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A ASSOMBRAÇÃO DO ARAMADO. por Roger Baigorra Machado.

Não conheci meu pai, minha mãe tampouco. Eusébio, um padre castelhano que morava perto dos trilhos, certa vez ouviu minha guitarra trastejando num baile, lá no Aferidor. Aproximou-se com o andar bêbado e me disse que, quando criança, eu fui largado por uma mulher jovem de cabelos negros, de pele branca e rosto pálido. Ela deixou meu pequeno corpo e partiu. 

O velho Eusébio me disse que ela estava chorando quando me largou bem na porta da Capela do Passo de Santa Ana. Eusébio, disse-me também, isso, depois de mais uma garrafa de vinho, que um homem de cabelos brancos apareceu logo em seguida e me levou na direção da cidade. Talvez fosse verdade, talvez invenção. Quem sabe, fosse só borracheira mesmo. O problema foi que, logo depois de me dizer isso, ele riu na minha frente, com os grandes dentes amarelos.

Foi a primeira vez que dei um soco na cara de um padre. 

Nunca mais botei os pés dentro de uma igreja, mas eu rezo. Faço isso do meu jeito, rezando pro alto, pra lua e, principalmente, pro vento que é meu padrinho. Rezo com o que me resta de alma… e não é muito.

Maria, minha mãe, morreu de gripe e nunca me confirmou essa história. Dizia que não importava o lugar de onde eu tivesse vindo, bastava ter uma mãe e um rancho para onde retornar, o resto, era resto. Sempre contou que ouviu meu choro de longe, como se tivesse sido guiada pela própria Virgem. Ela me encontrou enrolado num pano sujo de sangue, debaixo da sombra de um umbu. No entanto, muitos anos antes dela me contar essa história, eu já sabia que não era seu filho. Quando eu conto para os meus conhecidos sobre como minha mãe me encontrou, eles, sem hesitar, me questionam: “Mas como tu sabias que ela não era tua mãe?”. Era fácil: ela era negra como a noite; eu era branco como a geada.

A Mãe, perdi para a morte, essa companheira silenciosa que troteia comigo pelos prados. No dia em que a enterrei, fiz uma milonga, canção linda e triste. Toquei só duas vezes na minha vida: numa delas, quando a morte me encontrou, noutra, quando encontrei e perdi o meu amor. 

O rancho, feito um fantasma, ficou fechado na vila com o que restou do que um dia eu fui. Agrada ao meu coração saber que, se eu voltar, ele ainda estará lá. O campo e a liberdade são agora o meu rancho.Gosto de saber que ando por aí e que dependo apenas da minha adaga. Se quiser ir, eu vou, simples assim. E, como guitarreiro que sou, naquele dia em que esta história começa, eu fui tocar o meu violão num baile no Passo da Cruz.

Os que moram neste lado do rio Uruguai e me conheceram com minha guitarra nas mãos, chamam-me pelo nome de Gaudêncio. Já aqueles que me conheceram debaixo de uma luz de lua cheia, lá para as bandas do Plano Alto, com meu revólver Colt cantando, estes me temem pelo nome de Gaudêncio Sete Luas. Ora sou um, ora o outro. Evito muito o segundo, pois sempre nasce em mim como uma ventania e num temporal derruba o mundo. 

Certa feita, juro por esta luz que está me alumiando, fui numa cancha reta para as bandas da Barra do Quaraí. E o Sete Luas apareceu num entardecer, bem no dia em que ganhei uma aposta de um alcaide, tal de Bento Menezes. Sujeitinho metido e tenteador. Meti um conto de réis no tordilho no Nazareno e o tal de Bento apostou no tubiano do Nicanor. Por um pescoço, essa foi a minha vitória. 

Vitorioso, eu fui cobrar o medonho que tinha perdido. Achei o tal de Bento bem debruçado no balcão do bolicho do Nestor. Disse que não iria pagar, que eu fosse reclamar para o Papa. Rindo, me mostrou os dentes e cuspiu na minha cara. Do lado de fora, grudei um soco nos beiços do infeliz. E o alcaide, covarde, me puxou a arma, de saída errou dois tiros e eu não deixei errar o terceiro. Dei-lhe um. Apenas um. Bem no meio do peito. Logo a boca do povo saiu falando pelas coxilhas que “o Gaudêncio Sete Luas, o assassino sanguinário, tinha matado outro”.

