Depois de 40 anos de estudos e experimentos, o cientista estadunidense Thomas Harbor, enfim, conseguiu comprovar aquilo que as religiões apenas supunham. Quando um ser humano morre, ocorre uma migração de energia do corpo para um outro lugar. Ou seja, uma parte do que estava vivo, segue vivo e se move.
Além disso, descobriu que é possível também medir e visualizar essa energia num nível subatômico. A energia biológicamente produzida pelo corpo se transmuta num outro tipo de energia que emana do estado de inconsciência (morte). Essa energia, ou consciência, ou como há muito é chamada por alguns, alma, migra para um outro lugar. O que o pesquisador, de fato, descobriu, e de forma genérica, é que existe uma outra forma de existência quando o nosso corpo deixa de viver.
Não bastasse isso, utilizando equipamentos e tecnologias de ponta, Harbor também conseguiu capturar, através da análise das ondas cerebrais, imagens e sensações que o corpo, já morto, não deveria estar sentindo ou vendo. E o mais incrível, o que ele encontrou não foi o tradicional túnel de luz ou qualquer coisa parecida.
Harbor encontrou imagens, sons, outros seres, prédios, ruas, todo um mundo parecido com o nosso.
A descoberta foi publicada em revistas científicas, os dados são analisados por outros cientistas e tudo é validado. Era a vitória da ciência. Um cientista demonstrou aquilo que as religiões há milênios supunham: existe vida após a morte.
Nos primeiros seis meses após a divulgação da pesquisa e de infinitas matérias em jornais, revistas e programas de TV, as pessoas vão ficando cada vez mais curiosas.
As perguntas vão se multiplicando. Como é esse outro mundo? Será que é igual aqui? Nesse novo lugar, poderemos encontrar pessoas que amamos e que já morreram? E os animais, eles também vão para lá? Nessa outra vida, existe dor?
E então, diante da certeza do pós-morte, começa a acontecer um surto de suicídios.
As pessoas começam a tirar a própria vida. Enforcamentos, venenos, tiros, saltos de pontes. Grupos de pessoas organizam festas antes de se matar coletivamente. Nos EUA, nos primeiros seis meses depois da divulgação da pesquisa, mais de quatro milhões de pessoas cometem o suicídio. Pouco mais de um ano após as primeiras matérias na TV, os números já ultrapassaram os 40 milhões. De forma global, todos os países passam a enfrentar uma onda gigantesca de suicídios. As pessoas começam a encarar a morte, não como um fim, mas como um meio. Um caminho. Se aqui não está bom, melhor partir. A morte deixa de ser o fim da vida e se transforma numa passagem para uma outra possibilidade de existência. Pois este é o enredo do filme The Discovery (2017), dirigido por Charlie McDowell, estrelado por Robert Redford e com boas atuações de Jason Segel e Rooney Mara.
Quando o filme foi lançado, eu fiquei curioso, até li algumas resenhas e críticas sobre ele, mas acabei não assistindo. Foi bem na época em que eu tinha acabado de organizar, aqui na Universidade em que trabalho, um evento durante o “Setembro Amarelo” para falar sobre o elevado número de suicídios em Uruguaiana. Na época, eu convidei o Centro de Valorização da Vida – CVV para dar uma palestra. O Salão de Atos ficou cheio de estudantes e colegas. E talvez você não saiba, mas em 2017, enquanto cidades do mesmo porte de Uruguaiana, tiveram uma média de seis suicídios para cada cem mil habitantes, Uruguaiana teve vinte e dois casos registrados. Um ano depois, em 2018, esse número foi de 20 mortes.
No palco do Salão de Atos, numa parte da abertura do evento, o palestrante chegou ao meu lado e disse em voz baixa: “Eu vou pedir para as pessoas levantarem a mão, todos aqueles que já pensaram, em algum momento, em tirar a própria vida. Aposto que tu não acerta o número de pessoas que vão levantar a mão.” Falou isso com a certeza de que eu erraria a resposta. De lá para cá, Uruguaiana seguiu com números elevados.
O Rio Grande do Sul, ainda segue como o Estado com a maior incidência de mortes autoprovocadas. Mais do que o dobro da média nacional.
Desde aquele dia no Salão de Atos, já se passaram quase dez anos. E somente essa semana, recém, é que eu fui assistir ao filme. Achei ele por acaso, enquanto zapeava entre séries e filmes da Netflix. Por óbvio, não vou contar o que acontece no fim. Mas devo dizer que três autores me vieram na cabeça enquanto a história do filme se desenrolava na TV.
O primeiro é o historiador romento Mircea Eliade (1907-1986). Dele, eu tenho um livro em três volumes chamado “A história das crenças e das ideias religiosas”. Com o Mircea Eliade eu aprendi muitas religiões organizam suas estruturas a partir da finitude. Sem a morte, não há religião. Sem a morte, não há sentido. Vejam o Cristianismo, por exemplo, onde a salvação depende exclusivamente de uma economia moral, orientada sempre na direção de um juízo final. E o Islamismo, onde o paraíso é uma recompensa que se apresenta sempre depois da vida, sempre de forma escatológica. E nas tradições orientais, como o Hinduísmo e o Budismo, onde a multiplicidade das vidas integra um tipo de ciclo invevitável e progressivo, cuja finalidade última é a libertação espiritual. Em todos esses sistemas, a morte sempre tem um papel primordial, sendo mediada por um horizonte ético e transcendental.
