Os mugidos. Eu me lembro dos mugidos. Antes do sol despontar no horizonte, os mugidos eram como uma sinfonia. Um conjunto de diferentes timbres se iniciava sem maestria alguma, não tinha motivo, não tinha planejamento. Ao fundo, tendo como o acompanhamento, apenas o improviso do cantar dos galos. Sem perceber, aquele recital terminava por ter uma função, acordar a estância para o dia que se iniciava.
Uns terneiros correndo de um lado para o outro, outros chamando pelas tetas das mães. Os quero-queros voando incomodados. Na metade do caminho entre a estância e o horizonte, um casal de zorros ficava observando de longe. No outro dia, tudo se repetia. Ah, como era bom ter essa rotina. E depois da gadaria mugindo, eu me lembro do sol, crescendo, subindo, aquecendo e luzindo vida. Lembro da minha mãe. Que saudades da minha mãe. Muitas vezes, via ela indiferente ao mundo da estância, longe, numa distância medida pelo olhar vazio. Ela ficava parada perto da porteira, observando o campo, buscando por algo que nunca entendi. Talvez, esperasse pelo retorno do meu pai. Quem sabe, estivesse buscando pelo meu irmão. Se vocês tivessem conhecido ele, o meu irmão, ficariam impressionados. Ele era o mais forte. O mais corajoso. O mais inteligente. O mais rápido. Mas de nada adiantou todas as suas qualidades. Ele foi outro que também sumiu na estrada durante um inverno.
Não conheci meu pai. Quando eu nasci, ele já tinha partido com os homens e a tropa. Minha mãe, assim como as outras que ficaram na estância, teve por remédio para a ausência, apenas a espera. Esperando e esperando. Dia após dia ela esperou na porteira. Eles nunca mais voltaram. Quando eu e meu outro irmão ganhamos idade e ganhamos corpo, também pegamos o rumo da estrada. Essa era a nossa sina. Minha mãe não disse nada. Pois é assim que tem que ser. Deus fez o mundo assim.
A minha mãe, coitada, no dia em que a gente partiu, foi caminhando ao nosso lado, pelo outro lado da cerca, foi desviando dos cupinzeiros, pisando nas urtigas. E ela foi nos olhando quieta. Num caminhar triste, ela foi seguindo a cerca, foi se despedindo do jeito dela. Quando chegou na divisa do campo, desolada, sem poder mais nos acompanhar, ela ficou nos olhando, não disse nada. Ficou parada, com o olhar vazio. Tenho a certeza que ela sabia e, por isso, ela preferiu não nos dizer nada.
Januário, o capataz, organizou o grupo. Saímos pela porteira do piquete do banhado. Quando pequeno, muito brinquei ali. Como era bom aquele banhado, o pasto verde, a água adocicada e as tardes de sol. Seguimos pelo meio do campo, numa linha reta até a estância vizinha. Eu fui segurando o passo, não queria andar na frente e nem pelos lados, nunca gostei de ficar na lateral do grupo. Assim, ninguém percebeu quando eu me coloquei na parte de trás. Meu irmão, chamei-o com o olhar, mas ele não quis ir junto comigo, preferiu ir pelo lado direito da tropa.
Pelo caminho, sempre tinha alguém tentando voltar, desertar daquela injusta tropa. Mas era o tempo de correr e logo um dos homens do Januário já fazia voltar. O Preto, filho da minha tia, tentou fugir antes do pontilhão do Camotim, foi laçado com precisão pelo Euclides e ganhou três relhaços no lombo. Voltou contrariado, mas voltou.
O nosso grupo foi ganhando tamanho. Conforme nossa coluna cruzava os campos, íamos arregimentando outros que, assim como nós, precisavam enfrentar a dura jornada. Cheios de medo eram os olhares dos novatos. Medo e coragem, é bem verdade. Pois a coragem é aquilo que a gente faz quando tem medo. Agora, olhando para trás, percebo quão ingênua era a coragem que achávamos existir em nossos corações.
