Agora o olhar de Ulisses repousa, insone, sobre o corpo de Lóri. Por entre as nuvens rubras da barra do horizonte, os primeiros raios de sol iluminavam aquele corpo solto à cama. Sim, ele finalmente percebia-a e, como em um ritual muito puro e simples, desnudava aquele corpo nu de tão vestido. Ele via claramente aquele corpo vestido de tantos outros olhares, mas não tão livres, quem sabe, como seu olhar agora. Ali, diante dele, estava um corpo perpassado, ao longo de toda uma vida, por outros olhares. Eis aí, pensava, um corpo tantas vezes vigiado, desejado, punido. Um corpo de mulher, pensava, objetificado pelo olhar de homens que, assim como ele, a desejaram. Quantos olhares havia ali?
Ele lembrava, por fim, da história particular deles e de como o corpo dela fora interditado pelo pátrio poder de um homem. Ele via, diante dele, um corpo explícito em suas marcas, como aquelas marcas do tempo que a vida cicatriza. Marcas que, como tatuagem, imprimem imagens cheias de sentidos, algumas visíveis, outras ocultas. Ulisses olhava atento e percebia algumas marcas bem claras. Ainda havia a marca da queda de bicicleta da menina em seu joelho esquerdo, uma cicatriz da cesariana, a vacina no braço. Percebia o visível, o que era tangível ao toque, mas o que dizer daquilo que nos escapa à vista? Sim, ele olhava.
Ulisses via atentamente Lóri como se fosse a primeira vez. Ele a via como naquele instante, agora afastado no tempo, quando os seus olhos se encontraram. Quando seu olhar se encontrou com o dela diante daquela multidão. Os olhos chegaram primeiro, para, só depois, o desejo vesti-los com o despudor próprio dos amantes. Aqueles mesmos amantes que, em outro dia, bem depois daquele primeiro encontro dos olhos, tiveram que vestir suas vergonhas com os panos rotos das convenções. Coisas de dinheiro e família, pais e patriarcado, folhas de parreira e paraíso perdido.
O olhar de Ulisses tocava o corpo de Lóri como uma brisa. Tocava aquela pele sem os dedos. Como falar aqui sobre tato? O olhar dele encontrava a pele de Lóri aberta em seus tons de rosas. No tom daquelas rosas que em botão ficaram à espera do encontro que antes, perdido no passado, não se consumou. Rosas cultivadas na espera de encontros, como quando ele disse para ela, e ela, com um sorriso, acolheu, em seus olhos, o amor deles. Daquele amor feito de esperas, entre relutâncias e ímpeto, mansidão e ânsia. Um amor todo só cuidado a deitar seu olhar agora sobre a inteireza dos mínimos detalhes do corpo da amada que, neste momento, amanhecia.
O corpo dela, entre os lençóis, era reconhecidamente para Ulisses um insondável mistério. Ele a espreitava, entre o despertar, à luz tímida daquela manhã preguiçosa em sua inconsútil realidade. Pura carnalma que, de tão completa, se bastava, inteira em si e independente da existência dele. Lóri era agora, ali deitada nua, dona e senhora de si, todo um só cosmos que em si se bastava, e isso era, para ele, todo um desejo e uma só alegria. Amava poder amar o ser com ela e, dessa forma, jamais possuí-la, sendo apenas um conviva das alegrias de compartilharem conjuntamente o fugaz instante do gozo. O prazer de cada um ser, um para o outro, bastando-se, completos, inteiros. E como isso é toda uma beleza, ele pensava.
Lóri despertava lentamente, suavemente, com a manhã. Ela olhava a contraluz da janela aberta ao sol a silhueta nua de Ulisses a contemplá-la. A visão de Ulisses, ao olhar seu corpo entregue à suavidade dos lençóis da cama, e o sorver devagar dos cheiros do amor da noite passada, despertou nela o sentido da perenidade. Ela tomava consciência, por um segundo da eternidade, e abria seus olhos sem a pressa costumeira de seus dias seculares, sempre cheios de agendas, atividades e despertadores. Sim, ela tomava consciência da diferença que havia entre o sempre e a eternidade, e como a eternidade a escapava quando deixava passar, entre os sempres das rotinas, a perenidade dos instantes epifânicos, como aquele que tinha diante de seus olhos.