Se eu sou lá assassino? Assassino é quem mata por prazer, se eu mato é por necessidade.

É sempre assim, nunca me perguntam nada e já saem falando bobagem.  Mas quem viu nosso duelo me deu razão. Eu sei que não vou ficar pra semente, mas que eu não nasci para aturar homem velho me mostrando os dentes, isso também não. Nesse dia da rusga com o tal de Bento, eu e o Zaino partimos em direção à Bella Unión, bem devagar, que era para dar tempo de me encontrarem, mas acho que os covardes nem saíram me procurar.

O Zaino Véio, cavalo que encontrei vagando perdido no campo, sem marca ou arreio, é mais desconfiado do que eu. É manso que nem água de sanga, mas se o vento ou uma mutuca o desagrada, larga as patas sem pensar duas vezes. Ele é meu amigo e minha casa. Nele, eu carrego três companheiros que falam quando o homem se cala: minha guitarra, minha adaga e meu revólver, um Colt .44 de seis tiros que ganhei do velho Laurentino.  E no lombo do Zaino vai  panela, cambona e uma boa faca de prata, que por acaso, uso muy poco. Se preciso parar, durmo no campo. Para me aquecer, basta um mate quente. E para me esfriar, um pala feito de geada ou um banho de sanga fria. Como já disse, me gusta o que é simples.

Neste dia em que parti, rumbeando na direção do baile no Passo da Cruz, preferi sair ao entardecer. Pelos meus cálculos, seriam uns três dias, indo despacito no mas. É que quando a distância a percorrer é longa, gosto de andar no escuro. Primeiro, que é melhor andar sem o sol aquecendo a cabeça. Segundo, pois vou na esperança de ver o tal Boitatá, e eu juro que, se o tal me cruzar o caminho, furo ele inteiro a bala. E, se o bicho cair, eu tiro o couro do danado para comprovar minha indiada. Nunca o vi. Minha finada mãe dizia que o medo não é como o respeito. E o Boitatá, guasca véio nesse pampa de meu Deus, não é besta, sabe bem para quem ele aparece.

Depois de umas quatro horas, debaixo de uma baita lua cheia, o Zaino Véio queria parar. Conheço quando ele está cansado: fica dando cabeçadas para trás, avisando-me com bufadas que quer comer e beber sem o meu peso em suas costas. Então fiz um fogo com um rico de um espinilho seco que encontrei. Eu carregava um charque verde na mala de garupa, uma manta de peito gorda que comprei em São Marcos. Guardei uns nacos de sebo e o resto larguei na brasa. E como me agrada um charque assado! Comi com gosto, junto do pão da Dona Ana. De sobremesa, uma rapadura e mais um mate pra fazer a digestão. Gosto de ficar na beira do fogo, tomando um mate e deixando o violão rezar por mim. 

Quando durmo no campo, não tomo trago. Só água e mate.

Depois de guitarrear minhas milongas, fiz a cama bem no canto do moirão de um aramado. Esse tal de aramado… bah, isso é coisa que me irrita. Agora estas cercas estão esparramadas por tudo! Vão mudando os caminhos dos homens e matando os bichos. Tenho que andar me desviando. Sou do tempo em que tu pegava uma linha reta e partia; só mudava o caminho por precisão, uma sanga muito funda ou mato fechado. E, se o pampa se encher de arames? Eu lhe digo, tenho certeza que tomba também o homem do campo. Outro dia mesmo, por essa luz que está me alumiando, passei por uma lebre prenha. Ela estava toda enrolada no arame, esta porcaria cheia de farpas. E quando eu cheguei, a coitada ainda estava viva, toda cortada, os filhotinhos estavam todos mortos no chão. Não tenho muita pena de gente, mas tenho pena de bicho. Bicho não fala, bicho só sente. E aquela lebre, era olhar e ver, só havia sofrimento. Assim, por compaixão, matei a pobrezinha. Os aramados matam os bichos e prendem os homens, é isso o que eu penso.

