Quando nosso tempo de vida começa a se fazer mais curto, o olhar sobre ele se torna mais agudo. Foi com essa sensação que me vi entre as comemorações dos 150 anos da cidade de Rosário do Sul, no último sábado, 19 de abril. São 85 anos a mais do que a minha idade e a certeza de que um século e meio é apenas um instante na longa duração da história.
Rosário é a minha terra natal, no interior do RS, e de onde saí para estudar aos 17 anos. Tempo insuficiente para entender as sobreposições de histórias anteriores, cujos movimentos constantes a moldavam e a definiam no seu modus operandis. Desde então, retornei apenas esporadicamente, trazida pelos vínculos familiares. Minha memória da cidade remete a este curto espaço temporal, embora o chão em que ela se assenta seja infinitamente mais antigo – triássico, do ponto de vista geocientífico.
A cidade é banhada pelo rio Santa Maria, cujo leito em curvas era margeado por grandes dunas de areias brancas e finas, e por lajes de pedra a indicar zona de transição geológica. Profundo e correntoso, era território de barqueiros, canoeiros e pescadores, e também do lazer das famílias e suas crianças em tempos de verão. A mata ciliar ainda era abundante e enfrentava apenas os revéses das cheias que, vez por outra, a encobriam. A travessia se fazia por balsas, com atracadouros próximos ao quartel da cidade instalado em 1941, e à estrada de chão batido do outro lado do rio. E assim foi por muitos anos, até o final da década de 60, quando a ponte de concreto armado – denominada Marechal José de Abreu -, substituiu a velha ponte de madeira, frequentemente submersa nas águas das enchentes.
Naquela época, eu não fazia ideia que fora ali, às margens do rio Santa Maria, o nascimento da povoação chamada Passo do Rosário — ponto estratégico de travessia, passagem de tropas e circulação de gado e que deu origem à cidade. Nem que aquele espaço teria sido rota de ligação entre estâncias e também caminho militar, em uma fronteira onde o controle do território era instável e frequentemente contestado. Ou ainda, que em 1816, a área já servia de base para operações militares no contexto das campanhas contra Artigas, inserindo definitivamente o lugar na história política do Prata.
Das histórias de guerras, na memória infantil dos 5 ou 6 anos, lembro apenas de correr assustada para dentro da casa da minha avó quando, ao brincar na rua de chão batido, “via” uma tropa de lanceiros avançando, céleres e belicosos. Se era a imaginação estimulada por alguma conversa adulta ou a memória das guerras impregnada no inconsciente coletivo, não sei dizer. Era terror puro.
Só muito mais tarde compreendi que a Guerra da Cisplatina deixara marcas ainda mais profundas e que, em 1827, havia ocorrido ali um dos maiores confrontos em território brasileiro, a Batalha do Passo do Rosário. Os relatos orais dos antigos consolidaram as narrativas de guerra. O que era caminho tornou-se campo de batalha e o território passou a carregar, além da função de passagem, a memória da violência destes conflitos. E entre as muitas histórias ouvidas anos atrás, lembro de uma relatada pela mãe de uma amiga. A senhora, lúcida e já em idade avançada, afirmava com convicção que os proclamados heróis da famosa batalha eram, na realidade, bandidos e estupradores. Nascida e criada em uma fazenda, ela aprendera desde cedo a se defender de invasores e a cuidar de tudo enquanto os homens se ausentavam do local. Aliás, autonomia e independência essas comuns entre as mulheres gaúchas, fato registrado por historiadores e viajantes que cruzaram o Rio Grande do Sul em meados do século XIX.
Mas nem só de guerras, imaginadas ou não, ou sustos infantis se forjaram as lembranças da vida na cidade. A memória afetiva persiste na imagem do muro coberto de rosas perfumadas ao lado da casa dos meus avós; no mel guardado em tachos de cobre e a escorrer das conchas ao ser servido e pesado em antigas balanças de precisão por Seu Donato e Dona Maria Emília. Ir até lá, a pedido dos adultos, era garantia de um pedaço de cera carregado de mel, que mascavamos longamente, como um pequeno e delicioso presente. A imagem daquele líquido a escorrer, abundante e dourado, somado aos tons dos utensílios de cobre, parecia disputar com o brilho da luz do sol que entrava pela janela lateral. Era quase como num quadro de Caravaggio, em que a claridade toca as coisas e as faz existir com intensidade. Uma cena de uma beleza estética singular que nunca mais me saiu da memória.
