Levo um tempo para absorver a batida de um romance. Um livro, como um filme, tem ritmo. E eu costumo ler em voz alta para percebê-lo. Faço isto, principalmente, no começo. A medida ajuda a entender o desenho da órbita das palavras que gravitam no texto. Pois bem: eis que nas primeiras páginas da obra de Maurício Mendes, O Homem Não Foi Feito Para Ser Feliz (Mondru, 2025), sou interrompido pela voz da Inteligência Artificial que mora no meu celular, esquecido no canto do sofá.
Ela me pergunta se eu quero que marque uma passagem de avião para São Paulo. É que um trecho do diálogo entre a enfermeira Ana e o médico Germano, o protagonista, foi pescado pela IA enquanto eu o recitava. Ana falava sobre um paciente apressado que rogava por atendimento, já que iria viajar no dia seguinte. “É que amanhã ele já volta para São Paulo. Quer tudo para ontem. Sabe esse povo que vai pra fora e fica todo besta? Tá lá com uma dor na perna”.
Um livro que começa em uma estrada escura, de madrugada, há 350 km de Fortaleza (CE), é um convite irrecusável para o amanhecer da estória. Sobretudo pela naturalidade com que os diálogos, e até mesmo o fluxo de pensamento, estão impressos nas 181 páginas de O Homem Não Foi Feito Para Ser Feliz. A narrativa parece tão verossímil quanto Germano. Ele não aparenta ser invenção, mas sim estar coberto de carne que sangra e recheado com a dureza dos ossos.

Maurício Mendes é bom de prosa. E ela transborda, brilha com cinismo e humor em seu texto de estreia. Germano é um homem misógino que filosofa sobre a vida, o que parece uma grande contradição. Há a tendência de acharmos que personagens assim, um tanto desprezíveis, são profundos como um pires. Mas seu caráter, cheio de rachaduras, é preenchido por uma existência, no fundo, frágil.
São os conflitos internos e as certezas de Germano que dão o tom em O Homem Não Foi Feito Para Ser Feliz. Ele é um médico pardo que ascendeu na vida e, no vazio que lhe toma junto com a necessidade de autoafirmação, tem relacionamentos com prostitutas.
Não é fácil construir alguém assim com a clareza necessária para despertar uma certa simpatia, ou pena, em alguns momentos. O fato dele ser pardo não é só mais um detalhe. Torna o texto ainda mais provocativo na bem cuidada edição da Mondru, cheia de ilustrações feitas por Jeferson Barbosa. A ficha catalográfica está no final, junto com os agradecimentos do autor.
Além de escritor, o autor cearense é médico nuclear. Frequentador de clubes de livros em Fortaleza, é um ledor voraz. Sua biblioteca e repertório são invejáveis e isto se reflete em um texto elegante e limpo. Seu romance tem algo de existencialismo com um sotaque nordestino. Uma mistura curiosa e que dá certo. O prefácio de Santiago Nazarian — que em 2007 foi eleito um dos escritores jovens mais importantes da América Latina, pelo júri do Hay Festival em Bogotá, na Colômbia — agrega valor ao título. É, portanto, um livro necessário.
Comente
comentários