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DARK OU SLOW HORSE? DO CINEMA NOVO AO BANCO MASTER. por ROGER BAIGORRA MACHADO

O filme “Dark Horse”, a cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, nem foi lançado e já está na história do cinema nacional. Dia após dia, ao seu redor, vai se revelando um escândalo político-financeiro que, ao que tudo indica, vai influenciar as próximas eleições. Ou melhor, já influenciou.

A Melina, editora da Rede Sina, mandou mensagem e me pediu um texto sobre todo esse escândalo envolvendo o Flávio Bolsonaro, o filme e o Banco Master. Eu devo admitir, estava acompanhando superficialmente. E então fui ler e assistir algumas coisas. E é óbvio que ao assistir as entrevistas de Flávio sobre o “financiamento” do filme, não tive como não pensar em outra coisa, senão no Cinema Novo. Afinal, o mais incrível sobre o Cinema Novo é que ele não envelhece nunca.

Pensei no filme do Glauber Rocha, Terra em Transe. Ele, o Flávio, parece um personagem do filme. Aliás, o Eduardo, o Renan, o Carlos e o pai, todos eles.

No clássico de 1967 (filmado em 1966, dois anos após o golpe civil-militar), Glauber Rocha imaginou um país chamado Eldorado. Uma nação tropical, pobre e com políticos quase messiânicos. Em Eldorado ocorre a ascensão de uma direita violenta e reacionária, cujo crescimento se aproveita de uma esquerda que se mostrou incapaz de dialogar com suas bases (qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência). Uma terra dominada por oligarquias, por banqueiros, líderes religiosos e intelectuais, estes últimos, impotentes. Onde as crises políticas de Eldorado, os corriqueiros golpes de Estado e o uso da religião para fins políticos, nos são apresentados como um espetáculo operístico. Tudo é exagerado.

No filme do Glauber, os personagens discursam como se cada fala decidisse o destino da civilização. Os ricos agem como ricos, senhores feudais de gravatas. O povo assiste ao colapso da saúde, da educação, como figurante e espectador permanente da própria tragédia. Os políticos vivem do país, enquanto os trabalhadores mantém as elites enquanto são destituídos de direitos.

Na época em que o filme foi lançado, ele parecia um enorme exagero alegórico. Muita gente não gostou. Outros tantos não entenderam. Por sorte, nem os milicos entenderam, tanto que liberaram o filme. Achavam que Glauber havia ultrapassado a fronteira da metáfora e entrado no terreno da caricatura.  “O povo não vai entender…” Afinal, quem acreditaria num país em que banqueiros orbitariam líderes populistas, pobres seguiriam sempre pobres, enquanto crises institucionais seriam convertidas em teatro permanente para o consumo público ao encobrir o desvio de dinheiro? 

Quem imaginaria uma República em que discursos grandiosos sobre pátria, Deus, Família, moralidade e salvação nacional conviveriam naturalmente com relações nebulosas entre poder político, dinheiro privado, vaidade messiânica e espetáculos midiáticos cuidadosamente encenados?

Para este texto, assisti novamente Terra em Transe. Na última vez que assisti, acho que em 2003, quando eu cursava História na UFSM. E olhando hoje, especialmente diante do escândalo envolvendo o financiamento milionário de Dark Horse, e percebendo as conexões entre figuras do bolsonarismo e o Banco Master. Assistindo as entrevistas de Flávio negando tudo com absoluta tranquilidade cênica, Terra em Transe já não parece exagero.

Terra em Transe parece um documentário. Um método de observação do nosso país.

Glauber compreendeu antes de muita gente que o Brasil não funciona apesar do delírio político de suas elites e do uso do Estado para fins privados, ele funciona através dele. É o banqueiro influente circulando discretamente pelos bastidores do poder. É o líder político tratado como mito e, simultaneamente, como salvador da pátria e produto midiático. Os escândalos e a corrupção que são absorvidos como entretenimento cotidiano. Os discursos moralistas convivendo com relações opacas de poder e dinheiro. Tudo isso é Terra em Transe. E tudo isso é Brasil.

Glauber entendeu algo estrutural sobre as elites brasileiras: elas raramente desaparecem.

