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Fotografia de Alberto Henschel, Pernambuco, 1869. Registro de imagem feito pela fotógrafa Luciana Gama.

FLORÃO DE NEGRA. por ROGER BAIGORRA MACHADO

Os dois passaram pela capela do hospital e foram orientados de que o atendimento que buscavam era em outro prédio. Entraram na sala de braços dados: ela e o neto, Firmino.

Cruzaram a sala de espera do pronto-socorro num andar lento, feito de passos curtos e guiado pela paciência afetiva.

Dona Maria, uma mulher negra de cabelos brancos, tinha o corpo cansado e a coluna curvada, características comuns daqueles que resistem diante dos 92 anos. Era uma quarta-feira, 1º de julho de 1942.

Firmino, com todo o cuidado, acomodou a avó numa das cadeiras de madeira e foi até o guichê de atendimento.

A Santa Casa era um hospital de paredes tristes, um lugar voltado ao atendimento dos pobres e ao cuidado com os trabalhadores. Era a primeira vez que Maria visitava o pronto-socorro; afinal, sempre gozara de boa saúde, resolvendo seus males, geralmente, com chás e unguentos. Admirou-se com a pouca luz e a abundância de gente. As pessoas, vestidas com roupas leves, aguardavam numa sala fria, cujo piso, também gelado, exibia manchas escuras. Cada mancha era um desenho, feito marcas que pareciam sangue e que, ao longo do tempo, agarraram-se às lajotas de tal forma que pareciam sempre ter estado ali. Ao fundo, vindo do interior do prédio, ouvia-se o som de conversas e o deslizar das rodas de uma maca cruzando o corredor. O barulho era acompanhado por uma sinfonia de tosses e choros de bebês.

— Vó, já está tudo certo. Agora é só esperarmos, em breve chegará a nossa vez. A senhora quer alguma coisa? Uma água?

Num leve aceno com a cabeça, Maria sinalizou positivamente ao neto, que se levantou e foi em busca de um copo d’água e de uma torneira. O pronto-socorro reunia gente com todo tipo de problema. Perto da entrada, uma mãe com uma criança de braço quebrado. Ao fundo, um homem deitado numa maca, totalmente imóvel. Perto do guichê, um rapaz com um sangramento na testa. Um pai, com uma criança no colo ardendo em febre, caminhava de um lado a outro da sala. E havia Maria, que, pouco tempo antes, não sentia nada além do cansaço do tempo. Estava sentada na cozinha de casa, junto ao fogão a lenha, quando se descuidou ao encher a cuia de chimarrão com água quente. Esqueceu que a tampa da chaleira não encaixava mais. A tampa, sempre em falso, virou, derramando toda a ebulição sobre sua mão, causando uma queimadura feia. A pele da mão esquerda, fina, derreteu-se como se fosse plástico. Além da queimadura, Maria passou a sentir uma pontada no peito. Primeiro, apenas ao respirar. Depois, nem isso era mais preciso: uma dor que doía independente dos pulmões cheios. Uma agulhada, uma queimação que se espraiava pelos braços e, em seguida, como um fantasma, desaparecia.

Ao sair de casa, Maria havia enrolado um pano de prato sobre a queimadura. Agora, sua mão repousava sobre o colo, e a dor no peito já incomodava mais do que a que se escondia debaixo do pano. Firmino, assustado com a imagem da mão queimada, correu para chamar José, o chofer da única carruagem que ficava próxima às obras da ponte que cruzava o rio em direção à Argentina. Na pressa, não houve tempo sequer para Maria trocar de roupa. Chegou ao hospital com os pés sem meias, calçando chinelos de couro e vestindo um chambre azul; por baixo, apenas um blusão fininho, amarelo, todo feito à mão, e uma calça de camurça marrom. Maria tremia de frio.

