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* PORTAL* SINA AUTORALMEL INQUIETA OPINA

Não Basta Defender Mulheres: É Preciso Contratar Mulheres | por Mel Inquieta

By SINA
8 de maio de 2026 5 Min Read
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Em tempos em que discursos sobre igualdade de gênero se multiplicam nas redes sociais, nas campanhas publicitárias, nos eventos institucionais e, sobretudo, nos períodos eleitorais, é necessário fazer uma pergunta incômoda: quantas mulheres estão, de fato, ocupando espaços de poder, coordenando campanhas, dirigindo filmes, gerenciando equipes, assinando projetos, decidindo orçamentos e sendo remuneradas com dignidade pelo próprio trabalho? E quantas seguem militando de graça, organizando agendas, produzindo conteúdo, articulando pessoas, sustentando coletivos e emprestando sua força política, afetiva e intelectual enquanto homens continuam concentrando visibilidade, contratos, liderança e remuneração?

O Brasil aprendeu a homenagear mulheres. Aprendeu a publicar frases bonitas no Dia Internacional da Mulher, a defender a presença feminina em discursos públicos, a exaltar a coragem, a resistência e a potência das mulheres. Mas ainda falha quando o assunto é dividir poder, contratar mulheres, pagar de forma justa e permitir que elas ocupem os lugares onde as decisões realmente são tomadas. Defender mulheres, quando não se traduz em oportunidade concreta, corre o risco de virar apenas gesto simbólico, marketing social ou conveniência política.

Os dados mostram que a desigualdade permanece estrutural. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, a participação feminina no mercado de trabalho brasileiro ainda não voltou aos níveis anteriores à pandemia: entre 2012 e 2019, ela subiu de 51,55% para 54,33%, mas caiu para 52,7% em 2024. O mesmo levantamento aponta que mulheres negras enfrentam os piores indicadores: em 2024, a taxa de desocupação foi de 4,4% para homens brancos, 5,8% para mulheres brancas e 9,3% para mulheres negras. A desigualdade salarial também evidencia o abismo: enquanto um homem branco recebia, em média, R$ 8.849, uma mulher negra ganhava R$ 3.964, menos da metade desse valor. (Serviços e Informações do Brasil)

A desigualdade não está apenas no acesso ao emprego, mas também na qualidade das oportunidades, nos cargos de liderança e na valorização profissional. O 3º Relatório de Transparência Salarial, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pelo Ministério das Mulheres, apontou que mulheres recebem, em média, 20,9% menos que homens exercendo as mesmas funções. Quando o recorte racial entra em cena, a disparidade se aprofunda: mulheres negras ganhavam, em 2024, 47,5% do rendimento de homens não negros. (Brasil de Fato)

Esse cenário obriga empresas, instituições culturais, partidos políticos, produtoras, veículos de comunicação e organizações sociais a irem além do discurso. Não basta dizer que se defende mulheres se, na hora de contratar, os mesmos homens seguem sendo chamados para dirigir, coordenar, pensar estratégias, ocupar cargos de confiança e assinar os trabalhos mais bem pagos. Não basta defender diversidade em público e manter estruturas internas masculinas, brancas e concentradoras. A igualdade precisa aparecer na folha de pagamento, nos contratos, nos cachês, nas chefias, nas equipes técnicas, nas candidaturas viáveis e nas decisões sobre orçamento.

Em tempos de eleição, essa pergunta se torna ainda mais urgente. Quantas mulheres serão eleitas? Quantas estão coordenando campanhas? Quantas estão definindo comunicação, estratégia, imagem, narrativa e articulação política? Quantas mulheres negras, periféricas, comunicadoras, produtoras, advogadas, jornalistas, artistas e lideranças comunitárias são chamadas apenas para mobilizar bases, emprestar legitimidade ou “somar” voluntariamente, enquanto homens ocupam os espaços remunerados e de maior visibilidade? A militância feminina gratuita sustenta muita estrutura política no Brasil, mas raramente aparece na mesma proporção quando os cargos, os recursos e o poder são distribuídos.

A sub-representação feminina na política reforça esse quadro. Embora mulheres representem mais de 51,5% da população brasileira e cerca de 52% do eleitorado, ocupam menos de 18% das cadeiras no Congresso Nacional; mulheres negras representam cerca de 2% do parlamento brasileiro. A CUT aponta que ampliar a presença feminina nos espaços de poder é condição para enfrentar desigualdades estruturais, combater a violência de gênero e fortalecer a democracia. (CUT – Central Única dos Trabalhadores)

A questão, portanto, não é apenas contratar mulheres para cumprir uma cota estética ou melhorar a imagem pública de uma instituição. Trata-se de reconhecer competência, reparar desigualdades históricas e redistribuir poder. Mulheres não podem continuar sendo chamadas apenas para “colaborar”, “ajudar”, “fortalecer” ou “dar apoio” enquanto homens são contratados, promovidos e remunerados. Também não podem seguir sendo usadas como símbolo de sensibilidade, diversidade ou renovação sem acesso real à liderança, à remuneração e à tomada de decisão.

