinha a dona Perpétua, mão do Julinho, que na época tinha uma banca de revistas (Júlio Stand) na frente de nossa casa e depois participou ativamente da vida política de nossa cidade, principalmente na defesa de pessoas com deficiência.

Fiz meu primeiro grau (hoje ensino fundamental) no Instituto de Educação Olavo Bilac (não deixem privatizá-lo), quase ao lado de casa, onde minha mãe já trabalhava na época e tive a felicidade de ser seu aluno. Também tinha como área de brincadeiras, as praças Saturnino de Brito e dos Bombeiros, também jogávamos bola no campinho da paineira, mas não com tanta frequência, pois, às vezes, as coisas esquentavam por lá. Na praça Saturnino começam a aparecer os trailers de xis, o primeiro que lembro foi o Zeppelin e, depois, o Comilança. Frequentava o Avenida Tênis Clube, onde aprendi, além do tênis, a nadar, com os professores Darkson e Cechella (um atleta que nos deixou em 2019, mais de 30 anos após ter tido um coração transplantado).

No esporte, vivi um tempo no judô, na academia do Mestre Toshiro, que ficava na frente do saudoso Restaurante Augusto, porém numa das Colônias de Férias da ADUFSM (Associação Desportiva da UFSM) descobri a natação e tornei esse, o esporte da minha vida, não pelo meu desempenho, mas pelo empenho dos técnicos Juca, Darkson e Ciro e das amizades que permanecem até hoje. Aquelas amizades que formam as pessoas e que, naquela época, todos tinham a sua alcunha, alguns usavam os diminutivos do nome e outros tinham apelidos que talvez não possam ser usados hoje. Eu era o Gordo e tinha o Piriquito, Babalu, Múmia, Diabo, Pelanca, Salsicha, Fomfom, Pescoço, Urko e aí por diante. Treinávamos diariamente na piscina térmica da UFSM (das 18h às 20h), íamos e voltávamos de Excal (lembrem do ônibus amarelo) e andávamos a pé por toda a cidade. Na infância, as matinês no Glória ou no Independência, com um saquinho de balas chita.

Adolescemos juntos e vieram os saraus do ATC, das Dores, os bailes e boates do Comercial e Caixeral, as festas de 15 anos, os bailes de debutantes, os eventos da Liga Feminina de Combate ao Câncer, nesse mesmo tempo iniciei o segundo grau (hoje ensino médio) no Colégio Santa Maria. Os sábados pela manhã no calçadão (empadinha de camarão, ciryllinha e um presidente na Copacabana, uma das poucas coisas que ainda podemos fazer hoje), os martelinhos no Bar do Pingo (para escapar do frio), a decisão entre fazer cursinho no Master, Riachuelo ou Constantino Reis e a escolha do curso superior. Escolhi Engenharia Elétrica na UFSM e, em 1983, ingressei como estudante.

Escolhido o curso de graduação, desde o primeiro ano, comecei a trabalhar de estagiário no Núcleo de Processamento de Dados da UFSM e, dois anos depois, ingressei, através de concurso público, como Servidor Público Federal, no cargo de Programador de Computador. E já se vão 41 anos de dedicação a UFSM.

Porém, o período de graduação, vem aliado a muitas descobertas, namoros, festinhas e uma peregrinação pelos recantos da cidade. Sem querer ser exaustivo, vou listar os locais que me vem a memória e que encontrei muitos da nossa geração. Começando pelos Hors Concours: Boate do DCE, Tertúlia (acampamento na Estância do Minuano) e Panacéia. Daí passamos pelo Ponto de Cinema (saudades das conversas com a Lurdinha e o Miguel no balcão), Coyote, Casarão, Absinto, Expresso 362, Bar do Pateta, Maison Rouge, Itaimbar, Macondo, entre tantos outros, com figuras e as bandas fantásticas da época: Thanos, A Bruxa, Fuga, Doce Veneno, Nocet. Até hoje, muitos dessa turma, ainda estão ligados ao cenário musical da cidade e ao nosso convívio. No calçadão tínhamos o Bar Cristal, onde nos sábados ou após as provas da UFSM, tomávamos uma caipirinha e comíamos um picadinho. Tínhamos a companhia das figuras típicas da cidade: o Claudinho, o Paulinho Bilheteiro, o Crocante e aí vão.

Em 1987, me formei no Cine Independência e fui passar um tempo em Campinas (onde fiz mestrado e doutorado na UNICAMP), mas sempre que tinha tempo retornava a cidade para ver amigos e familiares. Em 1992, ingressei como professor da UFSM no curso de Informática e em 1993 terminei o doutorado e retornei definitivamente para Santa Maria, tendo comigo minha companheira Gisela, estamos juntos até hoje e tivemos duas meninas santamarienses.

A partir daí minha vida foi muito pautada pela UFSM, participei do movimento docente que, através da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (SEDUFSM), proporcionou imensas conquistas para a categoria e também me deu a formação necessária (muitas assembleias – saudades do Prof. Joel, comandos de greve e mesas de negociação) para assumir cargos administrativos na UFSM. Fui eleito Diretor e Vice-Diretor do Centro de Tecnologia e Reitor e Vice-Reitor da UFSM, cargos que me deram muitas alegrias e tristezas (a maior tristeza foi a tragédia da Boate Kiss no meu último ano de mandato). Fizemos a UFSM passar de 12 mil estudantes para mais de 30 mil, criamos inúmeros cursos novos de Graduação e Pós-Graduação, investimos pesado na infraestrutura para suportar esse crescimento e conseguimos os recursos para a construção do Centro de Convenções da UFSM, que hoje abriga todas nossas formaturas e diversos espetáculos artísticos.

Hoje, no ano que completo 60 anos de idade (me tornando legalmente idoso e adquirindo o direito a minha aposentadoria), fiz essa pequena retrospectiva sem nenhuma preocupação histórica ou cronológica, mas sim trazer algumas lembranças que tenho da cidade que levo no coração e que me ensinou a ser mais tolerante, mais inclusivo, mais letrado e que me proporcionou uma vida cheia de afetos. Alguns continuam, como a Vinícola Velho Amâncio (que beleza: o melhor Malbec do Brasil), o Inter-SM, os balneários do Itaara, a Cantina Torriani, o Bar da Casa (onde continuamos a encontrar a Lurdinha), os amigos. Fica meu abraço a vocês e a cidade que me acolheu e me proporcionou criar minha família. Parabéns Santa Maria e obrigado a todas as pessoas que, de uma forma ou de outra, me ajudaram nessa caminhada.

 

 

Felipe Martins Müller é professor titular da Universidade Federal de Santa Maria, vinculado ao Departamento de Computação Aplicada do Centro de Tecnologia. Possui graduação em Engenharia Elétrica pela UFSM, mestrado e doutorado pela Unicamp, além de estágio doutoral no Canadá e pós-doutorado no Reino Unido. Foi reitor da UFSM entre 2009 e 2013, vice-reitor entre 2005 e 2009, diretor do Centro de Tecnologia e presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa Operacional. Atua nas áreas de Engenharia de Produção, Ciência da Computação e Pesquisa Operacional, com ênfase em otimização combinatória, heurísticas, meta-heurísticas, roteamento, sequenciamento e scheduling. (ufsmpublica.ufsm.br)

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