Cerca de trinta minutos depois de sua chegada, neto e avó foram chamados para uma sala, onde foram atendidos por um médico de pele pálida, corpo magro e rosto cansado. Receitou uma pequena dose de morfina para a hora da retirada da pele, uma pomada cicatrizante e uns curativos. Ao saírem da sala, depararam-se com uma enorme fila no local para onde foram encaminhados: a Sala de Curativos estava cheia. Sentados no corredor, em bancos laterais, cerca de vinte pessoas aguardavam o atendimento. O vento frio que corria da entrada do corredor até a sala era congelante. Firmino percebeu o corpo trêmulo da avó. Também viu que, alguns metros à frente, havia uma porta que dava para um pátio, uma parte aberta entre dois prédios, como se fosse um jardim de inverno. Nesse lugar, o sol aquecia e iluminava tudo. No pátio, além do calor, havia vários bancos de concreto. Depois de perguntar a Maria se ela queria aguardar sua vez sentada ao sol, levou-a pelo braço para a área externa.

Mal saiu pela porta, sentiu-se bem com o sol a aquecer seu corpo. Ficou sentada num banco que ficava numa das laterais da área aberta.

— Vó, a senhora pode ficar aqui enquanto espera a sua vez. Eu vou lá. Quando lhe chamarem, volto para buscar a senhora.

— Tá bão, meu neto.

— Olha, vó. Eu estarei ali — disse Firmino, indicando com o dedo a terceira janela à esquerda em relação à porta.

O sol aquecia o velho chambre azul, e a vida parecia retornar ao corpo de Maria. No meio do pátio, uma árvore com poucas folhas servia de abrigo para um grupo de pardais, os pássaros pareciam estar imersos numa discussão intensa. A sensação de calor e a quase ausência de vento tornavam o pátio um lugar extremamente agradável. Por uma fração de tempo, Maria até esqueceu que sentia dores no peito e na mão.

Ficou ali, observando os pequenos pássaros que mudavam de galho constantemente e, de vez em quando, desciam até o chão, como se estivessem numa briga acalorada. De repente, Maria percebeu que, perto da árvore, havia um homem sentado. Admirou-se com sua própria desatenção; afinal, não o viu chegar ou, se já estava ali, tampouco percebeu sua presença.

O homem tinha a pele negra. Estava de costas para Maria, olhando na direção da árvore. Calçava chinelos e usava calça e camisa brancas. Um cheiro doce tomou conta do pátio, para ela, um cheiro inconfundível, o cheiro de funcho. A avó de Firmino encheu os pulmões com aquele ar adocicado e, por instantes, lembrou-se de um tempo que há muito não visitava, nem mesmo em pensamento: o tempo em que era uma jovem mulher.

Maria nasceu escrava em 1850, no balanço de um porão úmido e escuro. Chorou pela primeira vez dentro de um navio negreiro, assim contou sua mãe, que teve de cortar o  seu cordão umbilical com os dentes e recolher a filha do chão sujo de fezes e urina. Ela não sabia se ficava feliz ou triste. A pequena criança recebeu o nome de Kandimba, uma homenagem à sua avó. A mãe também contava que, depois do desembarque no Brasil, teve que andar muitos dias e noites com a filha no colo. Sobreviveu comendo sobras de comidas estragadas e urinando em pé, pois essa era a única forma de conseguir amamentar a pequena bebê sem chamar a atenção dos homens brancos, que não se importavam de açoitar mulheres ou crianças. Quando Maria completou dois invernos, ela e sua mãe foram vendidas e levadas num cordão de escravos, junto com outro grupo de pessoas. Depois de semanas caminhando, chegaram ao lugar onde viveriam por muitos anos: a Estância Soledad, cravada bem no meio do pampa. Foi num inverno cinza e frio. A Soledad era uma propriedade que ficava na divisa entre o Brasil e a Argentina, cujas terras, algumas quadras de sesmarias, estendiam-se por todo o horizonte observável e acabavam, para as bandas orientais, fazendo do rio Uruguai a sua cerca.

