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Poemas à Flor da Pele | Cátia Simon

Poemas à Flor da Pele – contos, crônicas & poemas, volume 7 

– um singular mosaico literário em versos e prosas

Cátia Castilho Simon

Poemas à Flor da Pele – contos, crônicas & poemas, volume 7 é coordenado e editado pela poeta e agitadora cultural, Soninha Porto. O volume reúne 101 autores e autoras com timbres e vozes próprias e diversas. Nesse conjunto, 83 mulheres predominam na escrita de poemas, contos e crônicas. Tal empreitada tem como prefaciadora, a nossa dama da literatura, Jane Tutikian,  orelhas assinadas pelas queridas escritoras, Joselma Noal e Dione Detanico e capa lindamente ilustrada pela artista plástica e poeta, Iaralice Lemos Ramos. A Soninha abre portas e janelas dentro da literatura e fora dela, por isso agrega e realiza sonhos de escrita através das suas publicações.

Ao abrirmos o livro, já nos deparamos com o vibrante prefácio que, mais do que a estrutura da obra, desvenda-lhe a alma. Os conceitos apreendidos nos textos, quer sejam poesia ou prosa, transitam pela coragem, celebração, grito, autenticidade, coletividade, generosidade a partir do olhar arguto da Jane Tutikian. E mais, ela traz conceitos importantes sobre a leitura, convocando para o diálogo explícito Sartre, Katherine Mansfield e AnaïsNin. Nessa conversa possível, a questão central está focada em quem escreve o texto em si e em possíveis leitores/as – tríade fundamental para que a leitura se cumpra.

O volume 7 está organizado em ordem alfabética tanto na primeira parte que reúne a poesia, quanto na segunda parte do livro que contempla a prosa (conto e crônica) e assim se entrega aos leitores e leitoras por esse critério. Vou destacar somente algumas poesias e prosas, na impossibilidade concreta de citar todas e todos. Meu olhar e crítica voltaram-se para a relação dos poemas e das prosas com questões que urgem no âmbito social e histórico. Dei relevância aos temas que entendo como cruciais para o nosso tempo, reafirmando o que Antonio Candido escreveu sobre a literatura manter relações com a realidade social: “a literatura incorpora as suas contradições à estrutura e ao significado de suas obras.”

Cíntia Colares, também conhecida como Flor de Lótus, é “mulher negra, jornalista, poeta, coautora em coletâneas, antirracista, mãe solo de um adolescente negro, mora na periferia de Porto Alegre”. No livro há dois poemas seus: ‘Grito e cura’ e ‘Morro e renasço em minha Ilha de Lótus’. É no primeiro que vou me deter: “Meus sentimentos jorram/De início bem caóticos/A intenção de dar o recado/Vai organizando meus pensamentos/Sem o compromisso de rimar/Querendo sacudir/ Balançar o que está posto(…)”. Não há forma nem fórmula pré-estabelecidas no seu fazer poético; é no correr da caneta ou do teclado que as palavras e seus sentidos se organizam e ecoam como grito. Há muito a ser dito, o sentimento guardado. Lélia Gonzalez, em oito de fevereiro de 1984, escreveu “A mulher negra”, mostrando um longo e tortuoso caminho percorrido. As mulheres pretas lideravam as ocupações manuais rurais (agropecuária e extrativismo vegetal) e urbanas (prestação de serviços) e tiveram grande desvantagem em relação às mulheres brancas nas ocupações não-manuais, que tinham como pré-requisito o ensino médio ou superior. Destaca que “quando se trata das profissionais de nível superior (…) a presença da mulher negra é quase de invisibilidade: 2,5% a 8,8%”. Em pesquisa realizada com mulheres negras de baixa renda (1983), Lélia afirma que poucas começaram a trabalhar já adultas. Elas entravam na força de trabalho por volta dos oito ou nove anos para ‘ajudar em casa’, dificultando ou impedindo o acesso à escolaridade. Relata também sobre os obstáculos enfrentados na escola, em um ensino que não valoriza saberes culturais não brancos. Destaca que o movimento das favelas, o Movimento Negro Unificado, teve a presença de mulheres negras na sua criação e direção, e que isso não pode ser esquecido. Então quando Cíntia Colares, a Flor de Lótus, traz para sua biografia os dados de sua raça e lugar onde vive, está nos remetendo a essa história construída antes dela e por ela. “É poesia que nasce/ Nela me permito/ o que me minha escrita pedir que eu diga/ É poesia que avança/ Avança sinais, avança muros/ Avança contra padrões/ Faz meu grito ecoar/ Crava o meu pensar/ na página que estava em branco/ e agora enegreceu-se(…)” Bravíssima poeta que, junto a outras poetas pretas na antologia, assinalam com dignidade suas presenças. É por essas e outras parcerias que Soninha Porto agrega nesta obra celebração e grito.

