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A persistência da memória - Salvador Dali - 1931

O ÚLTIMO DOMINGO DE SETEMBRO por ROSANA ZUCOLO

” Tem dias que a gente se senteComo quem partiu ou morreuA gente estancou de repenteOu foi o mundo então que cresceu”

Esta semana foi intensa e, particularmente, difícil.  Na segunda-feira, 22 de setembro, amanhecemos com a alma lavada pela energia dos protestos nas ruas contra a aprovação da PEC da Blindagem (ou da “bandidagem” como ganhou força nas redes) e cujo desfecho trouxe a sensação de uma (re)conquista histórica e coletiva. Algo importante nos foi restituído, após anos impregnados por uma espécie de impotência civil.

E, ainda que seja uma vitória, ela vem acompanhada por uma espécie de ressaca provocada pela consciência da fragilidade da democracia diante do avanço das desfaçatezes a que estivemos – e ainda estamos – expostos pelas distorções no atual ciclo político brasileiro, nunca antes tão inescrupuloso e escancarado. Um ciclo em que estamos amadurecendo a duras penas e muitas perdas.

A tal conjunto de acontecimentos que mexem com as emoções da gente,  se somou uma data especial e sensível do ponto de vista familiar. Segunda, 22, seria aniversário de vida do Clovis, pai dos meus filhos, que partiu em 2023, após longo período de doença. Talvez, pelo conjunto das energias em circulação, a semana começou estranhamente emotiva como não o fora antes.

E como diz a canção do Chico Buarque, (…) o tempo rodou num instante, nas voltas do meu coração.

Conheci o Clovis em 1980. Ele regressava da Paraíba para prestar concurso na UFSM, enquanto eu me desdobrava entre os cursos de Jornalismo e o de Direito – que acabei abandonando depois.  Estudante vinda de outra cidade, eu já convivia há algum tempo com as irmãs dele e frequentava a família.

Quando nos encontramos, houve algo muito empático, como um reconhecimento, um reencontro. Descobrimos ter uma sintonia fina, quase telepática, de modo a perceber as coisas do mesmo jeito. Elas simplesmente fluíam, nos surpreendendo e também aos outros. Gostávamos das mesmas coisas, tínhamos interesses similares, conversávamos sobre tudo, pesquisa, universidade, realidade brasileira, amigos voltando do exterior. Vivíamos, então, os tempos da luta pela abertura política e da redemocratização do país.

Curiosamente, sem conhecermos detalhes e particularidades da vida um do outro, ambos estávamos encerrando relacionamentos anteriores. Essa coincidência nos lançou na ordem dos acontecimentos simultâneos e inexplicáveis. Nada havia sido planejado, nenhum pacto selado: simplesmente aconteceu, como parecem acontecer as coisas destinadas a ser. E isto se deu não sem reações ou incredulidades no entorno, mas o fato é ter sido exatamente desse modo.

Naquele período, chamou-me a atenção (e encantou) o modo como Clovis lidava com as pessoas. Havia nele uma maneira singular de acolher: paciente, serena, igualitária. Nunca estabeleceu distinções, tampouco cedeu à tentação de discriminar. Esse traço, muito próprio, acompanhou-o por toda a vida.

Penso que Clovis encarnava o dialogismo buberiano, ao qual me apresentou a seguir. Como Buber, ele acreditava no diálogo e no encontro genuíno como condição fundamental à experiência humana e à intersubjetividade. Martin Buber, filósofo, teólogo e escritor austríaco, se debruçou sobre a importância subjetiva das relações humanas, principalmente da comunicação e do diálogo, fundamentais ao processo civilizatório e à concretude do comunitário.

Eu e Tu, a obra mais conhecida desse filósofo e o primeiro livro dele que li, é de uma riqueza ímpar, quase poética. Trata, entre outras reflexões, do encontro, da alteridade, do amor. Para Buber, é necessário distinguir duas atitudes fundamentais da relação humana com o mundo: uma que prioriza o encontro, diálogo e presença autêntica (Eu e Tu) e, outra, que diz da relação de objeto, uso e separação (Eu/Isso). Defende que o ser humano se constitui através desses encontros marcados pela alteridade e o reconhecimento do outro como sujeito. E o lugar existencial por excelência é o “entre”. Cada vez que um encontro acontece, se dá de forma exclusiva, única, porque nenhuma relação é igual a outra. Entre o Eu e o Tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos, nenhum esquema, nenhuma fantasia.

Clovis sempre se guiou, naturalmente, pelo diálogo não apenas como valor íntimo da vida privada, mas como condição indispensável ao processo democrático. Toda a sua trajetória teve esse princípio como eixo vital. Era um homem civilizado  e em busca da civilidade, no sentido radical da palavra.

Resumidamente, foi assim que dois filósofos passaram a fazer parte da minha vida: um na condição de companheiro; outro, como referência e inspiração.

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá

Setembro é um mês de muitos aniversários na família – a nuclear e a ampliada -, o que naturalmente mobiliza as subjetividades de todos. E, nesta semana em que a sensibilidade ficou à flor da pele, Clovis faria 78 anos. Inevitavelmente, as lembranças emergiram, mesmo porque nenhuma convivência é neutra e acabamos nos parecendo uns com os outros, ainda que não saibamos disso de modo consciente. Nestes momentos delicados, é possível enxergar quem já se foi em pequenas coisas da vida cotidiana e que se repetem de modo automático, tal qual o habitus referido por Bourdieu.  Em tais ocasiões, a memória persiste mais intensa – vestida de saudade e reflexão  – porque envolta em emoções, e a mostrar que somos todos luz e sombra. E a vida segue, tecida pelas narrativas que expomos ao mundo e pelas que guardamos em silêncio.

Ainda na atribulação da semana, e para além da memória familiar, duas notícias externas nos surpreenderam, como se o universo, por um capricho temporal,  resolvesse mostrar que ele permanece entre nós:  o contato da Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm) a  convidar para a inauguração da sua sede em Camobi, cujo nome será Casa Clovis Guterres; e a informação de que a reitoria e o Centro de Educação da UFSM reinauguraram o auditório  do CE que agora leva o nome de Auditório Maximum Prof. Dr. Clóvis Renan Jacques Guterres.

E, neste último domingo de setembro, que encerra essa semana emocional,  é preciso dizer que ambas iniciativas, a ultrapassar o abrigo da lembrança afetiva e privada na forma de homenagem e reconhecimento,  nos aqueceram a alma.

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá”

Rosana Zucolo, jornalista, professora universitária aposentada, mestre em Educação(UFSM) e doutora em Comunicação(Unisinos). Nascida gaúcha, mora em Santa Maria, tem alma cigana, a Bahia como segunda terra e o mundo como casa.  Descobriu ter uma certa predileção por pares: dois filhos, dois prêmios Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, dois empregos por muito tempo, dois projetos de cursos de comunicação, dois blogs,  duas casas, dois irmãos, dois cachorros, duas cachorras, dois gatos…

 

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