Aos cinco anos, a pequena Kandimba teve de mudar de nome. Passou a se chamar Maria, por conta de Maria Auxiliadora, a santa cultuada pela Sinhá Ana, esposa do dono da estância, o Coronel Bento da Silva Flores. Em 24 de maio, junto com outras cinco crianças da senzala, ela foi batizada pelo Padre Anselmo, debaixo da sombra do umbu. E com o Maria, a menina também ganhou a marca dos seus donos: o sobrenome “Flores”. Maria Flores, foi com este nome que ela cresceu numa senzala fria no inverno e abafada e quente no verão. Maria não teve irmãos ou irmãs. Sua mãe, que nunca se acostumou ao frio, morreu de gripe na mesma semana em que a filha completou oito anos de idade. A mãe de Maria, assim como o nome Kandimba, transformou-se em um fantasma que por décadas viveu apenas numa memória fosca, uma cerração de lembranças, de coisas quase apagadas. A Sinhá Ana, compadecida da pequena órfã, resolveu fazer de Maria a sua “escravinha da sala”. A função de Maria era um emaranhado de pequenas ações: ela deveria limpar os escarradores, deixar sempre as bacias cheias com água e os candeeiros com sebo; esvaziar os vasos de alívio que ficavam debaixo das camas, comumente cheios de urina e fezes. Também tinha de limpar os candelabros e ficar em pé ao lado da porta sempre que uma visita estivesse na estância. Quando não houvesse visitas, deveria buscar água no poço e auxiliar na cozinha — isso, se não fosse demandada pela Sinhá.

A estância tinha duas senzalas: a “Senzala Grande”, para os escravos do campo, e a “Senzala Pequena”, para os escravos da casa grande. A Soledad era uma estância antiga, ao menos para os padrões locais, pois já tinha quase quatro décadas de existência. Contava com dez peões correntinos, uns sete ex-combatentes uruguaios que ficaram por ali, e uns oito mestiços gaúchos que trabalhavam apenas em algumas épocas do ano. Por conta da falta de mão de obra, a estância sempre teve que recorrer ao uso de escravos, pois, além da vasta extensão de terras, tinha também um grande rebanho de gado bovino. Era uma das poucas estâncias que ainda vendia couros, chifres e, em menor parte, o charque. As demais propriedades, todas menores, vendiam os animais inteiros. Para os chifres e os couros, a maior parte dos compradores era do Uruguai; já o charque, feito em mantas, era vendido em Uruguaiana ou enviado pelo rio para cidades vizinhas.

Em 1870, o Coronel Bento inventou que precisava aumentar o número de escravos para a lida do campo. Acreditava que, com isso, poderia transportar e carnear um número maior de gado. Partiu numa viagem de duas semanas e retornou com duas carroças cheias de mantimentos e um grupo de dez escravos novos, todos comprados no Alegrete. Eles ajudariam na lida do campo, trabalhando junto aos peões da estância, fazendo o trabalho pesado e transportando couro e carnes salgadas até a margem do rio, onde os barcos vinham para serem carregados. A ideia do Coronel deu certo: os compradores de chifres absorveram o aumento da oferta, comprando tudo que chegava à costa. Levavam balsas cheias de couro e chifres para os artesãos que faziam botões de roupas, cabos de facas e peças de encilha no interior do Uruguai. Ao todo, a estância contava com 28 escravos, entre mulheres, crianças e escravos do campo. Um dos recém-chegados se destacava dos demais, ele era um homem de quase um metro e oitenta de altura, chamado Pacácio.

Pacácio tinha na força uma de suas marcas. Era capaz de derrubar um terneiro gordo usando apenas os braços. Tinha olhos levemente esverdeados. Chegou à estância Soledad com 25 anos, indicado e vendido por Gumercindo Lopes, ex-combatente e amigo do Coronel Bento. Gumercindo havia vendido sua estância e tudo o que nela havia — uma propriedade no Alegrete — e, por isso, o Coronel foi até ele para comprar um lote dos dez melhores escravos. Pacácio foi o primeiro indicado, pois, além de trabalhador, era também um guerreiro. Quando a estância de Gumercindo foi invadida por castelhanos, Pacácio defendeu a casa grande sozinho, enfrentando dois homens com um facão. Um deles morreu com um talho na cabeça; o outro, mesmo armado, fugiu, mas foi encontrado perto das mangueiras com um corte profundo no pescoço.

