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Fonte: Trabalho de campo // Acervo pessoal Pedro Spode

SANTA MARIA, 168 ANOS NECESSITANDO PENSAR UMA CIDADE PARA AS PESSOAS: TRANSPORTE PÚBLICO EM PAUTA | Por Luciano Coelho Rorato e Pedro Leonardo Cezar Spode

A cidade e o urbano são conceitos distintos, já dizia Milton Santos. A cidade, para o distinto geógrafo, é a materialidade, o concreto, enquanto o urbano é o simbólico, mas é o que dá sentido à cidade. Mas o que exatamente atribui sentido à cidade?

A resposta para esta questão é mais óbvia do que possa parecer, muito embora, quase sempre ignorada pelos agentes políticos e econômicos que controlam os meios de produção das cidades. Cabe ressaltar que o sentido das cidades são as pessoas, as relações sociais que animam e dão vida para o desenvolvimento das interações sociais que movem o coletivo.

Santa Maria, que neste 17 de maio comemora seus 168 anos de emancipação, insere-se nesse contexto e, ao mesmo tempo, acende um questionamento para pensarmos a cidade para pessoas, tal como Jan Gehl postulava em seu livro. Devemos pensar a nossa cidade de Santa Maria enquanto um lugar no qual as pessoas, nas suas dinâmicas cotidianas, possam usufrui-la democraticamente, dentro das normas estabelecidas pelo bem viver em sociedade, acesso às estruturas de uso coletivo, com objetivo da integração social.

O transporte coletivo, principal instrumento para viabilizar a integração de todos os moradores que vivem e convivem nesse território urbano, acaba sendo alvo de inúmeras discussões, divergências e embates. É importante ressaltar que os problemas relacionados ao transporte urbano no Brasil são históricos, refletindo a própria desigualdade socioespacial nacional, embora seja possível destacar alguns avanços na problemática da mobilidade ou “imobilidade urbana brasileira”, como preferimos definir.

Santa Maria, cidade de porte médio, requer uma posição no que compete à mobilidade integrada dos seus cidadãos através de um transporte coletivo eficiente. Não se pode normalizar que uma cidade com mais de 280 mil habitantes, segundo último Censo do IBGE de 2022, tenha uma dependência exclusiva do transporte individual. Pesquisa recente divulgada pelo Diário de Santa Maria, em fevereiro de 2026, aponta que a cidade registrou um acréscimo de 90 mil automóveis ao longo de 18 anos (2007–2025), o que representa um aumento de 101% na frota de veículos particulares, um crescimento extraordinário para uma cidade que poderia, por meio do transporte coletivo, promover deslocamentos diários muito mais eficientes.

A Engenharia de Tráfego, responsável por articular com precisão o usuário, o veículo e as vias, de modo a garantir um fluxo seguro, confortável e de qualidade, encontra limites em cidades já estruturadas, marcadas por equipamentos urbanos consolidados e por “rugosidades” preexistentes, especialmente nas vias arteriais formadas ao longo do processo de urbanização.

Essas vias registram congestionamentos intensos nos horários de pico, como ocorre nas avenidas Medianeira, Nossa Senhora das Dores, Presidente Vargas e Prefeito Evandro Behr (Faixa Velha), importantes eixos de conexão intraurbana de Santa Maria e que se destacam pelo acúmulo de problemas relacionados à fluidez do trânsito.

Há, nesse contexto, a necessidade de um transporte coletivo efetivo para preencher essas lacunas e enfrentar, de forma mais incisiva, a cultura do automóvel, que é alimentada por uma lógica capitalista que associa a posse do carro a status, sucesso e distinção social, transformando um meio de transporte em símbolo de valor individual. Desse modo, retornamos ao ponto inicial, ao vislumbrar uma cidade voltada para as pessoas, cuja efetivação passa, necessariamente, pela consolidação de instrumentos fundamentais, entre os quais se destaca o transporte coletivo de qualidade, capaz de promover acessibilidade, integração e melhores condições de deslocamento no território urbano. Não podemos relegar a grande parte da população de Santa Maria uma cidadania mutilada, como proferiu Milton Santos, em que o direito de ir e vir se torna limitado, condicionado pelas desigualdades de acesso e pela precariedade dos serviços, comprometendo, assim, a plena participação dos cidadãos na vida urbana. As pessoas têm direito a usar o território, acessar os serviços e usufruir da mobilidade urbana, conforme assegura a Constituição Federal de 1988, que estabelece a dignidade, a cidadania e o direito de ir e vir como fundamentos essenciais da vida em sociedade.