Na Estância do Pindaí, o filho do Coronel Bento se uniu ao grupo. Era a primeira vez dele naquela jornada, substituindo o pai, que tinha viajado para Cruz Alta. Junto do filho do Coronel Bento, mais 180 se juntaram ao cerne da tropa. No total, depois de cruzarmos por cinco estâncias, nosso grupo chegou aos mil.
Nos deslocamos sem parar até o anoitecer. Os homens estavam cansados, todos estávamos exaustos. Os homens e suas capas pretas. As capas, além de proteger os corpos contra o frio da jornada, estendiam-se também sobre o lombo dos cavalos e, na hora do acampamento, serviam como cobertor sobre os corpos gelados. O nosso deslocamento era planejado, sempre que chegávamos nos locais dos acampamentos, tudo já estava pronto. Na frente da tropa, um grupo de três homens ia numa carroça, levando a comida, a água e os demais suprimentos. Eles chegavam no lugar da parada e esperavam pelos demais com o fogo aceso e a comida preparada.
A primeira noite foi extremamente fria. Noite de lua. Ela era como um farol no céu, deixando o campo todo num clarão. Eu quase não consegui dormir, embora estivesse cansado, fiquei de pé a maior parte do tempo. Era como se meu corpo não conseguisse relaxar. O meu coração estava angustiado. Sentia saudades de casa, sentia falta da minha mãe, tinha medo pelo meu irmão. É curioso como as coisas são, quando eu estava na estância, queria ganhar o mundo, sair pelos campos, conhecer outros lugares. Agora que saí, sinto saudades do que eu tinha, sinto-me preso nesta vastidão de campo.
Na segunda noite, depois de atravessarmos dois arroios, chegamos todos molhados ao local do acampamento. Por conta disso, o fogo foi feito com bastante lenha. Um grande luzeiro que podia ser visto a quilômetros de distância. Do fogo, tive apenas a fumaça, não senti nada do seu calor. Quando amanheceu, uma camada branca de geada cobria toda a planície pampeana. No horizonte, para o lado em que o sol nascia, dava para ver um risco no campo, era uma estrada. Ela estava distante, toda tomada pela polvadeira. O pó que se erguia era do caminhar de um outro grupo que seguia na nossa frente. Uma tropa do tamanho da nossa que, pelo jeito, decidiu sair antes do sol despontar. Certamente, tinham hora certa e data para chegar no final da viagem. Do nosso acampamento, víamos a grande nuvem de poeira ficando iluminada pelos raios de sol. De longe, era muito bonito de se ver. Alguns de nós, os mais jovens, ficaram impressionados. Eu não.
Não fiquei impressionado, pois eu já tinha estado ali. Já tinha feito esse caminho e visto nuvens de poeira. Exatamente um ano antes. Sim, no último inverno eu também tinha partido da estância, também me despedi da minha mãe. E naquele dia, também saí com medo, mas eu fui mesmo assim. Pois era assim que deveria ser, Deus fez o mundo assim. O nosso destino é ir para manter os nossos em casa, bem protegidos dentro da estância. E agora eu estava de novo ali. Pernoitando no mesmo lugar que meu pai e meu irmão dormiram. Eu gostava de acreditar que no final desta jornada, encontraria eles. E assim, eu subi aquela mesma coxilha. A diferença é que na minha primeira vez, subi numa manhã de chuva e muito barro.
Muitos de nós, vendo a dificuldade da marcha, tentaram fugir, correr para o campo, mas como sempre, foram trazidos de volta. Quando chegamos do outro lado da coxilha, deparamo-nos com uma visão que eu nunca tinha presenciado. Era um rio enorme, totalmente cheio. O famoso rio Quaraí, que de um rio pequeno se avolumou de tal forma que nem suas curvas eram visíveis. Nas suas margens, os campos ficaram alagados até o alto das coxilhas.