A primeira vez que Maria viu Pacácio foi na trilha do arvoredo, onde cresciam pés de funcho de ambos os lados e o caminho inteiro era adocicado. Sentiu o coração bater diferente, quase como se fosse uma dor no peito. Suou frio. Ele voltava do campo, sem camisa e suado, caminhando ao lado de outro escravo. Quando se cruzaram, encararam-se como se já tivessem se amado a vida inteira, fitaram-se como se o tempo tivesse desacelerado. Maria levava sobre a cabeça um balde de água do poço que, de tão cheio, pingava sobre seu corpo. Pacácio sorriu, hipnotizado.

Olharam-se por sobre os ombros por mais três vezes enquanto se distanciavam em seus diferentes caminhos: ela, rumo à casa grande; ele, para a senzala.

Os dois, Pacácio e Maria, passaram meses se negaceando, trocando olhares e sorrisos. Mas curiosamente, em todas as vezes que se encontravam, estavam sempre indo em direções opostas. Num final de inverno, depois de carnear quatro novilhas para o casamento da filha, o Coronel Bento autorizou que os escravos fizessem uma comida que adoravam, o mokootó. Um caldo preparado por muitas horas, um cozido feito com as patas e as partes do boi que não podiam virar charque ou ser assadas. Com isso, os escravos também poderiam celebrar o matrimônio da filha do Sinhô. As patas foram trazidas da mangueira e colocadas no centro da Senzala Grande. Um fogo de chão foi feito logo de manhã e uma grande panela de ferro em formato de caldeirão foi posta sobre as brasas. Dentro dela, depositaram-se todas as patas, pedaços recém cortados, ainda com couros e cascos. Depois de fervidas por algumas horas, as patas foram retiradas por Justimiana, a mais velha das escravas. Ela colocou-as sobre um pedaço de couro que estava esticado no chão, com o lado avesso para cima. Com calma, a velha escrava retirou os pêlos e os cascos e, em seguida, devolveu as patas para dentro da panela.

A estância toda estava em ritmo de celebração.

Os peões correntinos, com suas cuias de mate e ao som do dedilhar de um guitarreiro, faziam assados com costelas cravadas em espetos de madeira num fogo dentro do galpão. As escravas da casa grande, com lenços nos cabelos, usavam roupas de algodão e trabalhavam sem parar na cozinha, preparando mandioca cozida, um pirão de farinha de milho e um cozido com abóboras. Serviam as comidas numa mesa comprida, que ficava na soteia do lado de fora da casa, debaixo de uma enorme canjerana. Havia um gaiteiro animando os convidados, que ansiosos, aguardavam o momento do churrasco ser servido, pois somente depois da janta, iniciaram as artes das danças.

Na senzala, o cheiro de comida também tomava conta de tudo. Os nervos das patas já haviam se soltado, os cascos amolecidos, boiavam no caldo, enquanto no fundo da panela os ossos se acumulavam. José, filho de Justimiana, trouxe três sacos de pano cheios de outras carnes que também entrariam no cozido. Quilos de  tripas que há pouco tinham sido lavadas na sanga, quaieras e mondongos, aparas de carne de costela e um saco grande de feijão que a Sinhá Ana mandou pegar na tuia da cozinha. Perto das vinte horas, Maria apareceu na porta da senzala, com uma cabaça cheia de sal, depois, ela voltou correndo para a Casa Grande, não sem antes, é claro, ser observada pelo olhar atento de Pacácio. O sal foi um pedido de Justimiana, feito mais cedo, quando a menina foi chamada na cozinha. O som dos tambores e as danças davam um ar de festa dentro da senzala. Por uma fração de tempo, todos ali se esqueceram de sua condição. Abstraíram das próprias almas o gelo das correntes, a dor dos cortes, a ardência do sal e o frio dos corpos. Por uma noite, sentiram-se como aquilo que eram, homens e mulheres.

