A data do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, nos remete a um momento de reflexão sobre a pauta do racismo e da luta contra o racismo. A data proposta ainda na década de setenta pelo Grupo Palmares, no Rio Grande do Sul, e idealizada pelo poeta gaúcho Oliveira Silveira, coloca em cheque a realidade de um Brasil e exigia consciência sobre a situação da população negra desde o pós-abolição. No entanto, novas pautas emergiram desse cenário, e no início do século XXI novos temas exigem de nós um olhar atento, entre elas: o silêncio do Homem Negro; o Racismo Ambiental e a Cidade Educadora e a Cidade Antirracista, todos temas que atravessam a pauta principal do racismo e colocam novos elementos necessários para um debate sobre o racismo no século XXI.
Tão antigo quanto o próprio racismo, o silenciamento do homem negro é uma doença que acompanha a própria segregação racial imposta pelo estruturalismo do sistema de desligardes desde o período colonial, e atravessou os séculos chegando ao século XXI como uma doença silenciosa. Na escravidão, ainda no período colonial costumava-se chamar de “Banzo”, o banzo era uma tristeza profunda que afligia homens negros. Esses homens apanhavam silenciosamente, se negavam a reagir ou a chorar, simplesmente silenciavam. Na senzala, se isolavam dos outros escravizados, se encolhiam em um canto e esperavam a morte chegar. A dor era solitária, e naquele momento algo indecifrável pelos olhos alheios. Porém, o banzo atravessou os séculos, veio a abolição, a República e o mundo contemporâneo. A modernidade e a suposta liberdade da abolição trouxeram para o homem negro novos problemas: trabalho, aceitação, educação, problemas que se avolumaram ao fim do século XX. Com as redes sociais o racismo que antes era velado, virou explícito e aquele homem que antes vivia sob os grilhões da escravidão em um espaço confinado passa a conviver com uma sociedade que não quer vê-lo. Uma invisibilidade que lhe impõe outros pesos, o machismo, uma suposta virilidade, o produtivíssimo e um racismo estrutural e institucional que segrega onde ele é preterido nos mundo do trabalhos, e na sociedade como um todo. Esse peso lhe impõe um silêncio que se coaduna com um autosilencimento , onde esse homem negro do século XXI vai silenciando, se encolhendo, mas diferente de antes, agora ele não se esconde no canto da senzala, mas sim na sala.
Outro problema que se explicitou nos últimos anos e que atinge a população negra, indígena e periférica é o Racismo Ambiental. Que por definição é o termo utilizado para identificar a degradação ambiental sofrida por Comunidades Quilombolas, Comunidades Indígenas e comunidades periféricas por se enquadram em um setor da sociedade que recebe esses danos causados pela poluição ambiental, pela falta de saneamento básico e descarte irregular de resíduos. Cunhado na década de 80 pelo afro-ativista Benjamin Franklin Chavis Jr, um dos líderes na luta pelos direitos civis nos anos 60 junto com Martin Luther King. No Brasil esse termo se enquadrou no debate do Racismo Estrutural por entendermos que as causas desses danos ambientais são causadas pelo processo de abolição da escravatura mal acabada. Ou seja, A falta de políticas públicas de inclusão da população negra na sociedade após 1888, resulta em uma série de problemas estruturais tais como a falta de acesso a educação, moradia, saúde e saneamento básico, que agravam assim um processo de urbanização desorganizado, e levam os ex-escravizados a ocuparem as regiões periféricas das cidades desde o final do século XIX. Essas regiões não planejadas geram situações de vulnerabilidade onde o estado negligencia sua função de garantir os Direitos Fundamentais necessários a garantia da dignidade da população. O Racismo Ambiental se expressa nesse lugar, onde falta a saúde, o saneamento básico, as estruturas mínimas do estado.
Infelizmente casos como Brumadinho, Mariana e as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul atingiram de maneira trágica essas populações que viviam a margem dos rios, nas periferias e nos morros. O Racismo ambiental é mais um extrato do Racismo Estrutural e Institucional que atinge as pessoas em situação de vulnerabilidade e que são consequência de uma negligência do estado.
Junta-se a esse debate o tema da Cidade Educadora, e a pergunta que não quer calar: Será que essa cidade educadora é antirracista? Antes de pensar uma cidade educadora, ou uma cidade que educa e transfora, devemos pensar uma cidade que realmente seja para todos, ou como diria Berth (2023) uma cidade que realmente fosse nossa. Neste sentido, sugiro um recuo estratégico e epistêmico, é necessário reivindicar a cidade a partir da narrativa da cidade. Essa é uma ação para uma educação antirracista que rompe a estrutura linear de uma história única e colonial e passa a propor uma história contada por aqueles que mesmo na cidade não são vistos na cidade.
Pensar a cidade narrada por outros protagonistas, é uma ação necessária, para que possamos reivindicar uma cidade que realmente seja para todos, que eduque para todos. Esse movimento narrativo pedagógico ressignifica as histórias das cidades e coloca as histórias silenciada de negras e negras em um espaço de sentido. Atribuir sentido ao ensino de história é nesse caso narrar uma história que realmente seja uma história plural, das periferias, dos excluídos e silenciados.
Para que as cidades sejam educadoras em uma perspectiva plural, inclusiva e antirracista, a comunidade tem que se ver nesse processo educacional, se narrando e ouvindo as narrativas que lhes façam sentido. Há a necessidade de uma história narrada com outros referenciais epistêmicos, que destruam as enormidades conceituais construídas na modernidade e sedimentadas como um cânone da história e da educação brasileira. O professor, como detentor de uma narrativa mestra é a reprodução de um sistema educacional formatado em uma história colonial hegemônica que não vê negras e negros.
Esse olhar sobre o racismo emerge de uma realidade que em pleno século XXI exige que tenhamos o cuidado de não pensar a pauta da luta contra o racismo como algo estático ou ultrapassado, pois nossa sociedade é dinâmica e os mecanismos de exclusão se mantem e se transformam com a mesma velocidade que evoluímos… ou retrocedemos???
João Heitor Silva Macedo
É Doutor em História pelo PPGH da UFSM com Tese em Cultura, Educação e Ensino de História para o combate ao racismo. Possui graduação em História pela UFSM e Mestrado em História pela PUC-RS, realizou estudos de Pós-Doutorado em Educação no PPGE/UFSM. Foi Professor substituto do Departamento de História da UFSM e da Unipampa – São Borja. Foi professor do Magistério público estadual do Rio Grande do Sul. É Diretor do Museu Treze de Maio em Santa Maria. Foi membro do Conselho Municipal de Cultura de Caxias do Sul e do Conselho Municipal de Cultura de Santa Maria o qual foi presidente, foi Coordenador do Sistema Municipal de Museus de Santa Maria. Tem trabalhos publicados nas áreas de arqueologia, história, direito, administração, patrimônio, educação e é autor do livro Cultura, Educação e Ensino de História para o Combate ao Racismo. Narrativas da Lei 10.639/03. Atualmente atua como professor e gestor de projetos de cultura, gestão museológica, meio ambiente e arqueologia, além de ministras palestras e cursos.
Rede Sina Comunicação fora do padrão