Tem lugares que fazem a gente se sentir em casa. Um cheiro, um gosto, um vento diferente, uma luz, as pessoas. Quando estive em Adis Abeba, na Etiópia, Yoseph, o motorista do táxi azul — de quem ainda guardo o cartão escrito em amárico — e também a vendedora de frangos do maior mercado do Continente me emprestaram esta sensação.
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Ele me contou a história da família durante o dia que passamos juntos. Para todos, seu nome era Sexto e se apresentava assim, porque foi o filho que nasceu depois do quinto. Já ela me olhou nos olhos e reagiu com uma certa indignação, sentada em um banco baixo ao lado do companheiro, no Merkato:
— Não é possível que você seja brasileiro… Você é etíope! Tenho certeza! É daqui! — decretou sem vacilar em um inglês com sotaque forte.
Entrei em farmácias e padarias onde era tratado como um local. Diziam As-salaam-alaikum e eu respondia Wa-alaikum-salaam. Fui ao palácio do antigo soberano da Etiópia, visitei seus aposentos. Conheci Lucy, a mulher diminuta, nossa ancestral que viveu há 3,2 milhões de anos. Caminhei pelas ruas da cidade tomando café com pipoca, comendo injera e vendo o sol se pôr no horizonte.
É bom estar em lugares que reconhecemos ou que nos reconhecem. Foi Heráclito (535 a.C. – 475 a.C.), filósofo grego pré-socrático, quem disse que a água do rio nunca corre duas vezes no mesmo leito. Não há como discordar. É mesmo assim, mas algumas partes permanecem: uma sensação que está lá mesmo na ausência que o tempo entrega, onde fragmentos de lembranças já não se encaixam mais.
Campinas, a metrópole que é minha próxima parada (e morada) no interior de São Paulo, é assim. Logo que me divorciei — há quase 8 anos —, recém-saído de um casamento de 27, fui juntar lá os cacos da minha memória desintegrada. Passei por lugares que frequentava e endereços que, hoje sei, jamais esquecerei.
Tive e tenho grandes amizades que alimentei com cerveja, cachaça e música de violão e piano, mas também algumas novas. Estas que, por força das coincidências ou do destino, aproximam pessoas de um jeito difícil de explicar. Será bom voltar de novo e mais uma vez até que esteja, finalmente, onde nasci.
Ricardo Fontes Mendes é baiano, escritor, tradutor e jornalista multimídia graduado pela PUC de Campinas (SP). Cientista social com mestrado pela Universidade Federal de São Carlos (SP), é também colaborador do Global Voices. Foi repórter e editor do JN, na Globo; editor-chefe do Grupo A Tarde; repórter e editor da Folha de S. Paulo e consultor internacional à serviço da USAID (Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA). Escreveu Salvator Mundi; Zeru; Caminho Para Varanasi; Território Livre de Duquesa; Mangue e A Morte de Zuleica Martan, este último um dos vencedores do Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, em 1993. Ganhou duas vezes o prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo. Conheça mais sobre o autor no Substack dele.
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