“A mulher que eu quero
Não precisa se banhar toda noite em água benta
(…)
Mas ela é mais verdadeira que o pão e a terra”
Joan Manuel Serrat
A História é cheia de pessoas heroicas que não são vistas, ouvidas e sequer registradas. Muitas vezes ofuscadas pelos protagonistas auto eleitos ou erigidos nos cultos à personalidade de quaisquer credos. Ou à sombra dos grandes heróis masculinos com quem partilharam trincheiras, “aparelhos” ou primeiras páginas de jornais e telas de TVs. Os que são contemplados prioritariamente nas definições das enciclopédias e dicionários, cabendo a heroína apenas a condição de forma feminina da palavra herói ou, o que é pior, o nome dado à diamorfina, opiácio que se revelou mais viciante que a morfina da qual foi sintetizado.
A razão deste artigo é lembrar uma dessas heroínas que recusava tal título, detestava a notoriedade, não discursava, nem dava entrevistas e se mantinha reservada nos encontros de velhos companheiros.
Maria Odila Rangel, a Didi, a pessoa que mais amei, minha companheira de vida por quase 40 anos, completaria, hoje, 11 de junho, 82 anos, se dois enfartes não a tivessem matado durante uma cirurgia vascular em 7 de abril de 2009 em Niterói, cidade que escolhera para viver seus últimos anos. Parabéns a todos os que pudemos conhecê-la e com ela conviver por onde passou e deixou amigos, em Brasil, Chile, Argentina, Suécia, Portugal e Paraguai, trabalhando, estudando e militando ou fazendo turismo, como Peru, Grécia e Itália.
Origens
Descendente de imigrantes do Arquipélago da Madeira que se estabeleceram no Sul do Espírito Santo e nas Regiões de Campos dos Goitacazes e Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Maria Odila nasceu na maternidade da Santa Casa da Misericórdia, no antigo Distrito Federal, filha de Augusta Fernandes Rangel e João Batista Rangel.
O nascimento foi traumático. Sua mãe fora diagnosticada com um mioma no útero que não podia ser tratado em Morro do Côco, onde morava, nem em Campos, sede do Município. Era 1944, tempo de guerra, e a família, pobre, vivia na próspera Zona Rural de tantos ricos com sobrenomes iguais ou semelhantes aos seus. Os Rangel e os Peçanha, por exemplo, quase iguais ao sobrenome de sua avó paterna: Adélia Rangel Pessanha.
Na Santa Casa do Rio, Augusta foi acolhida pelas freiras e passou meses se tratando até poder dar à luz Odila. Ela contava que se havia tornado uma ajudante para as irmãs de caridade, no atendimento às outras mães que por lá passavam. Feito o parto, a família voltou para Morro do Côco e trabalhou na terra até que, no começo dos anos 50, teve que mudar-se para Barro Branco, então Zona Rural de Caxias, e mais tarde para o Leblon, onde Odila e seu irmão Gerson cresceram e estudaram, enquanto seu pai trabalhava como porteiro em um edifício de classe média e sua mãe limpava, lavava e cozinhava para outros pequenos burgueses de nariz empinado.
Na pré-adolescência, Odila fez bons amigos entre a garotada da vizinhança, especialmente os irmãos Queiróz Benjamin (o jornalista Cid, o médico Leo e o cientista político César, o primeiro e o último destacados militantes da Luta Armada) e sua mãe, a química Iramaya, primeira presidente do Comitê Brasileiro de Anistia do Rio de Janeiro, corajosa, sábia, incansável lutadora. Tal amizade durou até sua morte.
