A marca
Havia a marca.
Não era profunda, ou pelo menos não mais.
Aquela marca não estivera lá desde o abandono do ventre materno, mas estava a tempo o bastante para se perder nos vãos de sua lembrança.
A marca não era necessariamente feia.
Ela apenas destoava de sua pele pessegada de menina moça que parecia se recusar a envelhecer.
Era salmão. Levemente rosada, num tom desbotado de pele que morreu sem nem saber porque.
A palidez da marca lembrava mesmo a morte.
Sabia que outrora, sabe-se lá quando, a marca cedia espaço para células vibrantes. E agora a marca era como o mármore de uma lápide abandonada.
Não ganhava flores nem homenagens.
A marca estava lá e lá ficaria. Células não revivem dos mortos.
Havia a marca.
Apenas uma marca numa pele pessegada que se recusava a envelhecer.
A marca era um atalho do nada ao lugar nenhum.
A marca era uma pequena estrada deserta em um corpo tomado de tormenta.
A marca era uma placa de aviso que ali não havia mais sangue circulando entre os túmulos desbotados das células que morreram.
Ventos
Uivam os ventos, corre-se de lá pra cá. Numa floresta desencantada, busco um canto pra descansar.
Não há mais tempo a perder. Corro para alcançar o que eu sequer sei reconhecer.
Seja onde eu vim parar, busco uma porta pra me acolher. Um canto quente onde eu possa sonhar, um refúgio onde eu possa morrer.
Aleppo
I
Havia sim um elo entre todos
Que não fossem de raça, credo ou origem
Respiravam o mesmo ar pesado de morte
Respiravam na dança macabra da fuligem
Sob botinas de couro e borracha o chão parecia de nuvem
Fumaça para todos os lados entre corpos marcados, anjos perdidos
Povos sem lar, sem rumo e sem norte
Dos restos da casa, o homem fardado fazia a guarda
Boneca de pano no canto dos móveis marcados, quebrados, perdidos
Um dia ali dentro crianças brincavam de polícia e bandido
Os tempos mudaram, não havia inocência ou vida talvez
Um som estremece a cidade, os sobreviventes entendem que começou tudo outra vez
Um quadro mal pendurado revela a família que um dia foi feliz
Agora, despedaçada, mantém em seu seio quem escapou por um triz
Nas ruas resta o concreto estraçalhado e o pó que subiu
Das bombas que ali atingiram, a beleza e a vida, o tudo sumiu
Na praça central da cidade cachorros vadios não existem mais
A vida, o sopro e a brisa, a paz e o futuro ficaram pra trás
Nas ruas, ruínas e gente sem esperança
Nas casas espalhavam-se corpos, velhos, adultos e crianças
O som que se escuta na trégua é o silêncio quebrado pelo choro baixinho
Carregado de dor e descaso, de morte e abandono, sem paz, sem carinho.
A bela cidade florida deu lugar ao inferno sem nem avisar
Famílias inteiras em trapos, tentando fugir pra outro lugar
Em barcos de ar e esperança encontram a morte nas margens do mar.
II
– Vês? Nada resta!
Chora a menina, olhando na fresta
Vestido de bolinhas rasgado nas mangas
Dois passos pra fora, vem a escuridão
Um soldado armado caminha ileso
Sem um arranhão
Do lado de dentro não há nem telhado
Se ainda houvesse chuva, tudo estaria molhado
Mas até a chuva se refugiou em outras bandas
O prédio é ruína, nem lembra o passado
A praça perdida fica lá do outro lado
Não há mais crianças pra brincar de castelo de areia
Celebra um homem com um bote inflável de contrabando
Exibe o peito aberto, caminha mancando
Seu rosto encontra o chão antes do corpo encontrar a porta
No lugar das pipas, os meninos contam mísseis
Eles sabem que a queda encerra dias difíceis
Já não há mais vagas no cemitério
À noite, cansada, a criança não conta mais carneirinhos
Conta estouros, bombas, barulhos de bala
E dorme sem saber se vai acordar outra vez
Um estampido à curta distância e o pai corre pro berço
A criança ainda respira, sem marcas ou feridas
Ajoelhado, ele fala baixinho – eu agradeço
Ela levanta os bracinhos pra se render
Nem sabe bem o que significa
Mas sabe que ainda pode morrer
III
Já houve tempo de paz, há muito esquecida
Pessoas como eu e você, vagando em ruas em ruínas
Sua vida, sua história, perspectiva perdida
Um corte na alma, o corpo exibe a ferida
Já houve, no passado, alegria e progresso
Do futuro brilhante, restou o regresso
À selvageria, ao ódio e ao caos
Em tempos de guerra, o ódio é réu confesso
O barulho das bombas interrompe o silêncio
Da terra arrasada desprovida de sorte
Nas ruas, ruínas não contam histórias
Nas manchas de sangue, um rastro de morte
Passado é o tempo de um dia feliz
Crianças cresciam em paz e união
Na guerra o ódio não se contradiz
Nas ruas e esquinas a marca profunda da destruição
No campo de guerra não tem aliado
Tem homens buscando alimento e proteção
Família escondida, futuro dilacerado
A vida e a esperança sem rumo caindo ao chão
Os canteiros floridos dão lugar aos cartuchos de balas
As escolas tomadas de poeira e vazio
Não há mais ensino nas salas de aulas
Acordam sabendo que a vida está por um fio
IV
Um dia, quem sabe, tudo volta ao normal
Terá se passado uma era talvez
A vida findada tal qual vendaval
O barulho da bomba revela tudo outra vez
A esperança veste luto onde um dia foi vida
Vida? Não restam mais dúvidas da história perdida!
