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Quem se preocupa? por SALOMÃO SOUSA

Só tem o grande ditador porque tem a legião
dos pequenos ditadores.
Os pequenos ditadores pedem arma
e o grande ditador providencia o arsenal.
Os pequenos ditadores exigem uma única estrada
e o grande ditador providencia
uma legião de pequenos ditadores
para cercar todas as demais estradas.
Os pequenos ditadores querem
todos rumo à mesma catedral,
querem todos mostrando um só olho,
e o grande ditador define grandes campos
para aprisionar a criança que tem dois olhos,
a mãe que tinha a velha e limpa catedral,
quem podia calçar um sapato amarelo,
usar uma fita adesiva e dançar.
E os pequenos ditadores começam
a grande denúncia. – Separa aqui
os filhos dos pais, – organiza aqui a fila
– atira aqui no que arrasta sua miséria,
porque os pequenos ditadores
denunciam, e quando um pequeno ditador
quiser cortar um pedaço de sua manga
também será arrastado para o aprisionamento.
O grande ditador começa a ter medo
pois já matou dez, já aprisionou mil,
e passa a andar no meio de um exército de cem,
depois com um exército de dez mil,
e depois faz seus pronunciamentos
para um exército de milhares
que só podem ouvir um único canal
que repete o mesmo pronunciamento.
O grande ditador para se defender de um precisa de cem;
para se defender de cem,
precisa de um exército de dez mil.
E temos o grande medo e a grande desconfiança.
E temos as pequenas cartelas
para enfrentar as filas das pequenas rações.
E passam os anos e os pequenos ditadores
que não foram chamados para ser
assalariados na guarda do ditador
tem de começar todo um trabalho
para derrubar o ditador.
E começam a morrer os pequenos guardas ditadores
e os pequenos ditadores famintos, se não
morreram de fome, serão mortos no fuzilamento,
irão definhar com o rosto na cerca de arame.
Quem já guardou um pedaço de fita
para enfeitar o seio,
que guardou um olho para usar dois olhos?
Quem se preocupa com a mãe e o filho?
Quem se preocupa?
Se agora está sendo dependurado um gancho
por aquele que não se preocupa,
quem não se preocupa poderá um dia
estar dependurado num gancho.
Quem não se preocupa já perdeu um dos olhos.
Quem zela do segundo olho tem dois olhos.

 

SALOMÃO SOUSA
Natural da zona rural de Silvânia (G), cidade em que completou seus estudos primário e ginasial. Chegou a Brasília em 1971, onde graduou em Jornalismo pelo UNICEUB. É funcionário público do Ministério da Fazenda. Exerceu as funções de assessor parlamentar nos extintos Ministérios do Trabalho e do Bem-Estar Social. Participou como convidado, em 2014, do VI Festival las Lenguas de América/Carlos Montemayor, do Centro Cultural Universitário, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), e, ainda, do IX Encuentro Internacional e XIV Nacional de poetas ”José Alberto López Coronado”, em 2016, em Chota, no Peru. Bibliografia: A moenda dos dias, 1979, DF; A moenda dos dias/O susto de viver, Ed. Civilização Brasileira 1980; Falo, 1986, DF; Criação de lodo, 1993, DF; Caderno de desapontamentos, 1994, DF; Estoque de relâmpagos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, 2002, DF; Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, Ed. 7Letras, 2006; Safra quebrada, FAC, 2007. Publicou em 2008, com recursos do FAC/DF, o livro Momento Crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos; Vagem de vidro, poesia, Brasília: Thesaurus Editora, 2013; Descolagem, antologia de poesia, Goiânia: Kelps, 2016, e Despegues y ressonancias, plaquete de poesia, Peru, Lima: Maribelina, Casa do Poeta Peruano, organização e apresentação de José Guillermo Vargas; Desmanche I e Poética e Andorinhas (textos críticos), em 2018; Desmanche I e Poética e Andorinhas, 2018, Brasília-DF. A UBE (GO) concedeu-lhe em 2011 o Troféu Tiokô. Membro da Academia de Letras, Artes e História de Silvânia e da Associação Nacional de Escritores (DF), da qual integra a diretoria.

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