Relato pessoal
No processo de Anistia, cada requerente precisava incluir um relato pessoal. Escrito em 2007, dois anos antes de sua morte, o de Odila expõe clara e sucintamente a trajetória que a levou à clandestinidade e ao exílio:
“Entrei para a Comissão de Financiamento da Produção em 1965. No começo de 1966, conheci o jornalista Luiz Alberto Barreto Leite Sanz, crítico de teatro do jornal Última Hora e chefe da Divisão de Mobilização de Comunidade da Fundação Escola Nacional de Saúde Pública, do qual me tornei amiga e cuja residência, em Ipanema, depois na Tijuca, comecei a frequentar. Luiz Alberto, então, era casado com Maria Ignêz da Silva Sanz, cujo irmão, meu colega de trabalho Paulo Roberto da Silva, eu namorava. Em 1967, eles foram morar em Niterói, primeiro em Icaraí e posteriormente em Santa Rosa. Eu os acompanhei, para ajudá-los com os filhos pequenos e preparar-me com vistas a fazer o vestibular para Economia, inscrevendo-me no Pré-Vestibular do Diretório Acadêmico da Faculdade de Economia, que era dirigido por uns conhecidos de Luiz Alberto. Ambos, Luiz Alberto e Maria Ignêz eram ativos politicamente (o que eu não sabia à época) e em sua casa se realizavam muitas reuniões, das quais eu não participava. Em 1968, Luiz Alberto fundou, junto com um grupo de jovens de Niterói, um grupo de teatro e me convidou. Na mesma época ele foi chamado pela Universidade Federal Fluminense (através de Nelson Pereira dos Santos) para participar da fundação do Instituto de Arte e Comunicação Social.
O Grupo de Teatro, que batizamos de Usina de Teatro, mas que nunca chegou a ser registrado, começou a montar uma peça, de criação coletiva, sobre a Reforma Universitária, então muito discutida, e recebeu o apoio ativo do Presidente e da Diretoria do DCE, que também participavam ativamente dos debates do Setor de Arte Cinematográfica do IACS, realizados no Cine Arte UFF. Algumas dessas sessões, parte do Curso de Extensão “Cinema: Arte ou Comércio”, no qual me inscrevi, coordenado por Luiz Alberto, foram palco de discussões ásperas entre partidários e opositores da ditadura. Por essa época eu já não estava mais no Curso Vestibular do Diretório da Economia. Decidira entrar para o novo Instituto, para estudar Publicidade. Interessados no vestibular para Comunicação, alguns membros da Usina de Teatro, dos Cine-Clubes da Economia e da Engenharia e bolsistas do Cine Arte UFF (inaugurado em setembro de 68) formaram um grupo de estudos que se reunia na casa de Luiz Alberto e tinha aulas com diversos professores, que também eram ativos no movimento de resistência à ditadura.
Em março, ingressei na primeira turma do Curso de Comunicação Social da UFF, depois de ser aprovada no vestibular”
Reproduzo a seguir trechos do auto de qualificação e de interrogatório de Luiz Alberto Barreto Leite Sanz à Delegacia Especializada de Ordem Social do Estado de São Paulo (datado de 13 de junho de 1970), documento oficial, em que estão relatados os fatos que nos levaram a abandonar o Rio de Janeiro e todas as nossas atividades profissionais:
“Em 1969, no mês de março, o interrogando transferiu sua residência novamente para o Rio de Janeiro, Estado da Guanabara, indo morar à Rua Senador Vergueiro, 239, apt.º 304, juntamente com sua esposa e filhos, bem como um seu amigo FAUSTO FLEURY ALVES DO AMORIM e MARIA ODILA RANGEL. Nessa mesma época, o interrogando foi procurado por um rapaz que identificou-se com o nome de SERGIO (…). SERGIO pediu (…) que lhe desse hospedagem (…).”
“Sérgio”, de quem passei a cuidar (orientada por um médico que fazia visitas constantes e por uma companheira, que mais tarde soubemos chamar-se Aretusa e ser colaboradora da repressão), estava ferido a bala no joelho.
Em seguida, em 1º de abril, fui demitida da Comissão de Financiamento da Produção sem qualquer explicação. Continuei no Curso de Comunicação Social e passei a ter uma bolsa de trabalho no ateliê de Serigrafia da Imprensa Universitária da UFF, sob a orientação de Luiz Alberto.
Por essa mesma época, Fausto Fleury, Luiz Alberto e eu criamos um escritório de Planejamento Visual e Produção Gráfica (“Linguagem”).
