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10 poemas de Maya Falks

 

A marca

 

Havia a marca.

Não era profunda, ou pelo menos não mais.

Aquela marca não estivera lá desde o abandono do ventre materno, mas estava a tempo o bastante para se perder nos vãos de sua lembrança.

A marca não era necessariamente feia.

Ela apenas destoava de sua pele pessegada de menina moça que parecia se recusar a envelhecer.

Era salmão. Levemente rosada, num tom desbotado de pele que morreu sem nem saber porque.

A palidez da marca lembrava mesmo a morte.

Sabia que outrora, sabe-se lá quando, a marca cedia espaço para células vibrantes. E agora a marca era como o mármore de uma lápide abandonada.

Não ganhava flores nem homenagens.

A marca estava lá e lá ficaria. Células não revivem dos mortos.

Havia a marca.

Apenas uma marca numa pele pessegada que se recusava a envelhecer.

A marca era um atalho do nada ao lugar nenhum.

A marca era uma pequena estrada deserta em um corpo tomado de tormenta.

A marca era uma placa de aviso que ali não havia mais sangue circulando entre os túmulos desbotados das células que morreram.

 

Ventos

 

Uivam os ventos, corre-se de lá pra cá. Numa floresta desencantada, busco um canto pra descansar.

Não há mais tempo a perder. Corro para alcançar o que eu sequer sei reconhecer.

Seja onde eu vim parar, busco uma porta pra me acolher. Um canto quente onde eu possa sonhar, um refúgio onde eu possa morrer.

 

Aleppo

 

I

Havia sim um elo entre todos

Que não fossem de raça, credo ou origem

Respiravam o mesmo ar pesado de morte

Respiravam na dança macabra da fuligem

Sob botinas de couro e borracha o chão parecia de nuvem

Fumaça para todos os lados entre corpos marcados, anjos perdidos

Povos sem lar, sem rumo e sem norte

Dos restos da casa, o homem fardado fazia a guarda

Boneca de pano no canto dos móveis marcados, quebrados, perdidos

Um dia ali dentro crianças brincavam de polícia e bandido

Os tempos mudaram, não havia inocência ou vida talvez

Um som estremece a cidade, os sobreviventes entendem que começou tudo outra vez

Um quadro mal pendurado revela a família que um dia foi feliz

Agora, despedaçada, mantém em seu seio quem escapou por um triz

Nas ruas resta o concreto estraçalhado e o pó que subiu

Das bombas que ali atingiram, a beleza e a vida, o tudo sumiu

Na praça central da cidade cachorros vadios não existem mais

A vida, o sopro e a brisa, a paz e o futuro ficaram pra trás

Nas ruas, ruínas e gente sem esperança

Nas casas espalhavam-se corpos, velhos, adultos e crianças

O som que se escuta na trégua é o silêncio quebrado pelo choro baixinho

Carregado de dor e descaso, de morte e abandono, sem paz, sem carinho.

A bela cidade florida deu lugar ao inferno sem nem avisar

Famílias inteiras em trapos, tentando fugir pra outro lugar

Em barcos de ar e esperança encontram a morte nas margens do mar.

 

II

– Vês? Nada resta!

Chora a menina, olhando na fresta

Vestido de bolinhas rasgado nas mangas

 

Dois passos pra fora, vem a escuridão

Um soldado armado caminha ileso

Sem um arranhão

 

Do lado de dentro não há nem telhado

Se ainda houvesse chuva, tudo estaria molhado

Mas até a chuva se refugiou em outras bandas

 

O prédio é ruína, nem lembra o passado

A praça perdida fica lá do outro lado

Não há mais crianças pra brincar de castelo de areia

 

Celebra um homem com um bote inflável de contrabando

Exibe o peito aberto, caminha mancando

Seu rosto encontra o chão antes do corpo encontrar a porta

 

No lugar das pipas, os meninos contam mísseis

Eles sabem que a queda encerra dias difíceis

Já não há mais vagas no cemitério

 

À noite, cansada, a criança não conta mais carneirinhos

Conta estouros, bombas, barulhos de bala

E dorme sem saber se vai acordar outra vez

 

Um estampido à curta distância e o pai corre pro berço

A criança ainda respira, sem marcas ou feridas

Ajoelhado, ele fala baixinho – eu agradeço

 

Ela levanta os bracinhos pra se render

Nem sabe bem o que significa

Mas sabe que ainda pode morrer

 

III

Já houve tempo de paz, há muito esquecida

Pessoas como eu e você, vagando em ruas em ruínas

Sua vida, sua história, perspectiva perdida

Um corte na alma, o corpo exibe a ferida

 

Já houve, no passado, alegria e progresso

Do futuro brilhante, restou o regresso

À selvageria, ao ódio e ao caos

Em tempos de guerra, o ódio é réu confesso

 

O barulho das bombas interrompe o silêncio

Da terra arrasada desprovida de sorte

Nas ruas, ruínas não contam histórias

Nas manchas de sangue, um rastro de morte

 

Passado é o tempo de um dia feliz

Crianças cresciam em paz e união

Na guerra o ódio não se contradiz

Nas ruas e esquinas a marca profunda da destruição

 

No campo de guerra não tem aliado

Tem homens buscando alimento e proteção

Família escondida, futuro dilacerado

A vida e a esperança sem rumo caindo ao chão

 

Os canteiros floridos dão lugar aos cartuchos de balas

As escolas tomadas de poeira e vazio

Não há mais ensino nas salas de aulas

Acordam sabendo que a vida está por um fio

 

IV

Um dia, quem sabe, tudo volta ao normal

Terá se passado uma era talvez

A vida findada tal qual vendaval

O barulho da bomba revela tudo outra vez

A esperança veste luto onde um dia foi vida

Vida? Não restam mais dúvidas da história perdida!