Na cultura, no audiovisual, na comunicação, na tecnologia, na ciência e na política, a lógica se repete: mulheres muitas vezes precisam provar competência duas vezes, aceitar valores menores, lidar com assédio, acumular jornadas de cuidado e ainda enfrentar a desconfiança sobre sua capacidade de comandar. Enquanto isso, homens seguem sendo contratados pela promessa, pela rede de contatos ou pela naturalização de que liderança tem voz masculina. Essa engrenagem só muda quando instituições deixam de tratar a igualdade como pauta decorativa e passam a incorporá-la como prática cotidiana.

Autonomia financeira também é proteção social. Uma mulher com renda, reconhecimento e oportunidades reais tem mais condições de romper ciclos de violência, sustentar seus projetos, cuidar de si e participar da vida pública com liberdade. Por isso, defender mulheres exige falar de dinheiro, trabalho, contratação, remuneração, financiamento, orçamento e poder. Empoderamento sem autonomia econômica vira slogan vazio.

Não basta defender mulheres em discursos emocionados, campanhas eleitorais ou datas comemorativas. É preciso contratar mulheres, pagar mulheres, eleger mulheres, promover mulheres, ouvir mulheres e dividir com elas os espaços de decisão. Igualdade não se mede por hashtags, aplausos ou homenagens. Mede-se pelas oportunidades concretas oferecidas todos os dias, pelos contratos assinados, pelos cargos ocupados, pelos salários pagos e pelo poder efetivamente compartilhado.

P.S.: Ao buscar uma imagem pública para ilustrar esta matéria, digitei a palavra “negócios” e o resultado foi simbólico: mais de 90% das imagens exibidas eram de homens. A cena, aparentemente banal, revela o quanto o imaginário social ainda associa liderança, mercado, estratégia e poder ao masculino. Até os bancos de imagem reproduzem a desigualdade que o discurso público diz querer combater.

 

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Mel Inquieta (Melina Guterres) é jornalista, escritora, roteirista, diretora, empreendedora criativa, CEO e Founder da Rede Sina. Atua na comunicação, cultura e audiovisual com visão estratégica, feminista e social, desenvolvendo projetos voltados à arte, diversidade, democracia, memória e impacto social. Foi presidente da Liga Feminina de Combate ao Câncer, diretora da AGES – Associação Gaúcha de Escritores e membra do Conselho da ABRA – Associação Brasileira de Autores Roteiristas. Trabalhou como freelancer para veículos como Folha de S.Paulo, IstoÉ, Estadão e UOL. Foi curadora do Festival de Cinema de Gramado, além de curadora e jurada em diversos festivais culturais e audiovisuais. Criou a página As Mulheres que Dizem Não, a iniciativa Luta pela Democracia, o Prêmio Rede Sina de Melhor Curta com Tema Social, o Prêmio Rede Sina de Poesia, o Sarau Sina Poética e diversos outros projetos e eventos de valorização da cultura, da literatura, do cinema e do protagonismo feminino. É autora do livro Engasgos e diretora do curta infantojuvenil Despertos. Mais sobre em: https://redesina.com.br/MELINAGUTERRES   

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5 Comments
  1. Sylvia Palma disse:
    8 de maio de 2026 às 18:02

    Assino com a relatora. Perfeito, Mel Inquieta!!!

    Responder
  2. Camila Carvalho disse:
    8 de maio de 2026 às 20:01

    Perfeita colocação, a prática muitas vezes é muito diferente do discurso bonito infelizmente, por isto a importância desta reflexão. Parabéns por expor esse tema.

    Responder
  3. Elizabeth Sachetti disse:
    8 de maio de 2026 às 22:46

    É sobre isso. Igualdade não pode ser apenas um discurso bonito. Precisa aparecer nas oportunidades, nos contratos, nos salários e nos espaços de decisão. Não queremos só homenagens, queremos respeito, reconhecimento e igualdade.

    Responder
  4. Ana D. Macedo disse:
    9 de maio de 2026 às 08:39

    Eis uma realidade q necessita de novas aberturas para valorização da mulher como profissional com pleno potencial de trabalho, ocupando cargos importantes, reconhecendo que seu conhecimento e ações podem contribuir muito no seu desenvolvimento da sociedade! Excelentes reflexões, inquietações, Mel! Avante!

    Responder
  5. Ana D. Macedo disse:
    9 de maio de 2026 às 08:41

    Eis uma realidade q necessita de novas aberturas para valorização da mulher como profissional com pleno potencial de trabalho, ocupando cargos importantes, reconhecendo que seu conhecimento e ações podem contribuir muito no desenvolvimento da sociedade! Excelentes reflexões, inquietações, Mel! Avante!

    Responder
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