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Todas* OPINIÃO E LITERATURA* PORTAL* SINA AUTORALMaria Alice Bragança

DEZ POEMAS DE MARIA ALICE BRAGANÇA

By SINA
21 de maio de 2026 4 Min Read
0

 

BAJO LA LUNA

 

Uma mulher caminha só

nas ruas de Porto Alegre,

o coração nos tímpanos.

 

Una mujer camina en las

calles de Buenos Aires.

Solo la luna la ilumina.

 

Uma mulher caminha na rua.

O medo dá vida às sombras.

De qualquer arbusto

uma ameaça.

É século 21.

 

Bajo la luna,

una mujer camina en las

calles de Santiago de Chile.

Ella no desiste.

 

Uma mulher, na rua, em Cabul.

Las mujeres siguen.

As mulheres, seguimos.

 

A caminhada da mulher

ainda é um susto.

 

O PESO DE UM PÁSSARO

 

Ter mais do que o peso de um pássaro

salvaria uma mulher da fogueira –

diziam, nos tempos da Inquisição.

E pesavam as acusadas de bruxaria.

 

Era preciso pesar.

Provar que tinham alma

E a alma – diziam – pesa.

 

Em uma cidade da Holanda

há uma balança para pesar bruxas.

Heksenwaag, a balança das bruxas,

ainda está lá em Oudewater.

 

Ter mais do que o peso de um pássaro

e palavras doces.

Ter mais do que o peso de um pássaro

e ser cativa, submissa.

 

Temos mais do que o peso de um pássaro

e nossas palavras nos fazem voar.

 

LATITUDE 34

 

Ficou um beijo

na esquina de Corrientes

com Callao.

Era um convite

e uma despedida.

 

Uma ilusão me deixava,

Enquanto teus passos seguiam.

Os meus, tomaram outra direção.

 

Um poeta que me lê

desde lejos

em uma língua estrangeira

a tua,

que me percorre

 

e não me decifra.

 

DENTES E SERPENTES

 

Dentes e serpentes

são palavras que rimam.

Serpentes não têm dentes.

 

Palavras podem ser

só palavras.

Rimas não dão conta

de dizer.

E as palavras:

O que dizem?

 

Rumor da língua,

dientes y serpientes

rimam em espanhol.

 

Rimar é ter rumo?

Remar dá um rumo?

Remar ou rimar:

É uma ordem?

 

A palavra morder

também não têm dentes.

 

As palavras não têm dentes,

mas podem morder.

 

E, NO ENTANTO, CANTA

 

Um pássaro canta

na noite de insônia,

um sabiá perdido

nas luzes da cidade.

 

Risca o céu na janela

um cigarro

lançado de outra janela,

cadente luz.

Sem desejos a fazer,

também fumo sem esperança.

 

Existe algum sentido?

 

Um sabiá perdido,

entre as luzes da cidade,

canta.

 

Nesta fria noite de chuva,

acalanto,

perdidos, nós dois.

E ele, no entanto, canta.

 

ESCUTAR É LENTO

 

Escutar é lento.

É ouvir o silêncio,

o grão na voz,

o engasgo.

 

Escutar a falta

nos excessos,

o vazio nos objetos

acumulados,

o grito na garganta,

a amargura

na gargalhada.

 

Escutar-se é

ainda mais lento.

Eu tento.

 

E, NO ENTANTO, CANTA

 

Um pássaro canta

na noite de insônia,

um sabiá perdido

nas luzes da cidade.

 

Risca o céu na janela

um cigarro

lançado de outra janela,

cadente luz.

Sem desejos a fazer,

também fumo sem esperança.

 

Existe algum sentido?

 

Um sabiá perdido,

entre as luzes da cidade,

canta.

 

Nesta fria noite de chuva,

acalanto,

perdidos, nós dois.

E ele, no entanto, canta.

 

ESCUTAR É LENTO

 

Escutar é lento.

É ouvir o silêncio,

o grão na voz,

o engasgo.

 

Escutar a falta

nos excessos,

o vazio nos objetos

acumulados,

o grito na garganta,

a amargura

na gargalhada.

 

Escutar-se é

ainda mais lento.

Eu tento.

 

UM SONHO

 

Encontrei Oyá a chorar,

tempestades, trovoadas,

pranto por suas filhas e filhos

assassinados todos os dias,

sem lar.

 

Dos olhos de Oyá

escorriam rios,

lágrimas sem fim,

salgado mar.

 

Como consolo lhe disse:

que por seus filhos iria lutar.

Oyá balançou a cabeça,

gargalhou raios, trovoadas.

O que poderia

tão fraca, mortal mulher,

como iria lutar.

 

É simples, falei a Oyá.

Mesmo fracas, mortais,

quando uma guerreira cai

outra assume em seu lugar.

 

MEU POEMA

 

Vai, meu poema,

como um hino,

que se entoa, uma oração,

ou uma canção à toa,

quando chega a manhã.

 

Vai, meu poema.

consolar o menino,

que dormiu na rua,

acarinhado pela lua.

 

Vai, meu poema,

acordar o homem,

que precisa de trabalho,

que precisa de pão,

de coragem.

 

Vai, meu poema,

neste dia nublado,

e abraça gente

de toda a sorte,

o que estiver cansado,

o que estiver humilhado,

o que estiver sem esperança.

E vem, meu poema,

quando chegar a noite,

que eu te recrio

na madrugada.

 

 

***

Maria Alice Bragança

Poeta, jornalista, feminista, Maria Alice Bragança nasceu em Porto Alegre, RS, Brasil. Graduada e mestre em Comunicação Social, foi professora de Jornalismo e de Artes Visuais na Universidade Feevale, Novo Hamburgo, RS, com participação em congressos de pesquisa nacionais e internacionais.

É autora dos livros de poesia “Quarto em quadro” (1986), “Cartas que não escrevi” (2019), “Misterioso pássaro” (haicais, 2021) e “Escutar é lento” (2024). Participou de antologias e publicações literárias no Brasil, Cabo Verde, Chile, Espanha, México, Peru e Portugal. Seus poemas e haicais foram traduzidos para o aimará, espanhol, inglês e japonês.

É idealizadora e autora da pesquisa “A poesia escrita por mulheres no Rio Grande do Sul”, cujos primeiros resultados foram apresentados na Festa Literária de Santa Maria (Santa Maria, 2022), Feira do Livro de Caxias do Sul (Caxias do Sul, 2023) e I Encontro Regional Sul do Mulherio das Letras (Florianópolis, 2024).

Integra o coletivo feminista literário Mulherio das Letras e vice-presidenta Administrativa da Associação Gaúcha de Escritores (AGES), gestão 2025/2026, ex-diretora de Comunicação, 2019-2020; 2023-2024.

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