Continuando a reprodução de trechos dos autos do DEOPS de 13 de junho de 1970:
“SERGIO permaneceu hospedado em casa do interrogando por cêrca de três meses, mais ou menos, após o que, o interrogando convenceu FAUSTO FLEURY ALVES DO AMORIM a alugar um apartamento em companhia do mesmo, atendendo a um pedido do próprio SERGIO. (…) Em julho do ano de 1969, o interrogando foi procurado por um elemento que identificou-se com o nome de “EUGENIO”, dizendo estar a mando de SERGIO, pedindo-lhe que o abrigasse em sua casa. O interrogando novamente concordou (…). Em fins do mês de setembro 1969, o interrogando, juntamente com “EUGENIO” e FAUSTO FLEURY, mudou-se para um apartamento, na mesma rua Senador Vergueiro, 238, uma vez que já havia se separado de sua esposa.”
Pouco depois, Eugênio nos disse que Sergio abandonara panfletos e publicações da Var-Palmares no apartamento que Fausto tinha alugado e que isso poderia nos comprometer.
Mesmo assim, nos mantivemos trabalhando através do escritório de produção gráfica (tínhamos acabado de criar a marca, o cartaz e o prêmio do I Festival Internacional do Filme Científico e Tecnológico e estávamos prestando serviço para uma firma de consultoria de que era sócio o chefe de gabinete do Reitor da UFF, professor José Carlos de Almeida) e na Imprensa Universitária da UFF.
Ainda no começo de outubro, recebemos recados do Professor Roberto Amaral (ex-ministro de Ciência e Tecnologia, então. Diretor da Editora da Fundação Getúlio Vargas), por intermédio do curador da Cinemateca do Museu de Arte Moderna, Cosme Alves Neto, de que o Exército estava nos procurando.
Luiz Alberto havia sido procurado na FGV e no MAM, empresas em que trabalhara. Em ambos os lugares tinham pedido informações também a meu respeito e do nosso sócio. Alguns dias depois, Eugenio contou que Sérgio, sua mulher e Aretusa tinham sido presos, podendo levar à prisão de Luiz Alberto, Fausto e Odila.
No dia 18 de novembro, Luiz Alberto Sanz foi chamado ao Gabinete do Reitor da Universidade Federal Fluminense, oportunidade em que o chefe de Gabinete, Professor José Carlos de Almeida lhe comunicou que o DOPS do Estado do Rio de Janeiro havia solicitado seu endereço. O Sub-chefe de gabinete, Vinícius Gomes, entrou em contato com o Delegado Agra e acertou a apresentação de Luiz Alberto para o dia seguinte de manhã. Luiz Alberto compareceu e foi interrogado a respeito de Fausto e Odila, além do que o delegado lhe pediu o endereço de sua ex-mulher. Ficou combinado, então, que Luiz voltaria ao DOPS na manhã do dia seguinte para que o Delegado o levasse às autoridades sediadas na cidade do Rio de Janeiro que o queriam interrogar.
Avaliando a situação, Luiz Alberto decidiu deixar o Rio. Eu decidi permanecer para observar os acontecimentos, já que não sabia o que Aretusa e Sergio teriam dito à polícia, bem como temia pelo que Maria Ignêz pudesse dizer, já que eu e Luiz Alberto passamos a viver juntos em outubro e ela já manifestara rancor por diversas vezes, como foi notado até pela prima de Luiz, Helena Barreto Leite Valdez, que mal me conhecia, no auto de qualificação e interrogatório de 29 de julho de 1970, anexado a este requerimento:
“Não conhece MARIA ODILA RANGEL, salvo se essa pessoa é uma tal de “DIDI”, pessoa que conheceu no Rio de Janeiro, na casa da genitora de LUIZ ALBERTO, podendo acreditar que esta última possuía estreitas ligações com seu primo, uma vez que a esposa deste, MARIA IGNÊZ DA SILVA SANZ, possuía ciúmes dessa mulher.”
Fausto já saíra do Rio há alguns dias. Luiz partiu para São Paulo na noite do mesmo 19 e eu parti no dia seguinte, fugindo da certeza da prisão, já que seu irmão, o cineasta Sérgio Sanz (João Sérgio Barreto Leite Sanz) – com quem eu estava trabalhando no projeto de filmagens de “Angélica”, baseado em peça teatral de Lúcio Cardoso — foi preso e levado para o quartel da PE na Vila Militar. Se ele, que não tinha nada a ver, tinha sido levado (os militares falaram para a Mãe e a Madrinha de Luiz que, se ele se apresentasse, soltariam o Sérgio), o que aconteceria comigo, mulher de Luiz e enfermeira de “Sergio”?