Tomava consciência da perenidade que se faz o agora e como o agora se desfaz para sempre; eis aí, pensava Lóri, enquanto acordava, a eternidade possível aos humanos. E, assim sendo, não queria deixar ir este instante epifânico. Por isso, abria seus olhos sem pressa, tentando eternizar a efemeridade daquele momento único em que Ulisses a fitava na penumbra. Lóri procura, então, não se mexer e, assim quieta, em sua imobilidade felina, tentava não desfazer a beleza que era para ela aquela visão da nudez de Ulisses a desnudar seu corpo vestido de tão desnudo. Daquela nudez animal, de bicho, suavemente viril e tão dele, que despertava sonhos nela e conseguia levantá-la de suas noites abandonadas de sono.
Aos poucos, Lóri ia tomando consciência da totalidade de seu corpo. Sem pressa, ela vivia agora inteira sua realidade carnal e entregava-se às sensações despertas pelo encontro dos antigos amantes. Após anos, ela finalmente vivia. Estava viva agora, após anos de tantos desencontros, reencontros negados, interditos daquela moralidade provinciana de sua família. A família, com sua moral e bons costumes, que um dia a separou de Ulisses. Ela era viva a partir do momento em que, na noite passada, intensa em seus prazeres e fugaz em sua perenidade de instantes, Ulisses atravessara a porta de sua casa, de sua sala, de seu quarto.
Sim, finalmente, ela lembrava-se não daquilo que há tempos os separou, mas sim de um momento sensorial e íntimo em que Ulisses penetrou o umbral da porta de sua casa e se fez inteiramente presente diante dela. Entregue aos sabores da cama amanhecendo, sentindo o cheiro da mistura de seus cheiros e dos cheiros dele, ela, de olhos fechados, lembrava o que os unia. Cada momento da noite passada era, em si, todo um universo carnal e voluptuoso, como uma fruta suculenta e madura. Fruta essa que ela se deliciava em comer devagar e urgentemente. Lembrava do desfazer das roupas a refazer outros vestidos tecidos só de carícias, toques, volúpias. Lembrava os sussurros, as pausas, a febre. Lembrava o corpo a cair doente. Lembrava os olhares, os olhos a espreitar o prazer do outro, no prazer mesmo de se sentir prazer somente. Ele via, agora, de olhos bem fechados, aquilo que os amantes bem sabem: que o amor se presta ao encontro dos gestos, todo ele é um só sorver silente e mudo como morder uma fruta suculenta e madura.
O amor, só e mudo, como o sorver de uma fruta gostosa, vermelha e carnuda. Uma epifânica sinestesia de mel escorrendo em favos, sabor agridoce e mar salgado, arrepios, tensão e orvalho. Sabores que os amantes sabem e sorvem somente. Por isso, o amor é todo beijo, só boca. Bocas que não se prestam à fala, pois não cabe aqui dizer qualquer coisa, já que aqui se diz em línguas, labaredas de fogo, glossolalia. Ela lembrava, por fim, sobretudo, como ela e Ulisses se entregaram um ao outro e, consumado o encontro, se reencontraram a comer do fruto do paraíso do qual foram um dia expulsos.
O sol já vai alto. A cama ainda está desfeita em seus lençóis dos amantes. Ulisses olha o corpo de Lóri despertar preguiçosamente, ao abrir de seus olhos. Eles se olham. O leve sorriso, a grata ternura, a consumação do momento. O que dizer, agora, depois de mais de trinta anos? O que teria sido? Agora nada mais importa para eles, senão o tempo parado, como uma fotografia viva, desse agora particular e íntimo momento dos amantes. Eles se olham, sem mais nada, somente. Sem remorso, sem culpa, sem mais nada a dizer. Somente o copular dos dedos entrelaçados de suas mãos e um sentimento de seguirem, assim, encantados um pelo outro.
Ribeiro Halves
O escritor e ilustrador Ribeiro Halves, nome artístico de Eduardo Henrique Alves da Silva, nasceu na cidade de Recife (Pernambuco – Brasil) no ano de 1971. Desde 1999, Ribeiro Halves vem desenvolvendo um trabalho caligráfico e de confecção de “neo-iluminuras” a partir de seus poemas e de outros textos. Em 2009 publicou seu primeiro livro, CLARO GRIFO – Alguma Proesia e outros Signos Mestiços, editado pela UFRPE. Recentemente lançou DEDALUS, pela Pedro & João Editores, um romance autobiográfico de uma vivência em Paris, no ano de 1999. Atualmente mora em Santa Maria (RS) onde exerce o ministério ordenado (reverendo) na Catedral Anglicana do Mediador.
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