Entrei em uma loja hoje e, ao passar por uma prateleira de brinquedos, observei enfileirados os super-heróis e nenhuma super-heroína. Observei mais um pouco e vi vários brinquedos para meninos que remetem à violência e, para as meninas, ao cuidado da casa e à estética, para elas, a maioria em tons de rosa e, para eles, em cores escuras. Não vi nenhum brinquedo de arma cor-de-rosa e, tirando o carro da Barbie, todos os brinquedos de quatro rodas eram de cores escuras e estavam na ala dos meninos. Também não havia nada que representasse uma família inteira que pudesse ser brincada por ambos, tampouco personagens segurando livros e que representassem outros gêneros. Além disso, as figuras representando o gênero masculino, todos fortes musculosos e as bonecas magras.
Quanta violência cabe numa simples prateleira?
Ainda ontem assisti a “O Filho de Mil Homens”, filme de Daniel Rezende, baseado no livro homônimo de Valter Hugo Mãe. Impactada pela beleza estética, pela história que transborda tempos, pelo abraço da família afetiva que se forma no decorrer da trama e pela sensibilidade de contar, senti uma imensa vontade de atravessar a tela e fazer parte daquele abraço de amor puro, livre de preconceitos e de velhas estruturas. Daniel encerra com a imagem da ancestralidade daquele “filho”, lembrando que somos consequência das escolhas de tantos que nos antecederam. O filme, belíssimo, é poesia pura disponível em um canal de streaming pago.
Já as prateleiras da loja popular seguem divididas e os monstros, lutadores, armas e bichos ameaçadores seguem ali, exatamente como há quarenta anos, na minha infância. O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo e, no ano passado, o bateu recorde de feminicídio. Recentemente, após dias sangrentos, mais uma vez, mulheres e alguns homens tomaram as ruas em protestos. O presidente Lula anunciou medidas mais severas aos agressores, mas hoje as prateleiras da loja pareciam urgir a necessidade de uma transformação social e estrutural que pare de estimular a violência, especialmente aos meninos.
São homens de 70, 60, 50, 40, 30, e jovens de vinte e poucos anos matando suas companheiras ou ex-companheiras com requintes de crueldade absurdos. Uma geração que deveria estar à frente da nossa parece retroceder séculos. E hoje, ainda hiperestimulada pelas redes sociais, navega em terra sem lei, onde quem manda é o algoritmo. O documentário “O Dilema das Redes” de Jeff Orlowski trata muito bem das questões éticas que a tecnologia deixa a desejar.
É preciso endurecer no mercado do ódio digital, regulamentar, multar empresas, canais e pessoas que estimulem a violência de gênero, a misoginia, o ódio às mulheres. Também é necessário provocar desde a escola uma reflexão social sobre estes rótulos e fardos de cada gênero, ir além do conceitual, ser agente de reflexão e transformação ou seguiremos andando em círculos, ou pior, a caminho do caos. Os números do ano passado são um sinal deste tempo.
Vale lembrar que as palavras sempre tiveram poder, sejam hoje na aldeia da “legião de imbecis”, como diria Umberto Eco, sejam na mais lida e antiga fábula da criação, que culpabiliza uma mulher pela desgraça do mundo. Sem reflexão e reeducação, Adão sempre será o inocente, a grande vítima, e as mulheres seguirão nas fogueiras das inquisições digitais, até que virem mais um dado de feminicídio.
Em Santa Maria, Rio Grande do Sul, na Câmara de Vereadores, um vereador chegou a usar a própria imagem intimidando uma colega para se defender. Onde nasce a percepção errônea daquele que não reconhece e justifica a própria violência?
Uma nova série brasileira está reacendendo a memória do país nos anos 1970. O ex-marido de Ângela Diniz, no primeiro julgamento, saiu inocentado por alegar “defesa da honra”, depois de assassiná-la com vários tiros. Em um livro que publicou antes de falecer, ele faz uma suposta mea culpa, ainda se defendendo ao dizer que ela teria afirmado que, se ele a quisesse, teria de dividi-la com outros homens e mulheres. A liberdade e a força de uma mulher incomoda em todos os tempos.
As ruas, as câmaras e as prisões seguem cheias de Adães “inocentes”.
O filme “A Melhor Mãe do Mundo”, de Ana Muylaert, revela outra face da violência: o abandono institucional. O longa evidencia como o país falha miseravelmente ao acolher mulheres e crianças que precisam sair de casa para sobreviver à violência doméstica. Muitas não têm para onde ir, tampouco recursos para se manter longe do agressor. O Estado não oferece estruturas suficientes de abrigos, proteção e assistência financeira, o que obriga inúmeras mulheres a permanecerem com seus agressores por falta de alternativas materiais e de políticas de acolhimento.
Para mudar esse quadro, é preciso investimento constante em políticas públicas que promovam a igualdade de gênero. Educação, cultura, políticas preventivas, segurança pública e justiça precisam caminhar juntas para transformar estruturas e comportamentos. Um dos exemplos internacionais mais citados é a Islândia, país que há décadas investe na autonomia feminina, na educação inclusiva desde a primeira infância e em políticas que atravessam escola, família, comunicação e tecnologia. Ali, igualdade de gênero não é apenas pauta, é projeto de país.
Lá o meninos são ensinados à cuidar! Vale lembrar que no Brasil a sobrecarga do cuidado às mulheres é muito comum, sejam com os filhos, sejam os pais e parentes adoecidos. Também é grande o número de mulheres abandonadas por seus companheiros quando adoecem.
Não basta punir, é preciso educar desde cedo e reeducar as gerações que insistem em retroceder.
Confira uma das iniciativas na Islândia, lindo seria se aqui as crianças fossem ensinadas assim:
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