Acontece que no filme, tal horizonte é dissolvido pela ciência.
Nada do que você faça ou tenha feito importa. Não há o bem e nem o mal. Não existe um deus julgando. Não há a necessidade de arrependimento ou conversão. A passagem para a “vida” após a morte acontece para todos, não importa o poder aquisitivo, as horas rezando, a fé de joelhos, a cor, o gênero, o crime. Basta morrer. E quando a transcendência se torna uma evidência empírica, a morte perde toda sua dimensão simbólica. O além deixa de ser promessa e passa a ser um destino verificável. A consequência disso, é um colapso dos sistemas religiosos. Uma espécie de colapso antropológico: a morte, outrora limite absoluto da experiência, converte-se em possibilidade instrumental. Por isso a epidemia de suicídios que atravessa a narrativa do filme. Muitos personagens acreditam que a morte oferece, sim, uma segunda chance. Contudo, a estrutura do filme (spoiler) sugere exatamente o contrário: a morte apenas reinscreve o sujeito no mesmo campo de conflitos. Quando você morre, você retorna para a sua mesma vida.
E é aqui que eu pensei num segundo autor, Friedrich Nietzsche e na sua ideia do Eterno Retorno. Pois o Nietzsche imaginou um pensamento angustiante, ao menos para mim: E se cada instante da sua vida tivesse de ser vivido novamente, infinitas vezes? Não como uma lembrança, mas como um destino. O Eterno Retorno, a taça que se enche novamente de vinho, é a forma mais radical de responsabilidade existencial. Porque elimina a fuga. Se tudo retorna, cada gesto pesa como se fosse a própria eternidade. No filme, porém, o retorno não é idêntico. Ele é sempre imperfeito. A consciência parece se deslocar para uma vida paralela, uma variação possível do mesmo destino inicial. Não é exatamente o retorno de Nietzsche, eu sei. É quase uma psicologia do arrependimento. As pessoas parecem regressar ao ponto onde suas vidas se quebraram. Onde falharam. Onde amaram tarde demais. Onde não fizeram. Onde não foram. Nesse sentido, o “pós-vida” do filme parece menos um céu e mais um tribunal íntimo. Não há nenhum deus julgando.
Há apenas a memória. E a memória, quando se torna absoluta, pode ser mais severa que qualquer divindade.
O terceiro autor em que pensei foi o Albert Camus. Para o Camus, na ideia de Absurdo que nasce da tensão entre o desejo humano de sentido e a indiferença do universo. Noutros termos, a resposta não está na fuga metafísica, mas na afirmação da vida apesar de sua ausência de garantias. Sob essa perspectiva, o filme pode ser interpretado como uma parábola secularizada do purgatório. Não existe nenhum tribunal transcendental. O julgamento ocorre na própria estrutura da consciência, que retorna incessantemente aos pontos de ruptura da sua história.
A eternidade, nesse caso, não é uma transcendência divina. Ela é a repetição psíquica.
E talvez, justamente, esse seja o gesto filosófico mais inquietante do filme. Ao demonstrar cientificamente a existência de uma vida após a morte, “A Descoberta” não restaura a esperança religiosa, mas radicaliza o problema da própria existência. Se a vida retorna, então cada decisão deixa de ser apenas circunstancial. Ela se torna estrutural. A verdadeira eternidade não começa depois da morte. Ela já está inscrita na própria condição humana, na repetição de seus desejos, de seus erros e de suas tentativas de redenção.
No filme, tive a impressão de que o suicídio não resolve nada. Ele apenas desloca o problema fundamental num eterno retorno. A existência continua. O dilema moral continua. O amor perdido continua. Os arrependimentos, quase sempre são os mesmos. Pois se a vida retorna, então cada instante se torna mais grave. Não porque seja único. Mas porque pode ser eterno. Talvez seja essa a ironia final do filme. A descoberta da vida após a morte, que deveria tornar a existência mais leve, faz acontecer o contrário. A vida torna-se mais pesada. Insuportavelmente pesada, eu diria. E o Nietzsche, depois de umas garrafas de vinho, chamaria isso de “o peso da eternidade”.
E naquela noite de 2017, no evento lá na universidade, ao ser questionado, eu disse que nenhuma pessoa levantaria a mão. Eram meus colegas, eram nossos alunos, pessoas que eu via todos os dias. E tão logo o palestrante fez a pergunta para a platéia, dezessete pessoas ergueram os braços. E eu conhecia quase todas elas. Cada pessoa com seus próprios motivos, cada um sentindo de maneira única todo o peso da vida. Aquilo me deixou pensativo. Afinal, o Camus escreveu que o suicídio é a única questão filosófica verdadeiramente séria. No entanto, também escreveu que, ainda assim, é preciso viver. Mesmo no absurdo. Viver. Especialmente, no absurdo. Pois, ao contrário do filme “The Discovery”, não há evidência nenhuma de que exista qualquer coisa depois. Vamos viver, a despeito de tudo e de qualquer absurdo.

Roger Baigorra Machado é formado em História e tem Mestrado em Integração Latino-Americana, ambos pela UFSM. Foi Coordenador Administrativo da Universidade Federal do Pampa – Unipampa, por dois mandatos, de 2010 a 2017. Atualmente é Conselheiro de Desenvolvimento Econômico de Uruguaiana e trabalha com Ações Afirmativas e Políticas de Inclusão e Acessibilidade na Unipampa.
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