Podemos encontrar nas rádios e em seus programas, muito do que caracteriza uma determinada comunidade. No rádio ficamos sabendo dos problemas que uma população enfrenta, dos avanços, dos retrocessos, e até quando um tema é escondido, já que os radialistas simplesmente se negam a falar dele.
O silêncio das rádios sobre políticos cassados, crimes cometidos por pessoas da “alta sociedade” e tantas outras coisas, diz tanto quanto um grande discurso radiofônico. As rádios e suas programações revelam como uma comunidade pensa, como seus moradores vivem e como os grupos dominantes, na economia ou na política, se protegem no silêncio dos microfones.
Guardadas as proporções, ouvir uma emissora de rádio é um jeito de tocar no “zeitgeist” de uma comunidade.
O “Zeitgeist” é uma palavra alemã que significa algo como o “espírito do tempo”. O filósofo Hegel (conheci ele por conta dos textos do Marx, mas não me atrevo à lê-lo senão por necessidade) dizia que o zeitgeist compreende as características que dão identidade a uma sociedade num determinado momento histórico. É como se fosse um recorte no tecido do tempo, e nesse pedaço estão as características mais importantes do que nós somos.
Dia desses, no caminho para o trabalho, como de costume, eu ouvia uma rádio de Uruguaiana, o programa de um radialista conhecido, e me peguei diante de um pedaço do zeitgeist da minha cidade.
Lá estava eu, dirigindo pela BR-472 vazia, ouvindo a voz grave e envelhecida do radialista, que falava sobre as ilhas do Rio Uruguai. Tu deve estar te perguntando: Ilha em Uruguaiana? Sim. As ilhas que existem no meio do rio.
Ao longo da extensão do Rio Uruguai existem várias ilhas, tem algumas que são grandes, outras pequenas, umas que ficam do lado argentino, outras do lado brasileiro e uruguaio.
Entre essas ilhas, uma delas é a Ilha do Pacu, quem é de Uruguaiana e vai tomar mate perto da estátua da “santinha”, consegue ver da orla do rio. Pois não é que o radialista falava exatamente dela? Perguntava se a ilha era argentina ou brasileira. E, de repente, lembrou-se de uma história antiga, pitoresca, que envolvia um presidente, uma cadela, um agricultor e uma das ilhas do nosso bravo Rio Uruguai.
Dizia o radialista que, nos anos 60, um produtor rural de Uruguaiana tinha planos ambiciosos: queria plantar arroz numa das ilhas do rio. A idéia era boa, plantar num lugar fértil, plano e com irrigação natural. Imaginem uma ilha de arroz no meio do rio. Seria possível? E o transporte do maquinário? E a colheita? Não importa, voltemos para a história.
Ao buscar informações sobre o lugar, o agricultor uruguaianense, assim como o radialista, tentava saber se a ilha estava do lado argentino ou brasileiro, afinal, se estivesse com os “correntinos”, a ideia da “ilha de arroz” se encerrava antes mesmo de iniciar. Mas eis que o agricultor descobriu que a ilha não era argentina. Toda ela estava do lado brasileiro. O problema é que, mesmo sendo brasileira, ele não poderia plantar nela. A ilha tinha dono. Ela era um território federal, logo, pertencia ao povo brasileiro.
Como plantar então? Afinal, não seria possível consultar cada cidadão brasileiro sobre o plantio. Diante disso, restaria esperar e tentar dialogar com o representante do povo: o presidente do Brasil.
Certo dia, esse produtor soube que o presidente João Goulart, o Jango, viria ao Rio Grande do Sul e estaria por alguns dias na cidade de São Borja. Pronto! Era a chance que ele precisava. Tão logo o avião presidencial chegou na Fronteira Oeste, de pronto o agricultor uruguaianense tomou o rumo do nascer do sol e foi falar com o presidente para solicitar a autorização para plantar na ilha.
Chegando em São Borja, o agricultor rumou para a fazenda onde Jango estava hospedado. Ao chegar na estância, o produtor rural foi avisado que o presidente estava no galpão perto da casa grande. No caminho até onde o presidente se encontrava, o agricultor viu um lindo filhote de cachorro correndo pelo gramado, entrando no galpão viu uma cadela com vários filhotes, deitada num canto sobre um pelego. Todos os filhotes eram bonitos e a cadela era um animal magnífico, coisas que prontamente chamaram a atenção do uruguaianense.
Depois de ser apresentado ao presidente, o produtor uruguaianense, sem muitos rodeios, demonstrou a que veio e fez logo quatro pedidos:
Primeiro, e não era sem tempo, foi direto ao assunto, disse que queria plantar arroz numa das ilhas do Rio Uruguai. O presidente havia acabado de encher o primeiro mate. O agricultor explicou cada detalhe de sua mirabolante ideia. Indicou qual seria a ilha, salientou que sua localização era em território nacional, falou dos hectares produtivos que lá estavam sem uso, vangloriou-se da questão hídrica. Enfim, antes mesmo do chiar da cuia do primeiro mate, seu projeto já estava explicado para o Jango.