A enchente era tão grande que, ao nos aproximarmos, fomos cruzando por muitos animais fugindo na direção oposta. Cruzavam por pela tropa com os olhos assustados. Eram raposas, mulitas, cobras e zorrilhos. Todos fugiam em desespero. Nas árvores costeiras, cujas copas ficavam quase cobertas pelo rio, dava para ver inúmeros animais afogados, trancados em galhos. Uns restos de casas cruzavam pela correnteza. Não havia o que fazer, senão voltar para a estância, o rio Quaraí não permitiu nossa passagem. Não foi desta vez.
Um ano se passou e aqui estou eu de novo. Meu irmão é mais jovem do que eu, mas não demonstra menos coragem. Ele segue firme com a tropa. Às vezes, tenho a impressão que ele está se divertindo. A jornada até aqui foi privativa de várias coisas que sempre tivemos, comida, água e uma boa noite de sono. Aqui, libertos no meio do campo, encontramo-nos privados dela, da liberdade.
Quando iniciamos a subida da estrada da polvadeira, o sol do meio dia já castigava nossas costas, por vezes, até esquecemos que de noite padecemos de frio. Um dos nossos mais novos, que por conta das manchas na pele era chamado de Malhado, caminhava tranquilo, distraído com os próprios pensamentos. Ele andava ao lado do meu irmão, quando enfiou o pé num buraco, quem vinha atrás não percebeu e vários se amontoaram e o empurraram para a frente. Eu, que andava uns seis corpos atrás na fila, consegui escutar o som do osso da canela se quebrando. Foi horrível. O filho do coronel e o nosso capataz ficaram com ele, enquanto seguíamos subindo a coxilha. A tropa não pode parar, diziam os homens. Cerca de uns dez minutos depois, quando já descíamos do outro lado da coxilha, ouvi o som de um tiro. Nunca mais vi o Malhado.
Chegamos na beira do rio Quaraí, ele estava baixo, corria calmo. Um rio muito diferente do que eu tinha visto no ano passado. Havia uma marca bem nítida por onde as tropas cruzavam, um trajeto feito de pasto seco amassado pelas pisadas. No rio, a água turva denunciava o caminho pela mancha de barro do fundo. Fomos cruzando aos poucos. Para organizar o grupo, nas margens do rio, uma fileira de cavalos de homens de capas pretas faziam um corredor. A tropa foi cruzando com cautela, mas bastou que o primeiro se aventurasse com velocidade que todo o resto cruzou. Era o efeito da manada.
Eu vinha sem pressa, andando por último. Quando cheguei bem no meio do Quaraí, onde o canal do rio faz seu leito, eu pisei numa pedra e escorreguei para o lado, em seguida, caí num buraco. Fui até o fundo, quando eu voltei, fui empurrado na direção da margem pelo cavalo do capataz. Assim que toquei no chão novamente, consegui andar com firmeza. Aquele passo do rio Quaraí era milenar, coisa antiga, mas ainda assim, um lugar muito perigoso. Na volta, bem que poderíamos cruzar por outro lugar.
Depois do rio, andamos por seis horas sem parar. O campo linear, o horizonte sempre distante e a falta de matos ao redor davam a impressão que quase não tínhamos nos movimentado. A terceira noite começou cedo. Acampamos pouco depois do meio da tarde, pelo que pude perceber, a ideia do capataz era descansarmos bem e nos alimentarmos bastante. Aquele era um bom lugar, tinha água e sombra. Os peões jogaram cartas e fizeram comida em meio ao som de uma gaita. Quando o sol se pôs, a temperatura despencou rapidamente. Eu não liguei, nenhum de nós ligou. Estávamos tão cansados que dormimos a noite inteira.
Quando amanheceu, partimos num passo firme e acelerado. O céu avermelhado indicava o lado. O nosso destino era seguir os homens da frente. Meu irmão, que há muito que não enxergava, fez-me andar preocupado. Onde está ele? Procurei-o por bastante tempo, quando de repente, ele surgiu do meu lado. Ele tinha o olhar assustado. Com o movimento do pescoço, pediu para que o seguisse. Andei com ele até a lateral da tropa, fomos empurrando e passando. Somente ao chegar na última fileira, foi quando eu vi o campo. Era bonito e assustador. Era como se até o horizonte tudo estivesse pintado de branco. Cada ponto branco era um osso, um pedaço de alguém. Cabeças secas, fêmures, costelas expostas ao sol. Milhares. Milhares não, centenas de milhares de ossos. Nós caminhávamos numa trilha por entre as ossadas, de quando em quando, chorávamos algum pedaço de esqueleto. Quando vimos, já estávamos cruzando por uma porteira. Os homens pareciam felizes, afinal, tínhamos chegado no destino.
