BAJO LA LUNA
Uma mulher caminha só
nas ruas de Porto Alegre,
o coração nos tímpanos.
Una mujer camina en las
calles de Buenos Aires.
Solo la luna la ilumina.
Uma mulher caminha na rua.
O medo dá vida às sombras.
De qualquer arbusto
uma ameaça.
É século 21.
Bajo la luna,
una mujer camina en las
calles de Santiago de Chile.
Ella no desiste.
Uma mulher, na rua, em Cabul.
Las mujeres siguen.
As mulheres, seguimos.
A caminhada da mulher
ainda é um susto.
O PESO DE UM PÁSSARO
Ter mais do que o peso de um pássaro
salvaria uma mulher da fogueira –
diziam, nos tempos da Inquisição.
E pesavam as acusadas de bruxaria.
Era preciso pesar.
Provar que tinham alma
E a alma – diziam – pesa.
Em uma cidade da Holanda
há uma balança para pesar bruxas.
Heksenwaag, a balança das bruxas,
ainda está lá em Oudewater.
Ter mais do que o peso de um pássaro
e palavras doces.
Ter mais do que o peso de um pássaro
e ser cativa, submissa.
Temos mais do que o peso de um pássaro
e nossas palavras nos fazem voar.
LATITUDE 34
Ficou um beijo
na esquina de Corrientes
com Callao.
Era um convite
e uma despedida.
Uma ilusão me deixava,
Enquanto teus passos seguiam.
Os meus, tomaram outra direção.
Um poeta que me lê
desde lejos
em uma língua estrangeira
a tua,
que me percorre
e não me decifra.
DENTES E SERPENTES
Dentes e serpentes
são palavras que rimam.
Serpentes não têm dentes.
Palavras podem ser
só palavras.
Rimas não dão conta
de dizer.
E as palavras:
O que dizem?
Rumor da língua,
dientes y serpientes
rimam em espanhol.
Rimar é ter rumo?
Remar dá um rumo?
Remar ou rimar:
É uma ordem?
A palavra morder
também não têm dentes.
As palavras não têm dentes,
mas podem morder.
E, NO ENTANTO, CANTA
Um pássaro canta
na noite de insônia,
um sabiá perdido
nas luzes da cidade.
Risca o céu na janela
um cigarro
lançado de outra janela,
cadente luz.
Sem desejos a fazer,
também fumo sem esperança.
Existe algum sentido?
Um sabiá perdido,
entre as luzes da cidade,
canta.
Nesta fria noite de chuva,
acalanto,
perdidos, nós dois.
E ele, no entanto, canta.
ESCUTAR É LENTO
Escutar é lento.
É ouvir o silêncio,
o grão na voz,
o engasgo.
Escutar a falta
nos excessos,
o vazio nos objetos
acumulados,
o grito na garganta,
a amargura
na gargalhada.
Escutar-se é
ainda mais lento.
Eu tento.
E, NO ENTANTO, CANTA
Um pássaro canta
na noite de insônia,
um sabiá perdido
nas luzes da cidade.
Risca o céu na janela
um cigarro
lançado de outra janela,
cadente luz.
Sem desejos a fazer,
também fumo sem esperança.
Existe algum sentido?
Um sabiá perdido,
entre as luzes da cidade,
canta.
Nesta fria noite de chuva,
acalanto,
perdidos, nós dois.
E ele, no entanto, canta.
ESCUTAR É LENTO
Escutar é lento.
É ouvir o silêncio,
o grão na voz,
o engasgo.
Escutar a falta
nos excessos,
o vazio nos objetos
acumulados,
o grito na garganta,
a amargura
na gargalhada.
Escutar-se é
ainda mais lento.
Eu tento.
UM SONHO
Encontrei Oyá a chorar,
tempestades, trovoadas,
pranto por suas filhas e filhos
assassinados todos os dias,
sem lar.
Dos olhos de Oyá
escorriam rios,
lágrimas sem fim,
salgado mar.
Como consolo lhe disse:
que por seus filhos iria lutar.
Oyá balançou a cabeça,
gargalhou raios, trovoadas.
O que poderia
tão fraca, mortal mulher,
como iria lutar.
É simples, falei a Oyá.
Mesmo fracas, mortais,
quando uma guerreira cai
outra assume em seu lugar.
MEU POEMA
Vai, meu poema,
como um hino,
que se entoa, uma oração,
ou uma canção à toa,
quando chega a manhã.
Vai, meu poema.
consolar o menino,
que dormiu na rua,
acarinhado pela lua.
Vai, meu poema,
acordar o homem,
que precisa de trabalho,
que precisa de pão,
de coragem.
Vai, meu poema,
neste dia nublado,
e abraça gente
de toda a sorte,
o que estiver cansado,
o que estiver humilhado,
o que estiver sem esperança.
E vem, meu poema,
quando chegar a noite,
que eu te recrio
na madrugada.
***

Maria Alice Bragança
Poeta, jornalista, feminista, Maria Alice Bragança nasceu em Porto Alegre, RS, Brasil. Graduada e mestre em Comunicação Social, foi professora de Jornalismo e de Artes Visuais na Universidade Feevale, Novo Hamburgo, RS, com participação em congressos de pesquisa nacionais e internacionais.
É autora dos livros de poesia “Quarto em quadro” (1986), “Cartas que não escrevi” (2019), “Misterioso pássaro” (haicais, 2021) e “Escutar é lento” (2024). Participou de antologias e publicações literárias no Brasil, Cabo Verde, Chile, Espanha, México, Peru e Portugal. Seus poemas e haicais foram traduzidos para o aimará, espanhol, inglês e japonês.
É idealizadora e autora da pesquisa “A poesia escrita por mulheres no Rio Grande do Sul”, cujos primeiros resultados foram apresentados na Festa Literária de Santa Maria (Santa Maria, 2022), Feira do Livro de Caxias do Sul (Caxias do Sul, 2023) e I Encontro Regional Sul do Mulherio das Letras (Florianópolis, 2024).
Integra o coletivo feminista literário Mulherio das Letras e vice-presidenta Administrativa da Associação Gaúcha de Escritores (AGES), gestão 2025/2026, ex-diretora de Comunicação, 2019-2020; 2023-2024.
Rede Sina Comunicação fora do padrão