Depois, aproveitando aquele momento único, disse para o presidente que, ao se deslocar até São Borja, havia trazido de Uruguaiana um amigo repórter e, se não fosse incômodo, gostaria de saber se o presidente poderia conceder uma entrevista para o jornalista. Afinal, aquele era um momento único para o jornalismo uruguaianense.
Antes mesmo da resposta aos dois primeiros pedidos, o agricultor já emendou um terceiro: Quando da sua chegada na estância, soube que um avião partiria de São Borja para Uruguaiana no meio da tarde. E que, como era sabido por todos, as distâncias entre as cidades fronteiriças não são pouca coisa e as estradas são ruins, logo, queria saber ser era possível que o presidente lhe desse uma carona de retorno para Uruguaiana.
Por fim, como quarto e último pedido, deu uma olhada para um dos cantos do galpão, onde a cadela estava deitada, pegou um dos filhotes no colo, o mais bonito, uma cadelinha gordinha e peluda e, entre uma mordida e outra que o animal lhe dava nos dedos, sorriu e pediu um dos filhotes.
No momento exato em que entrei no Campus da universidade, o radialista, fez uma breve pausa. Respirou um pouco e com a voz em tom divertido, seguiu a história.
Contou que o presidente, depois de ouvir os quatro pedidos, acomodou-se melhor no mochinho em que estava sentado, encheu a cuia do mate e iniciou as respostas. Em relação ao plantio de arroz numa ilha no meio do Rio Uruguai, dado todos os argumentos apresentados, entendia que não haveria problemas. O que prontamente despertou um sorriso no agricultor uruguaianense e seu amigo jornalista, complementou Jango que, por sinal, como se tratava de uma ilha, ele até nomearia o produtor rural como o “governador da ilha”.
Imaginem só. Além de ter a autorização para plantar arroz numa ilha federal, o uruguaianense ainda seria o “Governador da ilha”!
Depois, sobre o segundo pedido, Jango disse que daria a entrevista, sem problemas, contanto que fosse antes do almoço, pois após ele iria dar uma sesteada.
Sobre o terceiro pedido, em relação ao avião, disse que o produtor e seu amigo poderiam voltar de carona, que isso seria um prazer. No entanto, disse-lhes também que ele, o presidente, não iria junto, pois ficaria em São Borja para descansar um pouco junto de sua esposa.
Ameaçando levantar do banco, dando por encerrado o assunto e tentando fugir do último pedido, então o presidente foi interpelado novamente pelo agricultor. O senhor esqueceu de um dos meus pedidos. E a cadela, presidente? Eu gostaria muito de levar um filhote para Uruguaiana.
A expressão de Jango mudou. Sério, o presidente anunciava com o olhar que o último pedido não seria atendido. Sobre o filhote da cadela, Jango negou. Em seguida disse ao caudilho uruguaianense que se ele lhe desse um dos filhotes da sua cadela, teria sérios problemas a Dona Maria Thereza, sua esposa. A cadela não era de Jango, tão pouco os filhote, a cadela pertencia a Dona Maria Thereza, e ao que parece, ela tinha intensão de ficar com toda a ninhada. E sobre isso não havia o que ele pudesse fazer. A resposta era NÃO.
Em seguida, vendo o término da água quente e deixando a cuia sobre o banco, Jango disse ao uruguaianense e seu amigo para que não fossem ainda para São Borja, gostaria que ficassem para comer ali na estância, talvez, já prevendo que esse já seria mais um pedido do uruguaianense.
De barrigas cheias, com a autorização presidencial para plantar arroz numa ilha do Rio Uruguai e com uma entrevista pronta para publicação, os dois uruguaianenses se despediram do anfitrião, com a carona garantida, dirigiram-se para o aeroporto onde estava o avião.
Já no avião, sobrevoando as terras e os rebanhos são-borjenses, um som diferente surgiu dentro da aeronave. Ouviu-se um choro, fraco, abafado, quase um grunhido. Eis que então, de dentro de um casaco surge uma cabeça de cachorro. Era ele, o filhote mais bonito. A cadelinha que o Jango não deu, pois não era sua.
Sorrindo, o uruguaianense voltou para sua cidade, depois de pedir uma ilha, mesmo depois de conseguir uma entrevista, de voltar para casa de carona em um avião presidencial e de ter comido de graça, ainda assim, não satisfeito, havia roubado um dos filhotes de seu anfitrião.
