Brigitte Bardot menstruou durante o voo que a trouxe ao Brasil em 1964. Maurício Kubrusly, ex-repórter da Globo, foi escalado para fazer a cobertura da chegada dela em Búzios, no Rio de Janeiro, para onde seguiu de carro, lugar em que a atriz tentava (e conseguiu) se esconder um pouco da fama. Estava mal-humorada, um tanto irritada com a situação.
Kubrusly era estagiário do Jornal do Brasil, o JB, e tinha 17 anos. Foi conhecer a rádio e caiu por acaso na redação do diário. Mandaram que voltasse na manhã seguinte, de terno e sem barba, para trabalhar. Um dia a chefia deu a ordem e ele chegou em Búzios. Foi assim que descobriu a empregada de Bardot saindo da casa onde a atriz francesa ficou hospedada.

A funcionária seguia para a farmácia para comprar absorventes higiênicos. O estagiário puxou conversa, soube do ânimo da moça e do ciclo menstrual dela. A história rendeu uma reportagem inusitada, publicada nas páginas do JB, embora o fato íntimo, por si só, não fosse nada de extraordinário. Afinal, mulheres sangram todos os meses.
O relato breve do episódio está no documentário Mistério sempre há de pintar por aí, do Globoplay, em que a Demência Frontotemporal (DFT) do jornalista é contada por amigos, com informações recuperadas de entrevistas que deu. O repórter vive hoje no sul da Bahia: com a esposa e sem a memória. Esqueceu de quase tudo, só não do nome dela: Beatriz, “aquela que traz felicidade”.
Mambo
Cecília Malan, correspondente internacional da Globo em Paris e Londres, chamou Bardot de “complexa” em um texto delicado e elegante em que reconstruiu a trajetória do ícone da Nouvelle Vague. Próxima do fim da vida, Bardot expressou pensamentos homofóbicos, rejeitou a presença de imigrantes e demonstrou apoio às ideias da direita na Europa. Uma contradição para quem foi sinônimo de liberdade elogiada até por Simone de Beauvoir, a feminista.
O que ficará de Madame Bardot na memória dos que viveram seu tempo é o cabelo desgrenhado, suas coxas grossas e o suor na pele em Et Dieu… créa la femme (E Deus Criou a Mulher), de 1956. Ela é Juliette, uma mulher sensual que se sacode ao som de um mambo louco. O filme de Roger Vadim é chamado por muitos de o “terremoto”. Ele preparou o terreno para o movimento cinematográfico francês, o mesmo que influenciou o Cinema Novo no Brasil de Glauber Rocha.

Brigitte se mostrava descalça, com apetite, sexualmente livre, despida e sem remorsos, o que se tornou a estética central da Nouvelle Vague. A imagem congelada em acetato do filme é o que ficará em torno da atriz como uma aura. Ela que abandonou a carreira aos 39 anos para se dedicar à causa animal. Sua memória sempre será como a estátua de bronze erguida na orla de Búzios, onde as pessoas param para fazer selfies, lembrando de um tempo que, como tudo, passa.

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