O cenário político brasileiro viveu um verdadeiro terremoto na semana passada, a partir das revelações das reportagens do site Intercept Brasil acerca das relações entre o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. A informação de que Flávio negociava com Vorcaro recursos para a realização de um filme sobre a vida de seu pai demonstra a existências de laços significativos entre a família do ex-presidente e o banqueiro preso por golpes financeiros. Os detalhes desta relação, que como se viu envolve também o irmão de Flávio, Eduardo, assim como ONGs, emendas parlamentares, produtoras audiovisuais, recursos da prefeitura de São Paulo e uma intrincada teia de relações políticas e financeiras, já são de conhecimento público. Estes detalhes mostram também que é possível que entre as dezenas de milhões de reais envolvidos uma parte tenha sido de fato embolsada pela família, entre outras coisas financiando a estadia de Eduardo nos Estados Unidos. Ainda assim é interessante notar que toda esta mobilização financeira tenha por pretexto a realização de um filme, uma produção audiovisual.
Mas não temos apenas um filme. Além de “Dark Horse”, produção ficcional que estaria sendo financiada por Vorcaro, houve outra iniciativa do bolsonarismo no campo do audiovisual. Na mesma semana em que estourou o escândalo das gravações de conversas entre Flávio e Vorcaro, estreava em cinemas de 17 estados brasileiros o documentário “A Colisão dos Destinos”, do estreante diretor Doriel Francisco. Esta segunda produção audiovisual envolve também o deputado Mário Frias, do PL, que foi um dos articuladores do “Dark Horse”. Esta eventual coincidência nos aponta para uma reflexão acerca da relação entre o cinema e a política, e mais além, acerca da capacidade demonstrada pela extrema direita de construir seu discurso a partir de mecanismos de linguagem distintos daqueles utilizados pela política tradicional.
Por isso este artigo não vai se deter nos detalhes das negociatas que envolvem o levantamento de recursos para estes filmes. Boa parte da imprensa já está se dedicando a aprofundar as informações acerca das relações entre Vorcaro e a família Bolsonaro. Mas esse episódio pode também ser analisado a partir do instrumento escolhido para pela família incidir sobre o cenário político. Duas produções audiovisuais, focadas na figura do líder máximo do movimento, programados para ser lançados em pleno período eleitoral. Esta iniciativa nos provoca a refletir também acerca de como a extrema direita busca deliberadamente utilizar a linguagem do audiovisual para se comunicar com a cidadania.
Esta abordagem não é nova. Uma das características dos movimentos fascista e nazista no século XX era justamente esta habilidade em utilizar linguagens inovadoras no campo da política. Seu uso das artes e da cultura para promover o seu projeto político foi sempre muito evidente. Mussolini, na Itália, valorizava a poesia futurista e patrocinava as artes plásticas e a arquitetura, materializando em monumentos e em esculturas o seu projeto de uma Itália imperial e poderosa. Hitler, na Alemanha, tinha também esta abordagem estética da política. Do estilo dos uniformes das SS aos filmes épicos de Leni Riefenstahl, o nazismo na Alemanha sempre buscou transmitir sua mensagem utilizando produções artísticas e culturais. Jornais, programas de rádio, filmes, eventos esportivos, músicas e obras de arte, desfiles eram instrumentos políticos tão importantes quanto os discursos e as propostas políticas do Führer.
Esta abertura capaz de identificar o poder das linguagens das artes como instrumento político, portanto, é uma tradição que vem de longe no campo da extrema direita. E ela explica em certa medida, a vantagem que a direita vem demonstrando em conquistar corações e mentes pelo mundo inteiro. Enquanto as forças democráticas e mesmo a comunidade acadêmica priorizam o discurso racional, argumentos baseados em evidências empíricas e científicas, a direita apela diretamente para sentimentos, para dimensões afetivas, para imagens. Esta abordagem simplifica os conflitos, estabelecendo uma dicotomia do “bem contra o mal” e construindo identidades políticas a partir desta dimensão subjetiva. Enquanto o campo democrático tenta tratar da complexidade estrutural dos problemas sociais, a direita prioriza um conteúdo simplificador, que prioriza a criação de um laço afetivo entre os líderes e sua base. As forças democráticas e a academia tendem a privilegiar o discurso racional, a argumentação plural e a informação exaustiva. Disso resulta um discurso que é necessariamente complexo, especialmente para um público de pouca escolaridade. Enquanto isso a direita busca a simplicidade e a comunicação direta.