Logram vitória como se fosse possível
O sangue escorrido do povo invisível
Família, o que sobra, vira refugiada
Em terra estranha porque a sua foi arrasada
V
Bum
O zumbido no ouvido deixa marca profunda
Bum
A mãe pega o filho e se esconde no quarto
Bum
A parede desaba com um novo impacto
Bum
Entre tijolos encontram a mão da criança
Bum
Não nasce mais flores em nenhum jardim
Bum
A vida, entre balas, chegou ao fim
VI
Era eu apenas uma garotinha
Cabelos ao vento, vestido de bolinha
Nas ruas da cidade, traçava meu trajeto
Da escola à minha casa não era traço reto
Cruzava ruas e avenidas
Todo mundo trabalhava, cuidava de sua vida
Eu gostava de aventuras, no mercado me escondia
Vivíamos tempos doce, de paz à noite, vida ao dia
Até que a guerra a nós chegou
Pouca gente entende ao certo como tudo começou
Bala e bomba toda hora
Ajoelhada, a mãe à vida implora
Sob o pó pela bomba levantado
Jaz o corpo de mais um pobre-coitado
Fardado, o menino não entende
Todo o ódio que à arma agora o prende
Acordamos todo dia sem saber pra onde ir
Papai um dia disse que a nós resta fugir
Mas quem somos nós nesse mundo sem fim?
A história aniquila a esperança e termina assim
Depois de muito tempo, nos unimos aos conterrâneos
Fugimos de barco e encontramos a morte no Mediterrâneo
VI
Ela chora baixinho ao lado do corpo da mãe
O pai foi pra guerra e ela sabe que ele não volta mais
O irmão soterrado não pede socorro
Sozinha no quarto espera o milagre que não virá
O zumbido no céu e a esperança
“Será essa a bomba que vai me matar?”
Nos sonhos inocentes tem um jardim pra brincar
Pela janela só restam ruínas, a vida parou
Não há mais futuro, o país acabou
Sai solitária com a boneca na mão
O tiro, perdido, acerta o coração
Ela, enfim, encontra a paz
VII
As lápides sem nomes fazem fila
Nem todo mundo será encontrado
Nem mesmo inocentes terão funeral
A guerra não mata apenas vidas
Mas aniquila dignidades
Histórias interrompidas por pura maldade
A guerra há de acabar por falta de gente para matar
26
A água bate de leve
Nos pequenos pezinhos 26
Imóveis
Os corvos aguardam a hora do jantar
Canção de ninar
Olhava pro alto sem esperança, orando baixinho com seus pés no chão
Barriga roncando, vazia há dias sem solução
Marchava em silêncio rumo ao mar
Disseram marujos que nos navios de guerra,
Os mais fortes da terra podiam remar
Ela, franzina e faminta, tinha nos barcos a sua ilusão
Que marinheiros vistosos, com ares pomposos, a veriam miúda a se lamentar
Saudosos de casa, a imagem da fome tocaria seu coração
E sem mais delongas, dariam a ela um pedaço de pão
Sob o sol ardente, os pés reclamavam o contato com o chão
De vestido em trapos, menina faminta, de comes e bebes e de compaixão
Não havia mais guerra para marinheiro lutar
De volta à terra à família voltar
Com abraço apertado, retornou seu irmão
Menina em trapos, nos braços da sorte, ainda tinha um lar
A fome e a sede cobraram seu preço, encontrou a morte antes de alcançar
O irmão, voltado da guerra, se viu de joelhos a lamuriar
Garotinha faminta agora era um corpo para enterrar
No túmulo humilde, sua despedida era uma canção de ninar.