Se perdera meu emprego regular em abril, agora, em novembro, eu já não podia sequer usar meu próprio nome.
Em 18 de maio de 1970, Luiz Alberto foi preso pela Operação Bandeirantes, em São Paulo. Eu abandonei a pensão em que vivíamos e fui para um pensionato feminino. Consegui um emprego de escriturária, com documentos falsos e permaneci no Brasil até o banimento de Luiz Alberto, em janeiro de 1971, quando parti para encontrá-lo no Chile. Lá tivemos um filho, João Luiz, em 25 de junho de 1973.
Fui qualificada indiretamente em 1º/10/1970, denunciada em 04/02/1971 e acusada no Processo nº 162/70, incursa nos artigos 14 e 42 do Decreto Lei nº 898/69, sendo absolvida por falta de provas pela 2ª Auditoria da 2ª Circunscrição da Justiça Militar do Estado de São Paulo em 18/07/1972, sendo a sentença confirmada pelo Superior Tribunal Militar em 16/10/1974, transitando em julgado em 21/10/1974. (Cf. Certidão do STM de 22/08/2001 e Certidão da 2ª Auditoria da 2ª CJM de São Paulo, da Justiça Militar Federal, de 20/02/1998)
Ficamos no exílio, entre Chile, Argentina e Suécia, até 9 de dezembro de 1979, quando desembarcamos no Rio. Durante esse tempo, tive recusado o direito de registrar meu filho nas Embaixadas de Santiago e Estocolmo, de obter passaporte – o que só consegui (apesar de decisão favorável da Justiça) depois da lei de Anistia de 1979. Em 1982, finalmente, consegui um emprego regular na Empresa Brasileira de Filmes S. A., como Arquivista de Filmes, função que aprendi na Suécia.”
Rumo ao desconhecido
O exílio de Odila começou quando uma jovem identificada como Ana Maria embarcou sozinha num ônibus para Porto Alegre em algum dia do final do verão de 1971. Não conhecia ninguém em qualquer lugar do caminho para Santiago do Chile. Sua rota de penitente só era amenizada por um conhecimento superficial do castelhano aprendido em conversas com seu amigo de adolescência Cabellito, numa viagem a Machu Picchu e nos livros de poesia das estantes de minha mãe.
Experiência tensa e angustiante para quem cresceu na roça e -passou a juventude na tranquilidade do bairro do Leblon. E agora se vê perseguida atravessando fronteiras que não conhece, rumo a uma possível Liberdade.
Acho que só agora tomei tino da profundidade desse drama pessoal, embora sempre tivesse consciência de que ela não deveria estar ali se não fosse por seu amor por mim e pela traição de minha ex, que negou todo o seu passado comunista em uma vingança particular e insana. que a levou a colaborar com a ditadura.
De Porto Alegre, Ana foi a Montevidéu, atravessou o Prata e em Buenos Aires tomou um avião para Santiago. Na Capital do Chile, no apartamento de Fausto Fleury à rua Grécia, atrás do Estádio Nacional, Ana deixou de existir, voltou a ser Maria Odila, a sábia e solidária Didi.
Então, nossa vida mudou. Nos convencemos que não havia condições de voltar para o Brasil, que seríamos mais úteis em agitação e propaganda, contrainformação e logística. Afinal, tínhamos trabalhado com comunicação, informação e artes gráficas tanto profissionalmente quanto voluntariamente. Odila se tornara uma hábil Planejadora Visual e falsificadora de documentos e eu ia melhorando no domínio da cinematografia e da escrita em espanhol e francês. Odila, Em pouco tempo já falava um castelhano de ótima qualidade, chegavam a perguntar-lhe de que parte do Chile era. P mesmo se repetiria na Suécia.
Mãos à obra
Ela foi estudar na Belas Artes e eu tinha começado a fazer documentários. Como resultado, fui convidado por Pedro Chaskel e Hector Ríos, que dirigiam o departamento de cinema da universidade do Chile, para integrar-me à equipe e para realizar o filme Não é hora de chorar. Em maio fizemos um curta inspirado na cinematografia que chamo de urgência (poderia também chamar de insurgente) de Santiago Álvarez e Mário Handler e ela veio montar o negativo como aprendiz de Pedro.