Mas, como eu estava contando, depois de comer, eu tirei o arreio do meu cavalo e encostei o basto no pé do moirão, pra ele não se mover; estiquei o xergão, os pelegos e me joguei por cima, bem tapeado no meu poncho. Que a noite iria ser fria, eu sabia. Que ia ser de assombro, não imaginava.

Não sei que hora era; vi que a lua tava mais pro canto da manhã do que da noite. Eu estava bem deitado, aconchegado no meu pala verde. Foi então que senti um ar quente, como se fosse uma respiração batendo na minha cara. De saída, achei que era o meu cavalo. Ele tem esse costume quando dorme solto. Não liguei. Quando eu era guri lá no rancho com a minha mãe, volta e meia eu pedia para ela me contar histórias na beira do fogão. De noite, eu acordava, dando um pialo do catre. As histórias de assombração me tiravam o sono. Especialmente, as histórias de lobisomem.

A mãe me dizia que o medo era o capataz da vida.

E aí, veio outra respirada. Eu escutei um relincho do Zaino, barulho conhecido, de quando ele está incomodado com alguma coisa. E senti de novo o calor da respiração, um bafo bem na minha cara. Quando eu abri os olhos, a lua cheia veio primeiro. Era um clarão pálido por detrás do lombo da criatura. Por um instante, achei que o bicho até fazia sombra na lua, tão grande parecia. Mas percebi que era ele que me fazia sombra diante dela. 

O animal estava agachado, me olhando e me farejando com curiosidade. Parecia um leão-baio, focinho curto, cabeça redonda, olhos graúdos e amarelos. Era uma criatura que eu nunca tinha visto, feia que nem o demônio e do tamanho de um homem. 

Esperei um pouco para ver o que aconteceria. O corpo do animal estava coberto por pêlos acinzentados. Ele ficou parado ao lado do aramado. Naquela noite fria, a cada respirada do bicho, uma névoa saía das suas fuças. Às vezes, rosnava e franzia a testa. Mas de repente, o bicho começou a me mostrar os dentes. Grandes dentes caninos. E eu tenho pavor que me mostrem os dentes. E com aquela boca aberta ele ficou me encarando. Mas não era um olhar de quem quisesse me fazer mal, era um olhar de solidão. Eu conheço aquele olhar, era como um espelho. Mas para mim, pouco me importa se ele, assim como eu, era sozinho. Basta uma vez só! Não importa se bicho, demônio ou gente. Me mostrou os dentes, meto a adaga ou queimo na bala.

Como eu sempre durmo preparado, deixei meu Colt de travesseiro.

No que ele me mostrou os dentes de novo, eu me mexi para atirar e o assombro saiu em disparada. E que bicho burro! Em vez de pular a cerca, aproveitou que tinha um desnível no campo, bem no lado do moirão, e se enfiou com tudo por debaixo do arame. Deu um grito de dor, som que nunca escutei na minha vida. Parecia um sorro berrando, mas também parecia gente chorando. Deixou tufos de pelos. Coloquei ele na alça de mira, engatilhei o Colt, e não sei o motivo, mas não quis atirar. Mirei até ele desaparecer no escuro. E lhe digo: que pelo bem comprido tinha aquela coisa! Nos tufos que ficaram presos no arame, cada fio tinha mais de um palmo. Esperei um pouco, não por medo, mas para ver se ele aparecia de novo. O covarde não voltou. E, como eu não sou de me encagaçar por bobagem, levantei e mijei perto da cerca. Depois botei mais uns tocos de espinilho no braseiro, porque o frio era daqueles de tirar lechiguana do mato. Fiquei em silêncio por mais um tempo, aí eu me deitei e dormi de novo.

No dia seguinte, acordei e a estrela boieira já estava indicando o caminho. Antes, comi o que tinha sobrado do pão e tomei meia cambona de mate. Eu me fui pelo campo branco de geada, isso explicava o frio que passei de noite. Peguei uma estrada tapada de bosta de vaca, caminho feito pelos tropeiros numa enorme vastidão de campo. As coxilhas eram verdes, nenhum mato ou sanga, no máximo uns espinilhos e um monte de quero-quero. Foi assim por horas.