Quando os convidados, satisfeitos, dançavam embriagados ao lado da Casa Grande, enfim, o mokootó estava pronto. Os pratos, todos feitos com pedaços de porongos, enchiam-se em abundância com o caldo quente, os pedaços macios de mondongo e as rodelas de tripas se misturavam com os grãos de feijão, num creme saboroso e nutritivo. Já era madrugada quando o Coronel Bento, que parecia exausto, deu ordens para que o baile prosseguisse, mesmo depois dele se retirar para os seus aposentos. Maria comeu do caldo, apenas o suficiente para aquecer o corpo, pois já tinha comido das sobras da festa na cozinha. Pacácio, caminhou lentamente, ele foi até Maria, chegou pelas suas costas e cheirou seu pescoço, ela, arrepiada, virou-se rapidamente e com um grande sorriso, pôs-se a dançar para ele, numa coreografia sensual e provocante.

Um trovão anunciou o fim da festa. Na Casa Grande, os convidados começaram a se retirar.

Aqueles que moravam próximos da estância, partiram de volta para seus ranchos, os de longe, foram para o galpão e para uns quartos feitos para as visitas. Na senzala, Florizeu, um peão correntino que funcionava como um tipo de Capitão do Mato da estância, parado na porta, deu por encerrada a festa, levando para dentro da Senzala Pequena as mulheres e as crianças. Pacácio, diante do fim do som dos tambores, e enquanto Maria caminhava na direção da porta, foi ao seu encontro e lhe disse algo no ouvido. Ela encostou o queixo no peito e com um sorriso, disse-lhe que sim. A chuva e os trovões foram aumentando e tomaram conta do que havia sobrado da noite.

No dia seguinte, pela manhã, a chuva parou. Restaram umas poucas visitas, aquelas que haviam pernoitado, mas estavam indo embora, partindo sobre os campos encharcados. Os recém casados, logo cedo, também partiram, foram para a cidade num carro de boi. Perto do meio dia, o céu se abriu e um sol aqueceu tudo. Maria, que tinha acabado de buscar água no poço, estava com o corpo gelado, ela ficou parada no lado de fora da Casa Grande. Sentiu o calor do sol aquecer seu corpo todo. Contra a parede de pedra, sentia-se protegida do vento gelado. Um vento que vinha de longe, atordoando tudo que vagava pelos os campos, sem piedade ou distinção. A sensação de calor era reconfortante. Durante a tarde, o sol foi dando lugar à novas nuvens cinzas. A estância seguia seu fluxo. No campo, os peões e os escravos separavam gado para trazer até a mangueira. Pacácio, sobre uma coxilha, assistia o sol tomando o rumo do horizonte, era o anúncio da hora de retornar para a senzala e, quem sabe, comer ainda do pouco que sobrou do mokootó.

A tarde foi morrendo com uma chuva calma e a noite não tardou em tomar conta de tudo. Num momento de pausa da chuva, Maria saiu da senzala e foi caminhando pela trilha do arvoredo, andando com zelo pelo trajeto escorregadio. Cruzou pelo caminho dos funchos, todo ele, passando as mãos nas plantas e em suas folhas molhadas, encheu os pulmões com o odor adocicado e, com um galho que arrancou, esfregou-o nos seios e no pescoço. Perto do velho umbu, dobrou na direção da sanga, depois foi pelo campo, caminhou uns cem metros. De longe pôde ver o clarão fraco das brasas iluminando a tafona. Seu coração pulsava de ansiedade. A velha tafona abandonada, o lugar onde ela, enfim, encontraria seu amor.

A tafona resistia firme ao tempo, em paredes de pedra onde os anos eram como dias, enquanto que para Pacácio, os minutos se transformaram em horas, sentado e esperando ao lado do fogo.