No ano seguinte ela voltou a Cine Experimental como assistente de direção no filme Unos pocos caracoles que dirigi para a Consejería de Desarrollo Social do Ministério da Família, em Chiloé, no Sul do Chile. A ilha nos apaixonou, apesar do frio, muito frio, era inverno. Se bem me lembro, passamos lá o aniversário de Odila. Estávamos com o fotógrafo Carlos Gonzáles e o engenheiro de som e também diretor Leonardo Céspedes. Uma equipe solidária e competente.
Pouco depois de voltarmos para Santiago fomos despejados da casa em que vivíamos, o proprietário não queria mais alugar para brasileiros, vistos pela burguesia como parte das inexistentes forças armadas de Allende. Nos mudamos para um sítio da Vanguarda Popular Revolucionária e ficamos lá durante mais 1 ano. Ficava num lugar afastado, na cidade de Talagante.
Odila se sentia muito isolada, apesar de os moradores do lugar, praticamente todos da unidade popular, nos darem o melhor tratamento possível. Nos ajudavam a plantar, irrigar, colher. Nos ensinavam a preparar receitas tradicionais, a pescar com as mãos… E nós compartilhávamos tudo com os vizinhos. Então, ela estava bem cercada.
Analisando mal a situação do país acreditamos que viria uma época de estabilidade, um bom tempo para termos filhos. Decidimos engravidar. Começou a sabotagem ao governo, atingindo violentamente o povo. E a coisa pegou, porque faltava tudo. Odila, sendo fumante inveterada desde os 18 anos, o boicote das fumageiras e dos comerciantes calou fundo em sua ansiedade.
Isolada em Talagante, Odila saía por conta própria a percorrer a cidade inteira com a barriga já grande para obter cigarros, obter pão… Era um boicote muito forte e nós, eu e Fausto, nosso melhor amigo, achamos que seria uma boa ocasião para parar de fumar, porque não é bom grávida fumar e ela resistiu a isso, então nós às vezes achávamos o cigarro no mercado negro e escondíamos. ela ficava desesperada.
Na época em que estava previsto o nascimento nos mudamos de novo para Santiago, ficamos hospedados na casa do Bona Garcia, o mesmo companheiro que nos acolheu no sítio da VPR, e de sua mulher Celinha. Eles cuidaram muito da Odila. Eu continuava trabalhando.
Poucos dias depois do nascimento de nosso filho João Luiz houve o ensaio do golpe, o Tanquetazo, foram se eu não me engano 4 dias. Nos havíamos mudado para uma casa própria nos últimos dias de junho. Apesar de tudo, Odila estava contente. Minha mãe Luiza tinha vindo para o nascimento e trouxe notícias da família dela.
Menos de dois meses depois, em 11 de setembro veio o golpe definitivo. Meu irmão, Sérgio Sanz, tinha sido preso. Quando foi solto lhe deram uma semana para sair do Chile. Foi lá em casa, com o Jean Marc Van der Weid, nos buscar. Eu ainda queria ficar e resistir, afinal, tanto Odila quanto eu, nos sentimos em casa no Chile. Os três me convenceram a partir. Odila, mais sábia que eu, invocava nossos filhos para me convencer.
Na manhã do dia seguinte entrávamos na embaixada da Argentina para conviver com outros 700 refugiados de distintas e diversas nacionalidades, mas essa é uma outra história que vamos contar em outro dia.
Maria Odila Rangel, falecida em 2009, deixou uma pesquisa sensível sobre infância, saúde mental e combate ao estigma. Seu TCC analisou o Projeto BRINCAR, do IPUB/UFRJ, que aproximava crianças de familiares internados por meio do lúdico. O estudo mostra como a convivência pode transformar medos e preconceitos sobre a doença mental.
O conteúdo foi cedido à Rede Sina por seu companheiro, Luiz Alberto Barreto Leite Sanz.
A obra permanece como memória importante da luta por cuidado mais humano e antimanicomial. Leia em:

LUIZ ALBERTO BARRETO LEITE SANZ
Jornalista, cineasta, educador, diretor de espetáculos, técnico cinematográfico e estivador. Exerceu suas funções em Brasil, Chile, Suécia e República da Guiné (nesta, como consultor da UNESCO na área de Comunicação em Matéria de Educação). Mais conteúdo dele em:
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