Logram vitória como se fosse possível

O sangue escorrido do povo invisível

Família, o que sobra, vira refugiada

Em terra estranha porque a sua foi arrasada

 

V

Bum

O zumbido no ouvido deixa marca profunda

Bum

A mãe pega o filho e se esconde no quarto

Bum

A parede desaba com um novo impacto

Bum

Entre tijolos encontram a mão da criança

Bum

Não nasce mais flores em nenhum jardim

Bum

A vida, entre balas, chegou ao fim

 

VI

Era eu apenas uma garotinha

Cabelos ao vento, vestido de bolinha

Nas ruas da cidade, traçava meu trajeto

Da escola à minha casa não era traço reto

Cruzava ruas e avenidas

Todo mundo trabalhava, cuidava de sua vida

Eu gostava de aventuras, no mercado me escondia

Vivíamos tempos doce, de paz à noite, vida ao dia

Até que a guerra a nós chegou

Pouca gente entende ao certo como tudo começou

Bala e bomba toda hora

Ajoelhada, a mãe à vida implora

Sob o pó pela bomba levantado

Jaz o corpo de mais um pobre-coitado

Fardado, o menino não entende

Todo o ódio que à arma agora o prende

Acordamos todo dia sem saber pra onde ir

Papai um dia disse que a nós resta fugir

Mas quem somos nós nesse mundo sem fim?

A história aniquila a esperança e termina assim

Depois de muito tempo, nos unimos aos conterrâneos

Fugimos de barco e encontramos a morte no Mediterrâneo

 

VI

Ela chora baixinho ao lado do corpo da mãe

O pai foi pra guerra e ela sabe que ele não volta mais

O irmão soterrado não pede socorro

Sozinha no quarto espera o milagre que não virá

O zumbido no céu e a esperança

“Será essa a bomba que vai me matar?”

Nos sonhos inocentes tem um jardim pra brincar

Pela janela só restam ruínas, a vida parou

Não há mais futuro, o país acabou

Sai solitária com a boneca na mão

O tiro, perdido, acerta o coração

Ela, enfim, encontra a paz

 

VII

As lápides sem nomes fazem fila

Nem todo mundo será encontrado

Nem mesmo inocentes terão funeral

A guerra não mata apenas vidas

Mas aniquila dignidades

Histórias interrompidas por pura maldade

A guerra há de acabar por falta de gente para matar

 

 

26

 

A água bate de leve

Nos pequenos pezinhos 26

Imóveis

Os corvos aguardam a hora do jantar

 

Canção de ninar

 

 

Olhava pro alto sem esperança, orando baixinho com seus pés no chão

Barriga roncando, vazia há dias sem solução

Marchava em silêncio rumo ao mar

Disseram marujos que nos navios de guerra,

Os mais fortes da terra podiam remar

Ela, franzina e faminta, tinha nos barcos a sua ilusão

Que marinheiros vistosos, com ares pomposos, a veriam miúda a se lamentar

Saudosos de casa, a imagem da fome tocaria seu coração

E sem mais delongas, dariam a ela um pedaço de pão

Sob o sol ardente, os pés reclamavam o contato com o chão

De vestido em trapos, menina faminta, de comes e bebes e de compaixão

Não havia mais guerra para marinheiro lutar

De volta à terra à família voltar

Com abraço apertado, retornou seu irmão

Menina em trapos, nos braços da sorte, ainda tinha um lar

A fome e a sede cobraram seu preço, encontrou a morte antes de alcançar

O irmão, voltado da guerra, se viu de joelhos a lamuriar

Garotinha faminta agora era um corpo para enterrar

No túmulo humilde, sua despedida era uma canção de ninar.

 

 

Filha da miséria

 

Eram quatro quartos montados com o improviso da miséria

Separados por panos em farrapos de onde era possível ouvir o grito agoniante daqueles estômagos vazios

