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* PORTAL* OPINIÃO E LITERATURA* SINA AUTORALMEL INQUIETA OPINA

Da “remada viking” ao “créu”: a torcida e a cultura do estupro no Brasil | por Mel Inquieta

By SINA
5 de julho de 2026 2 Min Read
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No jogo entre Brasil e Noruega, a ser realizado neste domingo, um momento que poderia ser apenas uma resposta bem-humorada entre torcidas acabou levantando um debate muito mais profundo. Enquanto os noruegueses celebrizam a tradicional “remada viking”, gesto coletivo que simboliza força, união e identidade cultural, parte da torcida brasileira escolheu responder com uma coreografia inspirada na música Créu.

À primeira vista, muitos podem enxergar apenas uma brincadeira irreverente. Mas a escolha da música e, principalmente, do trecho “é créu, é créu”, carrega um significado que merece reflexão.

Embora o funk tenha enorme importância na cultura popular brasileira e não possa ser reduzido a estereótipos, essa música específica se consolidou ao longo dos anos por uma performance corporal associada à simulação do ato sexual.

Quando essa coreografia é utilizada como forma de “humilhar” ou “dominar” o adversário, o gesto deixa de ser apenas dança e passa a comunicar uma ideia conhecida: vencer significa “penetrar”, “submeter” ou “violar” o outro.

Essa lógica não nasce no estádio. Ela faz parte de uma cultura que, historicamente, associa masculinidade ao domínio sexual e transforma a violência simbólica em motivo de celebração. É nesse ponto que surge o conceito de cultura do estupro.

A cultura do estupro não significa que uma sociedade apoie explicitamente o crime de estupro. Significa que determinadas práticas, piadas, músicas, cantos de torcida e metáforas normalizam a associação entre poder e violência sexual, tornando aceitável utilizar a ideia do estupro como instrumento de humilhação.

A diferença entre a remada viking e o “créu” é justamente o significado simbólico. A primeira celebra uma tradição nacional. A segunda, naquele contexto, foi usada como linguagem de dominação sexual. A mensagem implícita não era apenas “vamos vencer”. Era “vamos submeter vocês”.

É importante fazer também uma distinção necessária: criticar esse uso da música não significa condenar o funk nem criminalizar manifestações populares. O problema não está no gênero musical, mas no contexto e no sentido atribuído à performance. A mesma música pode ter significados completamente diferentes dependendo de onde, como e para quê é utilizada.

O futebol costuma ser chamado de espelho da sociedade. Talvez por isso episódios como esse sejam tão reveladores. Eles mostram como determinadas formas de violência permanecem naturalizadas a ponto de passarem despercebidas por grande parte do público.

Questionar essas manifestações não significa acabar com a irreverência das torcidas nem impedir a criatividade das arquibancadas. Significa apenas reconhecer que há diferenças entre celebrar a própria cultura e utilizar referências à violência sexual como linguagem de superioridade.

Se queremos um esporte mais inclusivo, capaz de acolher mulheres, crianças e pessoas de diferentes origens, vale perguntar: por que ainda recorremos à ideia de violência sexual para demonstrar força?

Talvez a resposta diga mais sobre nós do que sobre o resultado de qualquer partida.

 

Mel Inquieta

Jornalista, produtora cultural  e fundadora da Rede Sina

 

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Tags:

#BrasilNoruega#Creu#culturadoestupro#DebatePúblico#DireitosDasMulheres#EsporteE Sociedade#ReflexaoSocial#RemadaViking#TorcidaBrasileira#ViolenciaSimbolicafutebolgênerojornalismoOPINIÃOrespeito
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SINA

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2 Comments
  1. Débora Dias disse:
    5 de julho de 2026 às 17:03

    Excelente e profunda reflexão, de maneira clara, explícita e simples conseguiu fazer a análise comparativa das duas culturas, fiquei triste com essa constatação! Parabéns pela escrita!

    Responder
  2. Ronaldo Miguel dos Santos Júnior disse:
    5 de julho de 2026 às 19:50

    Onde aperta pra curtir duas vezes ❤🤝 exatamente isso. De um lado uma comemoração cultural sobre união e resistência, do outro a cultura que não tem raiz própria, que e cópia de um pouquinho de cada local. Que valoriza a banalidade. O placar em campo evidência isso tbm

    Responder

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