No programa da rádio que eu ouvia, as gargalhadas eram muitas. Todos riam da façanha do agricultor, que além de tudo que conseguiu, ainda voltou com os quatro pedidos atendidos. Ao que parece, todos acharam uma história normal, coisa pitoresca. Não havia nenhum tipo de mal estar, afinal, ele tinha roubado o cachorro do Jango, o “presidente comunista”. Aquele que, em breve, sofreria um golpe de Estado que daria início ao período de ditadura civil-militar mais nefasto da história do Brasil.
Mas é aqui que esse meu texto muda de tom.
Ouvir rádio, como disse, é tocar no zeitgeist, nesse “recorte do tempo”. E essa história que contei revela muito sobre uma mentalidade que persiste por estas bandas. Uma parte dos ricos produtores rurais da Fronteira Oeste e da Campanha quer um Estado mínimo para os pobres, mas um Estado máximo para os seus interesses. Um comportamento predatório, onde a vantagem pessoal é a meta social.
E esse espírito não está só nos grandes empresários, ele também habita a dona de casa que não paga IPTU, mas reclama do buraco na rua. Habita o comerciante que sonega impostos e exige serviços públicos de qualidade. Está em quem quer saúde e educação privadas para si, mas desdenha das políticas públicas para os outros.
Enquanto eu escrevia esse texto, lembrei de uma produtora rural que, em 2015, bradava contra o Bolsa Família. Dizia que os pobres “só fazem filhos para não trabalhar”. Uma semana depois, comemorava o aumento nas vendas do arroz que plantava. Não percebia que esse aumento vinha justamente porque os pobres compravam mais comida com o dinheiro do Bolsa Família, programa que ela tanto criticava.
Eu sei, nem todo produtor rural ou empresário pensa assim, isso é óbvio. Mas muitos dos que têm espaço no rádio e que pautam o discurso dominante, quase sempre são ou representam uma parte desse estrato que sonha em ser o “governador da ilha”. E é por isso que é interessante ouvir as rádios de Uruguaiana, nelas é possível ver uma mentalidade que naturaliza tomar para si o que é coletivo, ocupar espaços que não são seus, e fazer disso um direito.
Essa mesma mentalidade, que aplaude o agricultor que “levou a cadela” junto com a autorização, reaparece nas crises recentes e é tema de muitos debates desta semana. Tanto o 8 de janeiro de 2023 e os acampamentos na frente dos quartéis após as últimas eleições presidenciais são a imagem explícita do “governador da ilha” elevado à enésima potência, uma multidão que se sentia autorizada a tomar para si o que é coletivo, destruir símbolos do Estado e ameaçar a democracia porque julgava representar “o verdadeiro Brasil”.
Por trás dessa turba de verde e amarelo, não estavam apenas radicais desorganizados, mas redes de financiamento, estímulo e conivência de parcelas das elites políticas e econômicas que, mais uma vez, sonham com um Estado forte para os seus negócios e frágil para os direitos dos outros. “Desde que eu possa plantar na ilha e roubar um cachorro, está tudo bem…”
O julgamento de Jair Bolsonaro e as investigações sobre sua responsabilidade nesses atos expõem esse duplo padrão, alguém que se acha “governador da ilha” tentando roubar algo de seu anfitrião, em nosso caso, a democracia brasileira. Para esse tipo de indivíduo, quando o Estado age para garantir o Bolsa Família, o SUS ou cotas, é chamado de “inchado” ou “populista”. Quando o Estado subsidia crédito agrícola, perdoa dívidas milionárias ou fecha os olhos para abusos e ilegalidades cometidos em nome do “empreendedorismo”, é festejado como “necessário ao desenvolvimento”.
Essa assimetria entre o rigor contra os pobres e a leniência com os poderosos atravessa nossa história e motiva comportamentos nada republicanos.
Se, na anedota dos anos 1960, o roubo do filhote virou motivo de riso na rádio de Uruguaiana, em 2023 o saque e o vandalismo de Brasília foram tratados por muitos como “manifestações legítimas”. Teve gente que achou legal e não conteve o riso também. É o mesmo espírito da história do rádio, de naturalizar a apropriação do que é de todos, chamar de direito aquilo que é privilégio. O Brasil não é uma ilha que pode ser tomada por aventureiros.
Enquanto não se romper com esse pacto informal, de elites econômicas e políticas tolerando e incentivando o desrespeito à lei quando lhes convém, a cadela do fascismo continuará no cio, à espera de novos donos. E acreditem, sempre haverá quem vai levar ela escondida no casaco.
O nosso desafio democrático é justamente coibir e desnaturalizar o “roubo da cadela”. É não aceitar que novos “governadores da ilha” invadam Brasília e acampem em frente aos quartéis, achando que podem plantar seus ideais ditatoriais em nosso solo à força. Que a pena, para cada um que tentou nos roubar a democracia, seja justa, mas acima de tudo, que seja exemplar. Para que ninguém mais se atreva. Anistia é impunidade.

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