O planeta pede socorro, vidas de mulheres pedem socorro. Eliane Brum, no livro Okotó,  compara a exploração da Amazônia com a do corpo da mulher. O poeta Claudenir Bunilha Caetano, natural de Arroio Grande/RS, professor, pesquisador e poeta nos adverte em ‘A terra já não espera’: “A gente cresceu ouvindo/que o planeta era forte/imenso, eterno./Mas ele anda cansado,/com febre, com sede,/com o corpo ferido. (…) A culpa não é do céu,/nem do mar./É nossa pressa em crescer sem medida,/nossa mania de esquecer/ que tudo volta –até o ar que respiramos.” Ailton Krenak, agora na ABL, terá tempo hábil para ser ouvido antes que o céu se rasgue, conforme nos alertam os Xamãs em ‘A queda do céu’, de Davi Kopenawa e Bruce Albert? Tiago de Melo, Manoel de Barros, poetas que tão bem entraram em sintonia com a natureza, trazem em versos segredos e sussurros que reverberam na poesia de Claudenir.

Conceição Hyppolito, de Uruguaiana, bacharel em Comunicação Social, nos dá a intrincada dimensão do poema enquanto pedra, na poesia ‘Caminhos’: “(…) A pedra do poema/é pedra no sapato/do poeta que margeia/caminhos do fim ao meio/ do olho da rua da cidade de pedras…”.

A Eloiza Dalila, conhecida como Negra Dalila, é de Tupanciretã, integra a diretoria da Poemas à flor da pele e participa da antologia com dois poemas: ‘Liberdade metamórfica’ e ‘Marionetes da vida’. O primeiro poema me faz lembrar da primeira vez que vi a poeta recitar em performance alegre e descontraída: “(…) Feliz, abro minhas asas,/satisfeita por que eu não sabia,/pois de uma frágil lagarta,/agora voo com a majestade/de uma rainha!” Com muita propriedade e autenticidade, a poeta celebra o aqui e agora da vida. Não está na minibio da autora, mas já a ouvi falar que, após a aposentadoria, pôde se dedicar à delícia da poesia.  É assim que muitas mulheres chegam nesse mundo da escrita, depois de cumprirem o roteiro prescrito pelo mundo do trabalho e social. Mas a alegria da poeta é da mesma natureza dos seus versos, ela nos convida a usufruir.

A Eurídice Baumgarten, escritora, poeta, jornalista, fotógrafa, natural de Porto Alegre, residindo em Toronto, conhecida por Malu Baumgarten, participa com três poemas: ‘Na contramão’, ‘Os pés de meu pai’ e ‘Matemática’. O segundo poema dialoga diretamente com um outro em que ela escreve ao pai por ocasião do seu falecimento e que está no seu livro bilíngue ‘A poesia da hora braba’, do selo invencionática: “(…) As mãos de meu pai, nunca peguei/só por afeto, nem ele as minhas./Mas não falsearam a ofertar-me o prumo/no balanço traiçoeiro do Huracán,(…)”. A importância do pai, para além do que presume o patriarcado, é comovente. Versos que nos fazem sentir o calor das mãos de um pai que todas e todos deveriam contar.