Eram quatro espaços diminutos onde a mãe contava histórias

Eram frestas nas paredes de retalhos que ao frio provocavam arrepios

Pés descalços, em feridas das pedras pontiagudas da vila

Pelo leite e pelo pão, as mulheres murchas envelhecidas faziam fila

Era pouco, quase nada, em lágrimas densas saía a mãe da mesa

Engolia o luto da vida perdida, do filho consumido de fome e pobreza

Havia o pó que subia sem dó quando passavam os carros dos poderosos

Era caminho das belas mansões que ao longe faziam silhueta

Nos vales com montanhas verdes e picos rochosos

Enquanto do lado de cá criança faminta marcava a sarjeta

Já nem cantava aos filhos canções de ninar

O sono só vinha quando o corpo faminto desabava de tanto chorar

Não quis o destino dar-lhe esperança

Encheu-lhe o ventre e a casa de rebentos sem instrução

Sofria com a expressão do desespero no rosto cansado de cada criança

A cada doença da água estragada e comida faltosa feria-lhe o coração

Diziam-lhe que era escolha sua porque se quisesse nenhum filho faria

O olhar de desprezo de quem desconhece a vida que leva, sem nem compaixão

Escrevia duas letras, se muito, nem mesmo seu nome de fato sabia

E dela esperavam cuidados que nunca quem julga foi capaz de ensinar

Mas é bem mais fácil na vida apontar o dedo e poder condenar

Ela, que só tinha coragem de catar nas lixeiras o que os ricos deixavam pra trás

Ela, que tinha seis bocas vazias em casa para alimentar

Os outros sucumbiram à fome, à dor e a miséria que nunca os abandonou

Ao contrário do pai das crianças que um dia partiu e nem se importou

Era ela contando com a sorte, testemunhando a morte que insistia em voltar

Sozinha no meio do nada, a vida acabada a sempre lembrar

Que assim o destino quisera, sem choro nem vela, amaldiçoar

Cada filho dessa vida ingrata, sob a miséria morrer e matar

Tiravam as chances da vida, por um pão aceitava qualquer humilhação

Menino criado como bicho sarnento e ainda cobravam ser bom cidadão

Nas vielas da vida, sem eira nem beira, ia ela implorar

Um prato vazio de comida sobre a mesa quebrada da casa que ia se esvaziar

Dos filhos, famintos, sem chance, os que viveriam iriam roubar

Ela, fraca e sem brilho, da vida maldita que Deus lhe deu

Abraçou o diabo com força, pedindo à benção de quem já morreu

Os panos que separavam os quartos testemunhariam sua depressão

Seu corpo entregue aos homens com bom dinheiro e sem coração

Debaixo de corpos pesados, suspiros molhados, chorava de dor

Ninguém se importava com ela, não havia na vida conhecido o amor

Jovem em corpo de velha, as marcas da fome eram tal cicatriz

Olhava pra trás na sua história e sabia que nunca tinha sido feliz

Agora, com filhos bandidos, ou mortos, perdidos, se viu sem razão

Da miséria guardada no bolso, a faca em ferrugem encontrou o coração

Morreu sem dentes na boca, barriga vazia e uma história sem cor

Morreu chorando baixinho, no seu cantinho, sem pedra bonita ou coroa de flor

 

Vou deixar uma carta.

 

Uma carta ressentida, manchada daquelas lágrimas fujonas que se jogaram no papel. Uma carta com as nuances de minha existência que nunca souberam se eu fui triste ou fui feliz.

Vou deixar uma carta que diga que te amei mais que do que devia, do que podia, do que queria, e que talvez esse tanto de amor que dediquei a ti tenha tirado o pouco que me restava a mim mesma.

Vou deixar uma carta com cheiro de sangue, de mágoa, de suor. Uma carta que não diga tudo o que eu queria dizer, porque nem todos os sentimentos são passíveis de expressão.

Vou deixar essa carta dobrada na minha mesa de cabeceira.
Vou virar de lado e deixar o sono me levar.

 

O pó

 

Foi numa manhã de inverno que, após a ressuscitação, entregaram pra ela um pacotinho e disseram a ela que ela tinha em mãos uma pequena rocha.
Forte. Sim, forte. Mas esqueceu que inquebrável e precioso é o diamante.
Ela nem carvão era para tornar-se diamante sob pressão. Ela era rocha.
Rochas não quebram com simples chutes ou socos, mas se moldam às tempestades.
Ela não quebrou. Jamais quebraria. Já haviam a dito que ela jamais quebraria e ela de fato não o fez. Nem uma lasquinha.
Sua superfície rígida ganhou pichações e marcas de canivete, mas não quebrou.
Mas o que são chutes e tapas perto de temporais?
Foi se fazendo pequena, de rocha foi à pedra, de pedra foi à cascalho, do cascalho foi ao pó.
Como pó, voou.

 

Queda

 

Então eu multipliquei as dores do meu corpo.
Do coração que sangrava, sangrei a pele
Da alma de doía, converti nas células.
Então dobrei meu sofrimento
E hoje me acolho na dor que me resta
Talvez a amiga mais antiga a abraçar meu corpo
Alegra-me que ainda me julguem forte
Simplesmente porque o mundo
Não deu a mim a opção de cair.

 

Selvagem

 

A pré-disposição ao ataque é o que nos diferencia dos animais selvagens. Eles são, nesse aspecto, muito mais civilizados que nós.

 

Maya Falks é escritora, publicitária, jornalista, bacharel em Letras e especialista em marketing. Autora de 11 livros individuais e integrante de mais de 30 antologias, Maya também é detentora de mais de 30 prêmios, foi patrona da Feira do Livro de Caxias do Sul e mulherageada do I Festival Mulherio das Letras RS.

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