Filha da miséria
Eram quatro quartos montados com o improviso da miséria
Separados por panos em farrapos de onde era possível ouvir o grito agoniante daqueles estômagos vazios
Eram quatro espaços diminutos onde a mãe contava histórias
Eram frestas nas paredes de retalhos que ao frio provocavam arrepios
Pés descalços, em feridas das pedras pontiagudas da vila
Pelo leite e pelo pão, as mulheres murchas envelhecidas faziam fila
Era pouco, quase nada, em lágrimas densas saía a mãe da mesa
Engolia o luto da vida perdida, do filho consumido de fome e pobreza
Havia o pó que subia sem dó quando passavam os carros dos poderosos
Era caminho das belas mansões que ao longe faziam silhueta
Nos vales com montanhas verdes e picos rochosos
Enquanto do lado de cá criança faminta marcava a sarjeta
Já nem cantava aos filhos canções de ninar
O sono só vinha quando o corpo faminto desabava de tanto chorar
Não quis o destino dar-lhe esperança
Encheu-lhe o ventre e a casa de rebentos sem instrução
Sofria com a expressão do desespero no rosto cansado de cada criança
A cada doença da água estragada e comida faltosa feria-lhe o coração
Diziam-lhe que era escolha sua porque se quisesse nenhum filho faria
O olhar de desprezo de quem desconhece a vida que leva, sem nem compaixão
Escrevia duas letras, se muito, nem mesmo seu nome de fato sabia
E dela esperavam cuidados que nunca quem julga foi capaz de ensinar
Mas é bem mais fácil na vida apontar o dedo e poder condenar
Ela, que só tinha coragem de catar nas lixeiras o que os ricos deixavam pra trás
Ela, que tinha seis bocas vazias em casa para alimentar
Os outros sucumbiram à fome, à dor e a miséria que nunca os abandonou
Ao contrário do pai das crianças que um dia partiu e nem se importou
Era ela contando com a sorte, testemunhando a morte que insistia em voltar
Sozinha no meio do nada, a vida acabada a sempre lembrar
Que assim o destino quisera, sem choro nem vela, amaldiçoar
Cada filho dessa vida ingrata, sob a miséria morrer e matar
Tiravam as chances da vida, por um pão aceitava qualquer humilhação
Menino criado como bicho sarnento e ainda cobravam ser bom cidadão
Nas vielas da vida, sem eira nem beira, ia ela implorar
Um prato vazio de comida sobre a mesa quebrada da casa que ia se esvaziar
Dos filhos, famintos, sem chance, os que viveriam iriam roubar
Ela, fraca e sem brilho, da vida maldita que Deus lhe deu
Abraçou o diabo com força, pedindo à benção de quem já morreu
Os panos que separavam os quartos testemunhariam sua depressão
Seu corpo entregue aos homens com bom dinheiro e sem coração
Debaixo de corpos pesados, suspiros molhados, chorava de dor
Ninguém se importava com ela, não havia na vida conhecido o amor
Jovem em corpo de velha, as marcas da fome eram tal cicatriz
Olhava pra trás na sua história e sabia que nunca tinha sido feliz
Agora, com filhos bandidos, ou mortos, perdidos, se viu sem razão
Da miséria guardada no bolso, a faca em ferrugem encontrou o coração
Morreu sem dentes na boca, barriga vazia e uma história sem cor
Morreu chorando baixinho, no seu cantinho, sem pedra bonita ou coroa de flor
Vou deixar uma carta.
Uma carta ressentida, manchada daquelas lágrimas fujonas que se jogaram no papel. Uma carta com as nuances de minha existência que nunca souberam se eu fui triste ou fui feliz.
Vou deixar uma carta que diga que te amei mais que do que devia, do que podia, do que queria, e que talvez esse tanto de amor que dediquei a ti tenha tirado o pouco que me restava a mim mesma.
Vou deixar uma carta com cheiro de sangue, de mágoa, de suor. Uma carta que não diga tudo o que eu queria dizer, porque nem todos os sentimentos são passíveis de expressão.
Vou deixar essa carta dobrada na minha mesa de cabeceira.
Vou virar de lado e deixar o sono me levar.
O pó
Foi numa manhã de inverno que, após a ressuscitação, entregaram pra ela um pacotinho e disseram a ela que ela tinha em mãos uma pequena rocha.
Forte. Sim, forte. Mas esqueceu que inquebrável e precioso é o diamante.
Ela nem carvão era para tornar-se diamante sob pressão. Ela era rocha.
Rochas não quebram com simples chutes ou socos, mas se moldam às tempestades.
Ela não quebrou. Jamais quebraria. Já haviam a dito que ela jamais quebraria e ela de fato não o fez. Nem uma lasquinha.
Sua superfície rígida ganhou pichações e marcas de canivete, mas não quebrou.
Mas o que são chutes e tapas perto de temporais?
Foi se fazendo pequena, de rocha foi à pedra, de pedra foi à cascalho, do cascalho foi ao pó.
Como pó, voou.
Queda
Então eu multipliquei as dores do meu corpo.
Do coração que sangrava, sangrei a pele
Da alma de doía, converti nas células.
Então dobrei meu sofrimento
E hoje me acolho na dor que me resta
Talvez a amiga mais antiga a abraçar meu corpo
Alegra-me que ainda me julguem forte
Simplesmente porque o mundo
Não deu a mim a opção de cair.
Selvagem
A pré-disposição ao ataque é o que nos diferencia dos animais selvagens. Eles são, nesse aspecto, muito mais civilizados que nós.

Maya Falks é escritora, publicitária, jornalista, bacharel em Letras e especialista em marketing. Autora de 11 livros individuais e integrante de mais de 30 antologias, Maya também é detentora de mais de 30 prêmios, foi patrona da Feira do Livro de Caxias do Sul e mulherageada do I Festival Mulherio das Letras RS.
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