Como diria uma colega de trabalho, “muda o penteado, mas a noiva é a mesma”. Em Terra em Transe, as oligarquias usavam a retórica do patriotismo, da religiosidade, da família e da estabilidade enquanto negociavam o país nos bastidores. Décadas depois, continuam fazendo exatamente isso. Elites políticas seguem vendendo o país, entregando estatais, criando inimigos imaginários, mas agora acompanhadas de bancos de investimento, por campanhas digitais patrocinadas, documentários e filmes milionários.

O escândalo em torno de Dark Horse parece saído diretamente da lógica glauberiana. Tudo é exagerado, mas tudo é real. E no fim, no momento histórico em que mais se teve acesso à informação, temos uma sociedade inteira incapaz de distinguir onde termina a fakenews e começa a realidade. Onde termina a inteligência artificial e onde começa a ignorância biológica. Glauber iria adorar.

Em Terra em Transe, seus personagens gritavam demais, discursavam demais, prometiam demais, teatralizavam demais. Hoje basta ligar a televisão ou abrir uma rede social para perceber que ele apenas antecipou a estética política brasileira do século XXI. Talvez por isso Terra em Transe envelheça tão pouco. Porque o filme não falava apenas sobre um momento histórico específico. Falava sobre um padrão nacional recorrente.

E agora, eis que surge Daniel Vorcaro e sua “doação” de 61 milhões de reais. O dono do Banco Master. Outra figura que parece ter saído diretamente de uma releitura contemporânea de Glauber Rocha. A julgar pelas doações, sem dúvidas, Vorcaro deve amar o cinema. Os pedidos de apoio financeiro de Flávio Bolsonaro passaram a levantar questionamentos públicos sobre a relação entre o entorno bolsonarista e o Banco Master. Contratos sigilosos. Eduardo Bolsonaro como produtor. No entanto, não há, até o momento, prova definitiva de ilegalidade específica associada ao financiamento do filme, mas o dano simbólico já está consumado.  E vejam que coisa impactante, pois se todo o dinheiro que foi destinado pelo Banco Master ao filme Dark Horse for aplicado, ele será o filme mais caro da história do cinema brasileiro (todo gravado nos EUA, diga-se).

Outra coisa que me chamou a atenção foram as reportagens que li, do G1 (portal de notícias da Globo), que revelaram denúncias de trabalhadores da produção relatando condições precárias, atrasos salariais e desorganização nos bastidores da cinebiografia bolsonarista. O filme mais caro da história nacional, cercado de banqueiros e de milhões de reais, está sendo filmado enquanto profissionais da equipe reclamam da falta de pagamento. Não podia ser mais Bolsonaro.

Se fosse hoje, Glauber Rocha filmaria isso em closes, câmera livre, com a imagem estourada e mais sombra do que luz. Com personagens gritando discursos messiânicos, pessoas agarradas em caminhões, acampamentos em frente a quartéis, celulares aos céus, oração, pneus, facadas, caneleiras eletrônicas. Um turbilhão. Tudo acontecendo num ritmo frenético. E no centro desse transe todo, estaria ele, Flávio Bolsonaro, segurando um telefone e mandando áudios para um banqueiro corrupto.

A vida de Flávio Bolsonaro ficou muito difícil.

Sua possível candidatura presidencial dependia de uma operação delicadíssima de engenharia política. Ou seja, preservar o capital político do pai sem herdar integralmente o caos permanente do bolsonarismo raiz. Flávio deveria ser o “Bolsonaro inteligente”, o problema é que isso não faz sentido, pois é uma contradição em termos. Assim, Dark Horse destruiu essa transição antes mesmo da campanha começar. “Saudade do que não vivemos”, diria o Neymar. Por sinal, deixarei uma dica aos produtores do filme: Dark Horse, que em inglês significa “azarão”, não é mais um bom título, quem sabe se mude para “slow horse”, é mais condizente, pois significa “pangaré”.

Roger Baigorra Machado é formado em História e tem Mestrado em Integração Latino-Americana pela UFSM. Foi Coordenador Administrativo da Unipampa por dois mandatos. Atualmente é Conselheiro Municipal de Desenvolvimento Econômico de Uruguaiana e trabalha com Ações Afirmativas e políticas de inclusão e acessibilidade no Campus da Unipampa em Uruguaiana.

 

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