Cruzamos por um grande piquete e fomos deixados num cercado. Por estarmos na lateral da tropa, acabamos entrando entre os primeiros, pois o lugar da porteira do piquete ficou bem na nossa frente. Depois de sermos conduzidos pela porteira, ficamos parados por bastante tempo, nenhum de nós entendia o motivo de tanta espera. De repente, o Januário apareceu e nos levou em pequenos grupos, tive a impressão que estávamos sendo contabilizados. Fomos caminhando em fila. Será que nos darão água e comida? Eu me questionava. Meu irmão estava com muita sede, minha boca estava seca. Alguns de nós estavam bastante eufóricos. Afinal, nunca, ao menos os que saíram comigo da estância, tinham chegado tão longe. Nunca em nossas vidas, imaginei que eu e meu irmão pudéssemos ficar tão distantes da nossa mãe e da estância.
Enquanto caminhamos, era possível ver os homens conversando, pareciam tranquilos. E tudo foi ficando diferente conforme nosso grupo foi andando. O ar tinha um cheiro estranho, odor de urina, fezes e mais alguma coisa que eu conhecia, mas não sabia identificar. Havia uma grande estrutura, um prédio parecido com o galpão lá da estância, só que bem maior. Ao lado, um corredor com cercas de madeira e um pequeno portão. Meu irmão e eu fomos seguindo o fluxo da fila. Assim que um de nós andava, o portão se fechava e não era possível ver mais nada do que acontecia do lado de lá dele.
Os homens, com suas capas pretas, formavam pequenos grupos, eles cantavam e davam gargalhadas. Quando percebi, meu irmão cruzou pelo portão, que se fechou rapidamente na minha frente. Havia uma sensação de mal estar que lentamente foi tomando conta de mim. No chão tudo estava úmido, o estranho é que não tinha chovido, no entanto, muitas poças se acumulavam no barro. Ao lado da cerca de madeira, o Januário conversava com um outro homem. Foi quando eu percebi que eu não pisava em poças de água. O cheiro que se misturava no odor de fezes e de urina era o cheiro dele. O cheiro de sangue. Eu pisava em sangue. Muito sangue. O portão se abriu, senti a ponta de uma madeira cutucar minhas costas. Dei dois passos e o portão se fechou atrás de mim.
Após uma curva, entrei numa área bem apertada, com muros de tijolos dos lados. No chão, muito sangue, restos de fezes e urina. Foi quando consegui ver o meu irmão, ele estava parado num pequeno brete. O corredor era muito apertado, era impossível para ele tentar olhar para trás ou virar o corpo. Meu irmão tentava caminhar para trás, mas não conseguia, tinha uma madeira que o impedia de retornar. No alto, havia um homem, com os pés pisando sobre os dois muros. Ele estava com as pernas abertas, o meu irmão estava parado embaixo dele. Quando eu vi, o homem bateu com uma marreta na testa de meu irmão que caiu no chão. Vi seu corpo tremendo, vi as fezes e a urina que saíram de dentro dele misturando-se nas outras que estavam no chão. Então, vi seu corpo sendo arrastado para uma área aberta no fim do corredor. Senti-me sendo empurrado por um ferro pontiagudo na direção do brete. Eu era o próximo.
Enquanto andava, eu me vi pequeno. Enxerguei minha mãe me observando, parada em silêncio ao lado da porteira. Vi ela fazendo isso por anos, observando as tropas indo embora com os seus filhos. E por uma fração de segundos, eu compreendi. Soube por que ela não nos disse nada. Ela sabia. Nós éramos os bois e ali era a charqueada.
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