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CONTRA CABO VERDE, VOCÊS NÃO VÃO FAZER GOL por ROGER BAIGORRA MACHADO

Eu cresci jogando e sonhando em ser jogador de futebol. No final dos anos 80, as partidas aconteciam na rua da minha casa. Infindáveis confrontos, horas e horas, jogos que, muitas vezes, só terminavam quando as mães gritavam pelos filhos. As goleiras eram feitas com chinelos de dedo e tinham não mais do que um metro de largura.

Depois, no início dos anos 90, os jogos eram nos campinhos do bairro. Como sempre havia mais de um time, o selecionado que fizesse três gols primeiro seguia jogando. Aos perdedores, restava esperar pela próxima vez. E havia confrontos em que ninguém marcava. O gol, definitivamente, não era bem-vindo.

E nesses dias, o “quem fizer o primeiro, vence”  se tornava a regra. E às vezes, nem assim. O melhor mesmo era aceitar o empate. Por isso eu sei:

Ontem a Espanha poderia ter mais cinco horas de partida que não faria gol em Cabo Verde.

Quando os portugueses chegaram a Cabo Verde, no século XV, lá não havia habitantes, e a Espanha, a adversária na Copa do Mundo, já era uma potência privilegiada. Um rico império colonial de exploração de pessoas e terras. No entanto, assim como aconteceu no Brasil, Cabo Verde teve a colonização portuguesa e, com ela, recebeu marinheiros, comerciantes, africanos escravizados, aventureiros e, sobretudo, trabalhadores.

No arquipélago de ilhas onde fica Cabo Verde nasceu um povo de identidade profundamente marcada pela experiência da escravidão e da migração. A diáspora africana de Cabo Verde tem séculos. Nesse conjunto de 10 ilhas, lugares com pouca terra arável e com crises recorrentes de abastecimento de água, aos cabo-verdianos restou partir para outros países. Migrar virou um planejamento de vida.

Hoje, pouco mais de quinhentas mil pessoas vivem em Cabo Verde. No entanto, na “décima primeira ilha”, como eles a chamam, há muito mais gente. Há mais cabo-verdianos vivendo fora do arquipélago africano do que dentro dele. Eles estão em Portugal, nos Estados Unidos, na França, nos Países Baixos, na Itália, na Espanha e em dezenas de outros lugares. E a “décima primeira ilha”, esse lugar imaginado onde a maioria está, impacta até a economia do país.

O dinheiro enviado por esses emigrantes ajuda a sustentar famílias, pagar estudos, construir casas, abrir pequenos negócios e garantir dignidade aos idosos que permaneceram nas ilhas. As remessas enviadas pela diáspora cabo-verdiana representam uma parcela significativa da riqueza nacional. Em muitos lares, a sobrevivência cotidiana depende de um irmão em Boston, de uma filha em Lisboa, de um tio em Roterdã ou de uma mãe que trabalha em Paris. Cada despedida no aeroporto é também uma promessa: a de não esquecer quem ficou para trás.

E é por isso que a história de Josimar José Évora Dias, conhecido pelo mundo como Vozinha, tenha me comovido. E tenha comovido tanta gente ao fim do jogo de ontem pela Copa do Mundo. Depois de assistir a partida pelo canal do “Cazé TV”, fui pesquisar sobre o goleiro e sobre o lugar de onde ele veio.

Seu nome foi uma homenagem do pai ao lateral direito Josimar, que defendeu a nossa seleção na Copa de 1986 e que fez um dos gols mais lendários das copas, justamente no dia do nascimento do menino.

Antes de ser o goleiro que segurou o empate contra a poderosa e badalada Espanha e ser eleito o melhor em campo, Josimar era apenas um menino criado pelos avós na ilha de São Vicente. O pai servia às Forças Armadas. A mãe precisava se ausentar diariamente para trabalhar. Assim, coube aos avós a tarefa de educá-lo, alimentá-lo e ensiná-lo a enfrentar a vida. Nada mais brasileiro.

O apelido nasceu das brincadeiras de rua, do futebol na rua. Quando perdia a paciência ou reclamava das provocações dos garotos mais velhos, diziam que ele iria correr para contar tudo para a avó. O Josimar virou o “Vozinha”. O apelido pegou, ou melhor, tornou-se sua identidade.

Como tantas crianças das periferias brasileiras, Vozinha cresceu alimentando um sonho que parecia grande demais para o lugar onde nasceu. Queria ser jogador de futebol. Mas a realidade não colaborava com o sonho.

Vozinha era considerado baixo para a posição de goleiro. Ficou para trás em testes. Foi rejeitado quando outros eram escolhidos. Não teve acesso aos centros de treinamento sofisticados que moldam atletas desde a infância. Não havia especialistas em preparação de goleiros. Não havia empresários disputando sua assinatura. Não havia a estrutura milionária das grandes academias europeias.