Maria Flores, um florão de negra, apareceu subitamente na porta da tafona, tinha no rosto um sorriso chuvoso e no corpo um cheiro de funcho. Pacácio, não se moveu, apenas sorriu. De repente, um raio se desprendeu do firmamento e com fúria se jogou sobre o pampa. Maria, assustada, viu Pacácio andar apressadamente na sua direção, dando-lhe um abraço rude e, ainda assim, delicado. Beijaram-se com fome. Os dois se abraçaram com os corpos em brasa. No chão, o calor da chama da fogueira, como uma estufa, aquecida por meses de desejo, mantinha-se num pedaço de espinilho. A tafona, antes abandonada, encheu-se de vida. Amaram-se sem hesitar, sem pensar, dormindo juntos numa cama de pelegos pela primeira e última vez.

Pacácio morreria naquele mesmo inverno, vítima da fúria de Florizeu. Padeceria tremendo de frio, ajoelhado no barro, com as costas abertas e os braços acorrentados num tronco. Maria, restou grávida e só. Teria de carregar na barriga o seu bem mais precioso, a sua lembrança mais doce de uma noite perfeita de amor.

Ela viveria com a memória na tafona até o fim da vida e o corpo na estância até o ano de 1891.

Aos 41 anos, foi jogada no campo como uma mulher livre, partiu com o filho José, ambos sem rumo. A liberdade e a pobreza, tal qual duas irmãs, foram junto. Todos os escravos partiram assim, sem nada e, ao mesmo tempo, com tudo. Maria acabou arrumando trabalho na cidade, lavando roupas na beira do rio Uruguai. José, aos 20 anos, conseguiu um emprego no porto, descarregando pranchões e toras de madeira das balsas, levando elas em carroças até as madeireiras da cidade. Viveram os dois num mundo sem pretensões, alugando casas, devendo em bolichos, comendo pouco, andando no equilíbrio dos dias, entre a pobreza e o sonho de sair um dia dela.

Em 1895, Maria ouviu o choro de Adão, o primeiro neto, num ecoar agudo, que irrompeu o silêncio da noite. Agora, o casebre de madeira, cheio de frestas, tinha quatro moradores. Em 1900, Uruguaiana tinha um comércio pulsante, o porto, muito movimentado, enchia-se de pessoas e de produtos diariamente. José e sua esposa, que também lavava roupas com Maria, conseguiram guardar dinheiro e comprar um terreno numa antiga leitaria. A área ficava perto do rio, num lugar alto, onde as enchentes não chegavam e foi lá que construíram um rancho de madeira. Em 1920, Adão se casou com a filha de um alambrador, ex-escravo, tal qual Maria.  Em 1922, o primeiro bisneto chorou na maternidade da Santa Casa. Seu nome era Firmino.

O calor do sol parecia diminuir e o pátio do hospital já não era tão aconchegante como no início. Maria começou a sentir frio novamente, no entanto, o cheiro de funcho ainda impregnava o ar e ficava cada vez mais forte e doce. Aos 92 anos, sentia-se extremamente cansada. Lembrou-se, uma coisa boba, que o Firmino não era neto, mas seu bisneto. Pobre Firmino, vivo o chamando de neto. Pensou ela. Maria voltava, como quem acorda numa tarde depois da sesta. Retornava de suas memórias, voltava de sua própria vida. A escravidão, toda dor e sofrimento, tudo parecia tão distante, como se tivessem sido um sonho. Olhando para o pátio, espreguiçou-se como há muito tempo não fazia. Percebeu que os pardais já haviam ido embora, debaixo da árvore, apenas o mesmo homem permanecia sentado. De repente, tudo virou silêncio. Tudo tinha ficado diferente. Já não sentia mais frio. Não sentia nada, nem dor na mão, nem fisgada no peito, nem esquecimento das coisas. Na sua frente, o homem pôs-se de pé e ao seu redor havia um brilho de luz que parecia se expandir e iluminar todo o pátio em tons amarelados. Era ele. Tão logo o homem se levantou, ela sabia. Ela o reconheceu. Era ele. Os ombros, os braços, o cabelo. O jeito de andar. O sorriso. Era ele, Pacácio. Quando Firmino retornou, encontrou a bisavó sentada no banco, já sem vida, serena e sem dor. E no ar do pátio, ele também sentiu o cheiro doce de funcho.

 

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