Recordo a horta do meu avô, cheia de alho e couve – nunca soube porque ele plantava apenas essas variedades -, ao passo que a dos meus pais tinha todo tipo de legumes, incluindo os tomates colhidos e comidos ali mesmo, ainda quentes de sol. Das bergamoteiras para onde fugíamos depois do almoço, escapando da sesta obrigatória; dos limoeiros e laranjeiras carregadas de frutas; dos parreirais e das bananeiras, que serviam de esconderijo; dos galpões cheios de madeira e ferro, onde, num moedor sobre uma mesa e um torno, se moía milho para as galinhas e se aguardava ansiosamente o chamado do avô para partilhar a serra manual para dois, no corte da madeira de árvores derrubadas.
Se busco na memória, vejo as vizinhas produzindo vassouras feitas com guanxumas para, posteriomente, as distribuirem para a limpeza dos pátios de chão batido, varridos com esmero; o poço seco na casa de minha avó, entulhado por receio de que as crianças ali caíssem; as palmas bentas penduradas pelas paredes e usadas para benzer tormentas; o preparo dos uniformes brancos engomados com o tope azul marinho, pronto para ser amarrado ao pescoço; a conga e o kichute; a desejada e esperada colônia de férias.
Lembro, sobretudo, de um tempo em que se vivia fora da casa — um tempo de vizinhar. Um tempo em que todos se conheciam e o brincar em grupo pelas ruas era considerado algo seguro ao alcance do grito da mãe para retornarmos.
Um cotidiano marcado pela presença matinal do leiteiro e dos seus tarros de alumínio que reluziam sobre as charretes; das lavadeiras que iam buscar as roupas em casa e as levavam em grandes trouxas, junto com barras de sabão; dos grupos noturnos de trabalhadores e trabalhadoras que passavam em frente à nossa casa, todos em uniformes brancos, rumo ao “saladeiro” – o frigorífico da Swift Armour que foi um pilar econômico histórico na cidade; dos seus caminhões carregados de ervilha para a produção de enlatado, e os do gado para o abate, o que sempre me horrorizou.
Recordo do som das escolas de samba e do meu encanto com as manifestações culturais daquela comunidade negra exilada do mundo branco da cidade. Não podíamos ir ao “clube dos morenos”, seus tambores e atabaques eram demonizados, bem como suas heranças linguísticas e religiosas. Em Rosário se vivenciava um apartaid consentido e dissimulado.
Não sei em que medida o próprio nome do município — derivado da devoção à sua padroeira, Nossa Senhora do Rosário, expressão da forte presença da Igreja Católica no processo de colonização portuguesa — carrega em si uma história menos visível. No período colonial, a devoção à santa constituiu um dos principais eixos de organização das irmandades negras, que a elegeram como protetora diante das restrições impostas ao culto dos orixás, já que lhes era vedado o acesso às igrejas frequentadas pelos brancos.
Tal contexto ajuda a compreender por que, em tantas cidades brasileiras, essas igrejas ficaram conhecidas como Igrejas do Rosário dos Pretos, muitas vezes associadas também ao culto de São Benedito, o único santo negro reconhecido pela Igreja Católica. Em Rosário do Sul, entretanto, não parecem existir registros da formação de uma irmandade desse tipo, ainda que o traço do separatismo racial tenha atravessado, de diferentes maneiras, a história local.
Não sou historiadora, mas acredito que pensar a história de uma cidade é somar muitos detalhes e memórias. Uma vez reunidos, permitiriam uma história indicial do lugar. Isso tornaria possível, resgatar saberes populares, redesenhar cotidianos, olhar para as práticas e os grupos que costumam ficar esquecidos no tempo e fora dos registros dos documentos oficiais. E gostaria que outras narrativas sobre a história de Rosário circulasse entre a sua população, de modo a permitir uma percepção mais aguçada e justa sobre a vida na cidade e os seus habitantes.

Rosana Zucolo, jornalista, professora universitária aposentada, mestre em Educação(UFSM) e doutora em Comunicação(Unisinos). Nascida gaúcha, mora em Santa Maria, tem alma cigana, a Bahia como segunda terra e o mundo como casa. Descobriu ter uma certa predileção por pares: dois filhos, dois prêmios Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, dois empregos por muito tempo, dois projetos de cursos de comunicação, dois blogs, duas casas, dois irmãos, dois cachorros, duas cachorras, dois gatos…
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