Diante de tantas dificuldades, Vozinha virou profissional apenas aos 25 anos. A idade em que muitos atletas já estão consolidados ou até em declínio foi a idade em que tudo começou.

Rodou por clubes modestos de Cabo Verde, Angola, Moldávia, Chipre, Eslováquia e Portugal. Carregou malas, acumulou incertezas e seguiu insistindo numa profissão construída mais pela persistência do que pelo glamour. Antes do jogo contra a Espanha, Vozinha tinha pouco mais de cinquenta mil seguidores no Instagram, dez por cento da população das ilhas. Depois do jogo e da transmissão feito pelo Cazé TV, tudo mudou.

A história de Vozinha poderia ser confundida com a de milhares de brasileiros.

Tipo a história do menino do interior do Maranhão que pega três conduções para treinar. Do adolescente da periferia de Porto Alegre que usa chuteiras emprestadas. Do garoto da favela carioca que transforma o campinho de terra num Maracanã. De tantos netos que são criados pelas avós porque os pais trabalham o dia inteiro.

A história de Vozinha nos emocionou aqui no Brasil, porque é uma história igual a nossa. É uma história brasileira.

A diferença é que, no imaginário do jovem brasileiro, jogar uma Copa do Mundo parece uma possibilidade distante, mas concebível. Afinal, aqui há ídolos, campeonatos, olheiros, clubes estruturados e uma indústria consolidada. Em Cabo Verde, durante muito tempo, isso parecia impossível. Tanto que essa é a primeira vez que eles foram para uma Copa do Mundo.

Por isso, quando Vozinha chorou após o empate contra a Espanha, aos quarenta anos de idade, eu também me emocionei. Quem gosta de futebol também se emocionou. Em minutos, por conta de um desafio feito na Cazé TV, Vozinha ganhou dois milhões de seguidores. Quatro vezes mais do que a população do seu pequeno país. Da última vez que vi, já eram quase cinco milhões.

Na entrevista do pós-jogo, o Vozinha chorou. Na minha imaginação, choraram os avós que já não estavam vivos para vê-lo. Chorava a mãe que não conseguiu viajar para assistir ao jogo. Choravam aqueles que partiram para integrar a décima primeira ilha. Choravam os que ficaram. Choraram os amantes do futebol.

Em uma época em que o futebol se tornou uma das indústrias mais lucrativas do planeta, personagens como Vozinha assumem uma importância que vai além do resultado. O esporte contemporâneo se tornou cada vez mais elitista e bilionário. Meninos são transformados em ativos financeiros antes da maioridade. Clubes pertencem a fundos de investimento. Transferências movimentam cifras inimagináveis. Só o valor das bolsas dos jogadores da seleção brasileira, com as quais desembarcaram nos EUA, sustentaria o esporte de Cabo Verde por anos.

Nesse contexto, há o risco de que o futebol deixe de se reconhecer  em sua própria origem popular. Se já não o fez… Mas histórias como a de Vozinha funcionam como um antídoto contra esse esquecimento. Sobre o que realmente é o futebol. Sobretudo, para gente que como eu, ama o futebol.

O Vozinha e seu jogo mágico contra um dos times mais badalados do planeta lembram-me que o jogo continua sendo, apesar de tudo, território dos improváveis. Continua sendo o sonho de quem joga descalço na rua de casa. Que ainda há espaço para o menino criado pelos avós. Para o atleta rejeitado por ser pequeno demais. Para quem estreou tarde. Para quem veio de um país sem tradição. Para quem a vida disse não até os vinte e cinco anos de idade.

A história do Vozinha é a Copa do Mundo, em sua essência mais bonita. Uma Copa que não existe apenas para coroar os favoritos. Que existe para revelar ao mundo que o talento, a persistência e a dignidade não respeitam fronteiras econômicas.

Quando o Vozinha fechou o gol diante da Espanha, ele não derrotou o futebol moderno e nem apagou suas desigualdades. O que o Vozinha fez foi lembrar a milhões de pessoas por que elas se apaixonaram pelo jogo pela primeira vez.

Quando um garoto criado pelos avós em uma pequena ilha africana consegue olhar para os gigantes do mundo e dizer, com as mãos firmes sobre a bola, que ainda há espaço para os sonhos impossíveis. Dizer para a poderosa Espanha que aqui, contra Cabo Verde, vocês não vão fazer gol… O futebol respira.

Roger Baigorra Machado é formado em História e tem Mestrado em Integração Latino-Americana pela UFSM. Foi Coordenador Administrativo da Unipampa por dois mandatos. Atualmente é Conselheiro Municipal de Desenvolvimento Econômico de Uruguaiana e trabalha com Ações Afirmativas e políticas de inclusão e acessibilidade no Campus da Unipampa em Uruguaiana.
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