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Da sempre tua, uma clariceana lucidez perigosa | por Cátia Castilho Simon

Fui assistir pela segunda vez Da sempre tua, agora no Estúdio Stravaganza, rua Olinto de Oliveira 68, Bairro Santana,  em nova temporada até o dia 31 de agosto, ingressos no Sympla. O espetáculo tem como referência o livro escrito a quatro mãos pela Cláudia Tajes e Diana Corso, ambas as escritoras dispensam apresentações e demais delongas, pois são muito conhecidas e atuantes na nossa província e fora dela. A direção e adaptação do texto são do queridíssimo e genial, Luciano Alabarse que tem como diretora assistente, a talentosa Angela Spiazzi.

A troca de cartas entre C e D, qualquer semelhança com as autoras do livro, certamente não será mera coincidência, trazem questões de grande importância para o tornar-se mulher, nos termos de Simone de Beauvoir e de outras críticas ao patriarcado.

Os sentimentos confessados nas cartas são tranquilamente identificados na vida e no cotidiano das mulheres. A culpa é uma espécie de abre alas já no nascimento – “a culpa é a mãe da mãe da mãe”, jamais do pai, o homem indaga ao universo o porquê do seu fracasso, a mulher está certa que errou por culpa única e exclusiva sua. A culpa é uma gosma, batizada de Corina por C. Chamam a atenção para o fato de sempre estarem pedindo desculpas aos outros, a gosma da culpa que torna as mulheres em situação de dívida eterna.

As amigas também discorrem sobre o papel das fotonovelas na formação das mulheres. Chegam à risível conclusão de que ela foi responsável por apontar o sentido da vida – ter um homem para chamar de seu. Trazem também o drama do envelhecimento da mulher e as questões que envolvem amor, trabalho, família, considerando que a sociedade que vivemos trata a mulher como mais um objeto de consumo e, portanto descartável.

Outro ponto tocante das confidências trocadas refere-se ao silenciamento das mães que sofrem a síndrome de Estocolmo, apaixonam-se por seus algozes, e mais não precisa ser dito.

As cartas vão desvelando camadas da opressão que subjuga mulheres de todas as cores e etnias, mas que é muito mais severa com as pretas. Por esses entremeios o lusco-fusco da lucidez perigosa, nos termos de Clarice Lispector, domina o espetáculo.

Janaína Pellizzon e Sandra Dani dão um show de interpretação com humor, seriedade e leveza aos dramas vividos pelas mulheres nas sociedades estruturadas para subjugá-las. Há um lindo jardim do Ricardo Roman Ross no cenário que ele e o Luciano criaram. E a trilha musical impecável como sempre.

 

Cátia Castilho Simon

Doutora em estudos da literatura brasileira, portuguesa e luso-africanas/UFRGS

e escritora.

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