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Charge do cartunista Vitor Teixeira

Os tristes fins de Policarpo Quaresma POR JANIO DAVILA

O leitor goste ou desgoste, o fato é que O triste fim de Policarpo Quaresma é um dos romances mais importantes da nossa literatura nacional. Lima Barreto nunca foi um Machado de Assis quando se tratou do quesito linguagem. Enquanto o Bruxo do Cosme Velho sempre foi laureado pela escrita impecável, Barreto recebeu, durante toda sua vida, duras críticas por ter um texto descuidado, coloquial demais segundo à crítica da época.

No entanto, mesmo com esta escrita, talvez menor do que a de outros mestres, Lima Barreto conseguiu retratar como ninguém o Brasil do começo do século XX. Eu, perdoem meu atrevimento, considero Lima Barreto o Balzac brasileiro. Lembrando de que Balzac também é acusado por muitos críticos de literatura francesa de não ser hábil com as palavras, sendo esta característica atribuída ao perfeccionista Flaubert. No entanto, Balzac é inegavelmente o autor que soube retratar a França do século XIX e a hipocrisia burguesa da sociedade parisiense com maior maestria.

O triste fim de Policarpo Quaresma é um perfeito retrato do Rio nas duas primeiras décadas do século XX e, em muitas passagens, da época atual também. Há descrições na obra do autor carioca que caberiam muito bem ao Rio de Janeiro atual. Desde os projetos  de urbanização (ou a falta deles) descritos na obra, até os jogos de interesses políticos que, desde então, só se intensificaram.

Para quem apenas lê a sinopse do romance, Policarpo Quaresma pode parecer um lunático. Ora, alguém que vai ao plenário apresentar uma proposta para que o Tupi Guarani seja considerada a língua oficial brasileira só pode parecer louco. Os argumentos do Major Quaresma parecem absurdos, mas sua afilhada Olga os define muito bem em conversa com seu pai: ”É uma ideia, meu pai, é um plano, talvez a primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não de todo doido. É ousado, talvez, mas…”. Entretanto, Quaresma é ridicularizado, internado em um sanatório. Esta é a primeira morte do protagonista. Sim. Por que são três as suas mortes no romance.

Após sair do sanatório, Quaresma decide apostar na agricultura. Com a visão romântica do homem urbano sobre a vida rural, ele acredita que as terras do Brasil são as mais férteis do mundo. “Aqui plantando, tudo dá.” O projeto vai por água abaixo. As formigas saúvas acabam com seu plantio. Mais tarde, Mario de Andrade não deixará de fazer referência ao romance de Barreto na sua narrativa Macunaíma: “Muita saúde e pouca saúva: os problemas do Brasil são”. O projeto de agricultura de Quaresma desanda e eis a segunda morte do herói.

Por fim, Quaresma decide alistar-se junto às forças legalistas durante a Revolta da Armada. Cada vez mais patriota, o protagonista chega a escrever um memorial ao então Presidente Marechal Floriano Peixoto com uma série de conselhos sobre os problemas que impedem o Brasil de se tornar uma potência. Obviamente, é ignorado pelo Marechal. Por fim, a Revolta acaba com os legalistas sufocando as forças revolucionárias. Policarpo está ao lado dos vencedores, mas Policarpo não vive em 2019. Estar ao lado dos vitoriosos não é sinônimo de honra para ele. Quaresma se revolta quando descobre que os derrotados estão sendo mortos. Revoltado, nosso herói escreve uma carta ao alto escalão militar criticando tais atrocidades. Então vem a sua terceira morte. A não simbólica. O seu triste fim. É condenado ao fuzilamento por aqueles a quem serviu.

O romance acaba, mas Policarpo continuou a morrer desde então.

Em 1937, com a instauração da ditadura varguista do Estado Novo, o governo fomentou o patriotismo a partir do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Manifestações cívicas e nacionalistas eram incentivadas enquanto opositores do regime eram presos, torturados e mortos pela policia de Vargas. Semelhante a Quaresma, o escritor Monteiro Lobato foi preso por enviar uma carta ao governo com conselhos sobre a exploração do Petróleo. Lobato foi solto,  sorte distinta de outros tantos, como a comunista Olga Benário, entregue grávida ao comando nazista para morrer em uma câmara de gás.

Policarpo volta a morrer em 1964. Os militares assumem o poder através de um golpe e “Deus, Pátria e Família” passa a ser o lema do país. Apesar dos bordões patrióticos como “Brasil, ame ou deixe-o”, o que domina as ações do governo é uma política entreguista e conveniente aos interesses norte-americanos. Enquanto por baixo dos panos aconteciam “tenebrosas transações”, nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), militantes contra o regime eram mais uma vez presos, torturados e mortos.

Nos últimos anos, Policarpo passou a agonizar preparando-se para sua mais recente morte. Já nos protestos que tiveram inicio em 2013, as cores verde e amarela, assim como a bandeira nacional, deixaram de ser símbolos representativos de uma nação e passaram a ser a cor que identifica o “cidadão de bem” apoiador de barbáries.

Em 2019, acaba a agonia e Policarpo Quaresma tem de uma vez por todas o seu mais recente triste fim. O lema agora é “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Um governo que prometeu devolver o Brasil aos brasileiros, sem nunca explicar bem que Brasil é este. Um governo que passou a bater continência para os Estados Unidos e fazer afagos em Israel. Um governo que tem como guru um senhor astrólogo que de tão patriota vive nos EUA.

Os apoiadores de tal governo se dizem tão patriotas quanto seu presidente, mas ao falarem de patriotismo, criam a situação paradoxal de fazer uma ode ao patriotismo norte-americano. Que patriotismo é esse que sonha em ser patriotismo estrangeiro? Esses patriotas geralmente têm desprezo pelo nacional. Menosprezam nossa música, cinema e literatura. Fazem o possível para que a imagem do Brasil no exterior não seja negra, parda ou indígena. Sonham que o Brasil seja reconhecido como um país de pessoas brancas, descendentes de europeus.

O último ato patriota foi a orientação enviada às escolas pelo Ministério da Educação para que se filmem as crianças cantando o hino nacional  junto da leitura do esdrúxulo slogan escolhido pelos novos representantes. Um governo que nunca considerou como filhos da pátria mãe gentil aqueles que mais precisam dela. O que pensaria o humanista Policarpo Quaresma diante dos discursos agressivos dos novos líderes contra negros, mulheres e LGBT’s?

Mais de um século se passou desde a publicação de Triste fim de Policarpo Quaresma. Mas o nosso herói continua a morrer de tempos em tempos. Policarpo é um ingênuo, lunático jamais. A personagem de Barreto é acima de tudo um humanista. Mas humanismo hoje é sinônimo de comunismo e antipatriotísmo. ‘Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”

 

JANIO DAVILA é natural de Santa Maria, RS. Graduou-se em Letras – licenciatura em português e literaturas de língua portuguesa pela Universidade Federal de Santa Maria, mesma instituição onde faz mestrado em Estudos literários. Sempre teve o sonho de ser escritor. Após descobrir que não sabia escrever, decidiu se tornar professor de literatura e ensinar aos outros como se faz.

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