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Livro de Maurício Mendes é obra necessária | Ricardo F. Mendes

Levo um tempo para absorver a batida de um romance. Um livro, como um filme, tem ritmo. E eu costumo ler em voz alta para percebê-lo. Faço isto, principalmente, no começo. A medida ajuda a entender o desenho da órbita das palavras que gravitam no texto. Pois bem: eis que nas primeiras páginas da obra de Maurício Mendes, O Homem Não Foi Feito Para Ser Feliz (Mondru, 2025), sou interrompido pela voz da Inteligência Artificial que mora no meu celular, esquecido no canto do sofá.

Ela me pergunta se eu quero que marque uma passagem de avião para São Paulo. É que um trecho do diálogo entre a enfermeira Ana e o médico Germano, o protagonista, foi pescado pela IA enquanto eu o recitava. Ana falava sobre um paciente apressado que rogava por atendimento, já que iria viajar no dia seguinte. “É que amanhã ele já volta para São Paulo. Quer tudo para ontem. Sabe esse povo que vai pra fora e fica todo besta? Tá lá com uma dor na perna”.

Um livro que começa em uma estrada escura, de madrugada, há 350 km de Fortaleza (CE), é um convite irrecusável para o amanhecer da estória. Sobretudo pela naturalidade com que os diálogos, e até mesmo o fluxo de pensamento, estão impressos nas 181 páginas de O Homem Não Foi Feito Para Ser Feliz. A narrativa parece tão verossímil quanto Germano. Ele não aparenta ser invenção, mas sim estar coberto de carne que sangra e recheado com a dureza dos ossos.

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