Soninha Porto, cruz-altense, acadêmica da ALFRS, curadora dessa antologia, nos indaga em seu poema sem título: “(…)E os amores ardentes/escondidos nas frestas do tempo?” Por onde andam esses sentimentos vividos, em profundo questionamento existencial. Assim como Drummond afirmou ser um homem do seu tempo, os versos de Soninha colocam-na como a mulher no nosso tempo. A mulher, dona de si,  expressa em versos sua sensualidade e autonomia.

A segunda parte do livro reúne a Prosa e cito algumas: a de Bete Flor, nascida em Canoas, aposentada, trabalhou no DMLU, escreve um texto pungente ‘Falando com Deus’, inquirindo a ele e a si mesma sobre as incongruências do mundo em que vivemos; Caren Borges, psicóloga, escritora, integra diversas academias, escreve ‘Carta para a mulher negra que é farol de liberdade para todas as peles’, dirigida à poeta e multiartista, Lilian Rocha: “(…) Desejo que a Lilian siga sendo pedra fundamental na luta contra o apagamento da história das mulheres, em especial das mulheres negras.”

A triste experiência da enchente de maio/2024 está no texto de Elizabeth Leal, nascida em Guaíba, uma das cidades bastante atingida pela força das águas: “Saí de casa à noite. No engenho, bairro onde moro, estava uma escuridão assustadora, pois não havia luz e chovia muito.(…)” E assim o drama e o trauma vão sendo narrados. Os reflexos dessa vivência borram a existência na forma de textos e versos de muitos escritores e escritoras.

Lilian Rocha é de Porto Alegre, analista clínica, musicista, nasceu poeta. Integra diversas associações e academias. Participa com dois textos na antologia: ‘O ônibus’ e ‘Carta ao meu querido Olavo Bilac’. O primeiro texto conta um abuso sexual sofrido por uma mulher em um ônibus e todos os questionamentos que a vítima se impõe e a reação quase imediata de se rebelar ao silenciamento e à culpa que tradicionalmente se colocam às mulheres nesses casos. Uma reviravolta e tanto para a vida daquela personagem. Um tema mais do que necessário, imprescindível.

Para finalizar trago dois textos que tratam da questão primordial para a sobrevivência da vida humana na terra, um da Naia Oliveira, socióloga e ecofeminista, ‘Clamor à mãe terra’, e outro da Rosa Mayombe, professora, escritora, poeta, feminista negro-brasileira, Casa. Naia chama a atenção que através do ecofeminismo podemos recuperar “a conexão das mulheres com a natureza e o resgate dos saberes tradicionais, desenvolvendo uma abordagem crítica ao patriarcado, ao capitalismo e à degradação ambiental”. Nos convoca a arregaçarmos as mangas e destaca a importância do protagonismo das mulheres. Rosa nos inquire com dedo em riste, nos moldes de um Krenak em seu livro ‘Ideias para adiar o fim do mundo’: “(…) Que atitudes salutares decidimos nesse intervalo em que respiramos os odores do descaso e da indiferença, pisamos sobre restos do consumismo que nos aprisiona, maquiamos nossa miserabilidade humana sem enfrentá-la no espelho e admitimos seu reflexo neste espaço onde compartilhamos nossas existências? (…)”.

O livro vai se tecendo nesta pluralidade de cores, vozes, lugares de fala. Poesia e prosa conjugam coragem, celebração, grito, autenticidade, coletividade, generosidade na forma e no conteúdo. A força desta antologia reside neste cabo de força-vozes em que uma escritora ou escritor acrescenta um prisma, uma palavra, uma perspectiva, compondo um singular mosaico literário em versos e prosas.

Em tempos de alta tecnologia e desenfreado uso de IA, esta antologia é um bonito contraponto. Bendita Soninha e sua curadoria de Poemas à Flor da Pele, maga que realiza sonhos de escritores e escritoras, potencializando vozes, escrita e poesia.

 

Cátia Castilho Simon

Doutora em estudos da literatura brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS

e escritora.

 

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