E é neste contexto a linguagem do cinema é preciosa. Ideias acompanhadas de imagens, para um público já educado a se relacionar com o mundo através de meios audiovisuais, têm uma força e atingem muito mais diretamente a sensibilidade dos cidadãos. Sobretudo se elas se baseiam em uma dicotomia simplista onde temos de um lado os “mocinhos”, nossos bravos líderes da direita, e de outro os “bandidos”, a esquerda. Isto mostra que os esforços cinematográficos da família Bolsonaro não são uma coincidência, fazem parte de uma estratégia de comunicação sistemática e sofisticada. Enquanto a esquerda busca conquistar adesões a partir da racionalidade, tarefa complexa e difícil, a direita conquista corações, usando imagens e conceitos simplificadores.
Isto nos leva a outro elemento importante que caracteriza a extrema direita, a sua relação com as artes e a cultura. Se ficamos apenas nas aparências, no discurso formal, poderíamos ter uma impressão de que a extrema direita é contra a cultura e as artes. Sua postura agressiva e crítica em relação ao tema, como os ataques a artistas ou à Lei Rouanet, suas medidas políticas no poder, como a extinção do Ministério da Cultura, poderiam nos dar a impressão de que as artes e a cultura não são valorizadas pela extrema direita. Mas isto é olhar apenas a superfície, porque na verdade é que é justamente por compreender a importância da cultura que eles atacam expressões artísticas com as quais eles não concordam.
A direita é contra a cultura crítica, a direita é contra os artistas que produzem uma arte que questione o sistema e as injustiças sociais. A extrema direita é contra as expressões culturais do povo, contra a cultura que cria identidade e gera cidadãos conscientes e críticos. Mas isso não acontece porque eles não valorizam a cultura. Pelo contrário, é justamente por entender o poder das artes e da cultura para a construção de identidades políticas é que a extrema direita valoriza iniciativas audiovisuais. Tanto que, como vimos, historicamente os governos da extrema direita sempre foram muito ativos no campo cultural. E não é à toa que nos últimos anos um dos principais instrumentos políticos da extrema direita brasileira é a produtora “Brasil Paralelo”, que se dedica a produzir conteúdo audiovisual focado em temas políticos.
E é isto que explica as iniciativas cinematográficas que vieram à tona nas últimas semanas. Além de, ao que tudo indica, servir também para desviar dinheiro dos seus ricos “investidores” para os bolsos da família Bolsonaro, “Dark Horse” e “A Colisão dos Destinos” faziam parte de uma estratégia política. O documentário, lançado no primeiro semestre, e o filme, previsto para estrear em setembro, eram instrumentos políticos preciosos para a candidatura de Flávio Bolsonaro neste ano eleitoral, coesionando sua base política em torno da figura do “mito”. Eram parte da estratégia de campanha, o que mostra o valor que a direita atribui às artes e à cultura como elementos para a construção de identidades políticas. A aventura cinematográfica da família Bolsonaro mostra que a extrema direita pode ser tosca e conservadora, mas tem muita consciência da importância de uma ação no campo cultural que sirva como um instrumento de mobilização e doutrinação.

Tarson Núñez
Doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador associado do INCT Observatório das Metrópoles. Servidor estadual concursado da Secretaria de Planejamento do estado do Rio Grande do Sul, como pesquisador da extinta Fundação de Economia e Estatística. Na Fundação coordenou um programa de pesquisa sobre a Economia Criativa, onde estudava o papel da cultura e das artes para o desenvolvimento do estado. Neste período assessorou a Secretaria de Estado da Cultura na implementação do programa “RS Criativo”.
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