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By FMenine

O TEMPO DAS PEQUENAS DESPEDIDAS POR ROSANA ZUCOLO

“Pronto, lá vou eu de novo!”  A exclamação saiu feito faísca – inesperada, em tom alto e bem humorado -, a arrancar gargalhadas pela casa, daquelas que ecoam e preenchem o ambiente, deixando tudo mais leve e divertido.

Era a terceira tentativa de convencê-la a sair da cadeira em direção à cama, ao que respondia com protestos, resistência e medos não identificados.  O ritual é diário e dura alguns minutos. Então, de repente, como quem desperta uma memória adormecida, a sinapse vem e o corpo responde com confiança e coragem. Não se sabe por quanto tempo, nem quando se repetirá. Simplesmente acontece – ou não. Mas quando irrompe, eis ali, de novo, ainda que por brevíssimos instantes, a pessoa presente. E lá vamos nós, de novo, antes do mergulho no desconhecido.

Hoje, quando entrei no quarto, ela me cumprimentou alegremente. Reagiu como se estivéssemos nos revendo pela primeira vez depois de muito tempo. No entanto, estou por perto há dias. Ainda assim,  o encontro se deu:  real, presente e imediato. É quando ela abraça, beija e fica alegre. Conversa, como sempre gostou de fazer, embora os assuntos já não guardem nexo algum e, por vezes, a voz falhe. Outras vezes, me dirige um olhar perdido e não sabe quem sou.

Também hoje li o seu último texto lúcido. Fora escrito e publicado em abril de 2023, às vésperas da sua última viagem ao Velho Continente. Junto dele, os roteiros dos percursos meticulosamente preparados. Revisou mapas, calculou distâncias, relacionou regiões e cidades que queria rever. Estava feliz.

Percebi que percorrer este espaço digital é reencontrá-la em identidade e essência.  Seus relatos e fotos permitem resgatar o que ela representa ( ou representou) a cada um de nós. Não como lembrança, mas como presença de um ser muito amado e singular. É encontrar  os registros daquilo que a movia, levando-a a diferentes lugares.  Correr o mundo era o que a alimentava — e o fazia destemidamente, sempre com a curiosidade e o prazer por descobrir algo novo: gentes, lugares, culturas.

Seus textos vieram a mim acionados pela recordação das inúmeras conversas que tivemos sobre transformar o blog em livros de viagem. Edições que nunca foram realizadas, até então. Prometi que o faria.  Penso que era esse o seu desejo: o de que as páginas do livro prolongassem a viagem da existência, como se a escrita pudesse seguir caminhando por ela. Um jeito de permanecer e continuar.

No curto espaço de dois anos, ela mergulhou em um universo paralelo no qual a memória e a identidade gradativamente desvanecem e se tornam vestígios, enquanto o corpo esquece a sua razão de ser.  De repente, em fevereiro, depois do carnaval, acordou e não quis mais andar.  Parte de um processo célere que nem os médicos sabem explicar ao certo os fatores causais.

E se em volta tudo é rearranjado porque assim a vida passa a exigir, é também quando percebemos que lidar com a demência do outro diz muito de nós mesmos. É como aprender a dançar: cada ritmo, cada passo vai desvelando o movimento. Ora ele é abrupto e trôpego, ora é gracioso e harmônico. Cada dia, um dia. Não tem fórmula. Apenas descobertas e aprendizado.

É dizer de um longo e doloroso exercício de aceitação. A doença é progressiva, sem retorno para quem entrou no percurso. E ela também expõe os limites de todos. Há quem fique, há quem não suporte ficar. E aquela pessoa que teve tanta importância em nossas vidas, aos poucos, vai deixando de existir do modo como a conhecíamos. Ao mesmo tempo, segue ali, a exigir desdobrar e repensar nosso jeito de viver.

Fato é que a doença avança e, não raro, adoece quem cuida. Para quem se dispõe a não institucionalizar o doente, há um tempo de ajustes até que se encontre o caminho do maior equilíbrio possível. Isso porque a demência (como toda a enfermidade degenerativa) sacode as estruturas de quem está junto e revela também o que se tem de mais generoso e mais sombrio no sistema familiar.

O primeiro impulso é o de proteger a pessoa de tudo aquilo que a possa ferir, mesmo que isto signifique afastar os amigos que querem ajudar. Um segundo movimento passa por achar ser possível dar conta de tudo apenas com a ajuda dos médicos. Funciona no início do processo e é quando se descobre que, mesmo com o suporte deles, a responsabilidade é sua e não, não é possível dar conta sozinha.  Mesmo porque uma terceira demanda oscila entre o ajuste da medicação e escolha/experimentação de cuidadores. Até acertar estes dois fatores cruciais ao cuidado, é como estar montada numa gangorra na qual de um lado está o stress físico e emocional e, do outro, a necessidade de administrar a vida cotidiana.  Por ali,  a insegurança, as dúvidas, os medos, as somatizações, os gatilhos, os enfrentamentos, a impaciência e a desesperança se tornam uma parte mais visível no dia-a-dia familiar.

Também falar em rede de apoio é reconhecer que, aonde estamos, ela depende quase exclusivamente da construção das famílias; seja pela possibilidade de contratação de profissionais especializados, seja entre os parentes mais próximos ou aqueles amigos que se disponibilizam a estarem junto. A presença deles – ainda que para uma eventual escuta atenta -, aquece o peito doído de quem cuida e se despede todo dia. E haja terapia para aguentar o tranco!

Se as doenças degenerativas nos colocam diante do enfrentamento da finitude, a demência antecipa este processo pela perda diária da consciência de quem foi  afetado por ela.  Isto ao mesmo tempo em que é possível (a quem se dispõe) clarear as escolhas, reviver a memória e restaurar laços afetivos… sim, pode vir a ser um processo revelador e transformador, ainda que em meio a dor. E não, não termina quando tudo acaba (mas  isto é outra conversa).

 A quem, como eu, vem de tempos em tempos, cada reencontro é uma pequena despedida, uma dor diante da fragilidade do outro, da minha impotência frente à doença e da consciência da perda.

Escrevo porque preciso me recompor. E também porque tento ludibriar a  minha insignificância perante o tempo que avança e tem levado embora muitos afetos de uma vida toda. Mesmo assim me consolo com Guimarães Rosa e me pego a repetir como se fosse um mantra: “o que a vida quer da gente é coragem”. E, enquanto ela se desenrola em suas nuances tragicômicas, me agarro ao amor presente nos gesto miúdos que compõem o cotidiano: o aconchego com quem se faz presente, a risada partilhada,  a angústia dividida, o choro inevitável e, até mesmo, o silêncio do cansaço.  E sim, dói – mas, ainda assim, lá vamos nós, de novo!

Rosana Zucolo, jornalista, professora universitária aposentada, mestre em Educação(UFSM) e doutora em Comunicação(Unisinos). Nascida gaúcha, mora em Santa Maria, tem alma cigana, a Bahia como segunda terra e o mundo como casa.  Descobriu ter uma certa predileção por pares: dois filhos, dois prêmios Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, dois empregos por muito tempo, dois projetos de cursos de comunicação, dois blogs,  duas casas, dois irmãos, dois cachorros, duas cachorras, dois gatos…

 

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