Eu vinha devagar, desde a noite anterior que o Zaino andava meio inquieto. O sol já tinha secado toda a umidade que o sereno tinha deixado no meu poncho. Quando tu estás andando num prado, só com o cavalo, o silêncio do campo parece que conversa. Foi assim até perto do meio-dia, eu e o silêncio charlando. E a conversa só foi quebrada pelo tiro que eu dei num João Grande. E que baita tiro! Ele estava num banhado e eu acertei quando levantou voô. Que pássaro bonito! Tirando o peito, tem poucas carnes. Ainda assim, bem sapecada no fogo, virou meu almoço.

 Preparei a bóia numa tapera velha, comi e dei uma sesteada. No meio da tarde, segui de novo. Quando estava quase escurecendo, senti o vento que vinha do lado do Uruguai. A gadaria toda estava de costas para as bandas orientais. Era um vento sul gelado, nele o cheiro de chuva. Apertei o passo, a armação vinha relampejando. Todo jeito de ser um grande temporal. Eu procurava um abrigo, qualquer tapera ou rancho de alma boa que tivesse um fogo aceso.

Foi quando vi uma luz, longe, pequena. De vez em quando, ela parecia até um vagalume, tremendo e piscando no fim do caminho. Acertei o rumo e fiz o zaino se mexer. Ao me aproximar, vi que era uma casa grande, de varanda e galpão, cercada de angicos e com uma figueira na frente. Nisso, começou a babar água, uma chuva graúda e fria. Embora fosse de tardinha, parecia que tinha anoitecido.

Não quis passar pelo aramado. Gritei na porteira: “Ô de casa!”. Esperei um pouco e chamei de novo. Não apareceu ninguém. Achei estranho, pois a luz que enxergava de longe eu não encontrei de perto. A casa toda estava no escuro. Senti no lombo umas pedrinhas; o Zaino ficou incomodado com o granizo e com o som do gelo batendo no meu violão, que vinha enrolado num pano. Apeei, abri a porteira e fomos ligeiro até o galpão. Como não sou de confiar em santo nem de desconfiar do diabo, entrei no breu do galpão com meu Colt engatilhado. Vi que tudo estava vazio. Eu deixei o Zaino ali e fui até a casa. Chamei na entrada: “Ô de casa!”. Bati na porta, ninguém apareceu. Empurrei a grande porta de madeira, ela estava aberta e fui entrando. Eu anunciei minha presença novamente, pois nunca é respeitoso entrar na casa dos outros sem ser convidado: “Ô de casa!”.

Assim que os meus olhos se acostumaram com a pouca luz, comecei a andar pela sala principal. Nisso eu já não me anunciava mais, andava quieto. Entrei noutra sala, depois nos quartos. Tudo vazio. Nem sinal de gente. Achei na cozinha um fogão a lenha. Depois de acomodar o Zaino no galpão, fiz minha cama debaixo de uma janela que ficava numa peça perto da entrada.

Na varanda eu juntei uns tocos de lenha e botei o fogão a lenha para trabalhar. Fiz um mate e limpei o Colt. No lugar em que fiz a cama, achei um candeeiro de sebo num canto; usei um pouco de lubrificante e de um pedaço de graxa do charque para fazer fogo nele. Deu uma boa luz. Foi então que pude ver detalhes da casa. As paredes da sala da frente eram de pedra, a parte antiga. Os quartos perto da cozinha eram de tijolos. E nas peças do fundo, parecia de pau-à-pique. Tudo era coberto de santa fé. Na parede da sala principal, encontrei uma saraivada de tiros, contei quinze buracos. Salvo o candeeiro e o fogão, não havia mais nada. Devo dizer que achei estranho: uma casa tão boa, abandonada. E aqueles buracos de tiros? Quando a chuva parou, peguei o candeeiro e fui até o galpão para ver como o Zaino estava. O cavalo parecia tranquilo. Embora não tivesse nada para comer ou beber, ele sabia que, assim que amanhecesse, eu o soltaria um pouco para pastar. Na hora de dormir, passei a tranca na porta, aquele monte de tiros na parede era um bom motivo para um pouco de precaução.