Diante disso tudo, o que é preciso ser feito? Poderíamos iniciar com um chamamento aos entes acadêmicos, governamentais, socioeconômicos, movimentos sociais e também políticos, nas suas diferentes instâncias, para discutir esse problema de toda a sociedade. É necessário estimular o uso do transporte coletivo, porém, este transporte coletivo deve oferecer a devida qualidade! Por que não pautar a tão mencionada licitação do transporte urbano de Santa Maria como um instrumento importante que, mesmo sem reduzir a já elevada tarifa de R$ 7,25, poderia abrir caminho para melhorias capazes de incentivar o uso do transporte coletivo? E a tarifa zero, já implementada em diversos municípios brasileiros, por que não avançar no debate sobre sua viabilidade em Santa Maria, especialmente diante de rumores sobre a elaboração de um amplo projeto federal voltado ao financiamento desse modelo?

O individual não pode sobressair o coletivo. A solução para o problema da imobilidade urbana em Santa Maria passa pela qualificação do transporte coletivo na cidade. Estamos em um limite perigoso na cidade, tendo em vista o número crescente de automóveis, a precariedade do sistema de transporte coletivo e a ausência de políticas públicas municipais que enfrentem de forma estruturada a mobilidade urbana, priorizando o interesse coletivo e garantindo condições dignas de deslocamento para a população.

As Comissões Parlamentares de Inquérito no âmbito municipal não têm contemplado de forma efetiva essa discussão sobre uma política pública tão relevante, que exige rigor e capacidade resolutiva. Além de ampliar a participação popular, é fundamental mobilizar os diferentes atores envolvidos no processo decisório, de modo que apresentem seus posicionamentos e contribuam para a construção de um resultado orientado pelo bem comum.

Nesses 168 anos, que Santa Maria reflita o acesso de qualidade a todos os seus habitantes através de uma mobilidade urbana eficiente, em que o transporte seja dotado de horários frequentes, precisos e com uma tarifa acessível. As relações entre os munícipes dão vida à cidade, impulsionam um desenvolvimento socioeconômico mais equitativo e reforçam a construção de uma Santa Maria mais harmoniosa e com melhor qualidade de vida, horizonte que se concretiza na medida em que se fortalece uma cidade voltada para as pessoas, que deve ser amparada em soluções coletivas para os desafios da imobilidade urbana.

Fontes citadas:

DIÁRIO DE SANTA MARIA. Santa Maria ganha 90 mil veículos em 18 anos e dobra a frota; veja quantos carros, motos e caminhonetes há na cidade. Disponível em: https://diariosm.com.br/colunistas/colunistas_do_site/deni_zolin/santa-maria-ganha-90-mil-veiculos-em-18-anos-e-dobra-a-frota-veja-quantos-carros-motos-e-caminhonetes-ha-na-cidade.15441720. Acesso em: 02 de maio de 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades e Estados. População de Santa Maria, RS. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/rs/santa-maria.html. Acesso em: 02 de maio de 2026.

 

 

LUCIANO RORATO

Graduado em Engenharia Civil pela UFSM, Gerente de Projetos pela CEEM-FGV e Mestre em Geografia também pela UFSM, tem uma forte admiração pela cidade na qual nasceu, cresceu, viveu e conviveu. Já morou em Porto Alegre, em São Paulo e em Montreal no Canadá, sempre com um olhar voltado a sua cidade de nascença. Ele enxerga em Santa Maria uma cidade que se expande demograficamente, economicamente e culturalmente, mas que tem muito que se aprimorar socioespacialmente, afirma convictamente que quando a totalidade da cidade se integra com o que é ofertado pelo caldeirão cultural, a riqueza da diversidade pluraliza e torna Santa Maria um melhor lugar para viver.  Luciano Rorato, santamariense, graduado em Engenharia Civil pela UFSM, Gerente de Projetos pela CEEM-FGV e Mestre em Geografia também pela UFSM, tem uma forte admiração pela cidade na qual nasceu, cresceu, viveu e conviveu. Já morou em Porto Alegre, em São Paulo e em Montreal no Canadá, sempre com um olhar voltado a sua cidade de nascença. Ele enxerga em Santa Maria uma cidade que se expande demograficamente, economicamente e culturalmente, mas que tem muito que se aprimorar socioespacialmente, afirma convictamente que quando a totalidade da cidade se integra com o que é ofertado pelo caldeirão cultural, a riqueza da diversidade pluraliza e torna Santa Maria um melhor lugar para viver.

 

PEDRO LEONARDO CEZAR SPODE

Doutor em Geografia – PPGGEO – UFSM, Professor de Ciências Humanas no CTISM – UFSM. Atua em pesquisas no campo da Geografia, especialmente nos seguintes temas: pobreza urbana, privação social, desigualdades socioespaciais e planejamento territorial. Publicação mais recente: Privação Social e Pobreza na Cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul: Análise a partir das Periferias Populares de Alta Privação Social, Revista Sociedade & Natureza (UFU), 37, 2025. https://www.scielo.br/j/sn/a/7zz76zX88k8FvQz9jmJ39XM/abstract/?lang=pt

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