O esvaziamento de escritores e curadoras por conta da censura promovida pela prefeitura é uma lição a ser guardada a sete chaves
Os norte-americanos tem um recurso interessante para avaliar projetos. Em trabalhos que já fiz para eles há sempre um tópico com o descritivo de lições aprendidas, as ruins e as boas. É uma marca importante para melhorar nos próximos desafios e também para repetir o que deu certo. Tem origem no pós-guerra e na Indústria Aeroespacial.
A censura da Prefeitura de São José dos Campos (SP) à escritora, feminista e lésbica Milly Lacombe foi um tiro que saiu pela culatra. Ela criticou a família tradicional brasileira em vídeo, afirmando que seria fonte de muitas das neuroses que temos na vida adulta. (Quem duvida disto?)

Políticos protestaram e o prefeito cancelou a participação de Milly, que já não iria à FLIM pelos riscos a sua segurança. Cortes de sua falas foram manipulados e divulgados na web, reduzindo o que disse a uma crítica dirigida — o que não deveria, mesmo assim, ser um problema. Mas o estrago já estava feito.


O assunto virou manchete em vários jornais e portais de notícia. Folha de S. Paulo, Metrópoles, G1, Carta Capital, Terra e emissoras de tv reportaram o ocorrido. Um prejuízo imenso para os 10 anos de consolidação deste que é o mais importante e aguardado evento literário do Vale do Paraíba.

O espaço, no Parque Vicentina Aranha, já atraiu gente de peso, como Mia Couto (Prêmio Camões) e Conceição Evaristo (Prêmio Jabuti). Agora, restará sempre a desconfiança dos convidados futuros. São José dos Campos, onde morei por 17 anos, é uma cidade conservadora por natureza, mas não desprovida de inteligência cultural.
Seguramente está constrangida com a falta de debate público e com aqueles que se ergueram como paladinos da “moral e dos bons costumes”. No fim, a prefeitura e os vereadores só ajudaram a promover os livros de escritores “indesejáveis” e aumentaram a curiosidade sobre o tema. Além, é claro, de cancelarem o evento.
Ricardo Mendes
Jornalista
Rede Sina Comunicação fora do padrão