De madrugada, acordei com os relinchos do Zaino. Parecia assustado. Peguei meu Colt e caminhei em silêncio até a porta principal da casa, retirei a tranca com o máximo de cuidado para não fazer barulho. Do lado de fora, pelo vão da porta, vi que uma enorme lua cheia clareava todo o campo ao redor. Nisso o cavalo parou de relinchar, mas eu podia ouvir o som de suas patas, indo e vindo, dentro do galpão. Fiquei bem quieto. Pela fresta, dava para ver o suficiente: a frente da casa e um canto do galpão. Se havia alguém ali, certamente estava para as bandas do galpão. De repente senti um cheiro de carniça, um cheiro muito forte de podridão. Foi então que eu vi um vulto se movendo, ele ia andando em quatro patas, saindo da frente do galpão e indo na direção da porteira.

Era a mesma criatura da noite anterior.

O bicho maldito andou até a porteira, não mais que uns trinta metros de onde eu estava. O vento movia levemente os galhos da figueira ao lado da porteira. A lua dava um tom ainda mais cinza para os pêlos da criatura. Fiquei uns minutos observando o bicho.  Ele parecia saber que eu estava lá, mas não demonstrava incômodo. Ficou na porteira, como se guardasse a estância. E então, eu tive a certeza de que ele não era um leão baio e nem cachorro. Num dado momento, o demônio se virou para o campo e ficou em pé, esfregando as costas contra um moirão. Era mais alto do que eu. Não tinha um focinho comprido, como os cães, nem as orelhas eram pontudas; na verdade, as orelhas pareciam de gente, só que bem peludas. As patas da frente tinham os dedos compridos.

Uma parte de mim, o homem das luas minguantes, me dizia para fechar a porta e passar a tranca. Voltar para os pelegos, dormir e deixar o bicho lá fora. O problema é que outra parte, que escuto apenas quando a canha é demasiada ou a lua está cheia, estranhamente me falava para ir lá fora. Era o Gaudêncio Sete Luas se apresentando como ventania nas minhas veias. 

Por motivo de achar aquilo um desaforo, o segundo desaforo que o bicho me fez em dois dias. Eu preferi a segunda voz. Abri a porta bem devagar. Quando pisei do lado de fora, senti o ar gelado entrando nas minhas narinas. Fui andando, pé por pé. Eu já tinha caminhado uns cinco metros, quando a tranca, que estava encostada na parede, caiu e fez um enorme barulho. Desta vez fui mais rápido. Quando a criatura virou o pescoço na direção da casa, o Colt clareou a noite e já sentei quatro balaços. Tenho certeza de que o terceiro pegou na paleta. Ouvi o som da batida, seca, tipo um estalo. O bicho caiu de lado e, correndo em quatro patas, disparou com tudo para o campo. Eu saí correndo, fui até a porteira e dei mais dois tiros na direção do maldito e, de lambuja, meti um sapucay com todo o ar que tinha no peito. Nunca mais vi o tal do assombro. E olha que passei naquela região uma dúzia de vezes depois.

Anos depois, num rodeio perto do rio Quaraí, cruzei por um homem velho, disseram-me que ele se chamava Antônio Guasqueiro.

Ele morava num ranchinho de barro, bem perto da costa do rio. Vendia cordas, laços e relhos. Quando o vi pela primeira vez, na hora reconheci o olhar. Era o mesmo. A mesma tristeza. A mesma solidão. Ele estava sem camisa, vinha da costa do rio e trazia duas traíras na direção de sua casa. Ao passar por mim, o Zaino mostrou incômodo. Eu o cumprimentei e ele me devolveu um acenar de cabeça. Quando olhei para suas costas, eu vi as cicatrizes. Era como se tivessem arranhado suas costas com um arame farpado. Os riscos, exatamente na proporção de um aramado, percorriam dos ombros até a ponta da coluna.

Quando conto essa história, sempre digo que pensei em voltar. Fazer a pergunta que me assombra quase todos os dias. Os conhecidos que me escutam, sempre dizem: “Tu iria perguntar se ele era o lobisomem?”. É claro que não! Eu sempre respondo. Iria perguntar:  “O amigo me dá licença, mas… por acaso, me diga uma coisa, o balaço que eu te dei naquela noite, pegou a onde? Aposto que foi na paleta!”. Pois até hoje eu tenho certeza absoluta de que não errei. 

 

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