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O Chá de Hibiscus de Marta Por MELINA GUTERRES

Marta não tem tempo pra perder tempo. Foi a idade que ensinou, não tem tempo pra ser objetificada, adjetivada, tampouco pra transformar a cabeça de quem não se aperfeiçoou.
Marta não é santa, odeia a palavra recatada e não tem obrigação de provar nada pra ninguém. Esse papo de mudar o mundo já abandonou há tempos, agora tá mais preocupada em mudar a cor do batom, aquele marrom, talvez precise de um vermelho. Marta, às vésperas do 50 anos, sem plástica nenhuma, alguma rugas, uma pele mais fina. Não era o batom ou aquela camisa verde nova, nem o broche, o brinco, ela se olhava e ria porque estava assim se sentindo bonita? Quantas vezes parou assim diante do espelho se sentindo feliz com o que via? Não lembra sequer uma vez, sempre parecia ter um defeito, um defeito imposto pelo outro, um defeito pra agradar a quem? marido, ex-marido, pai, mãe, tia, avó, vizinha, coleguinhas da escola, paqueras, namorados, amigos? Marta gostava de cores quentes, mas por muito tempo usou marrom pra parecer discreta, porque mulher séria não é extravagante dizia uma titia, mulher séria não chega depois da 0h dizia papai, mulher seria não veste mini-saia, dizia a vovó, mulher séria não sorri pra estranhos dizia sua mãe, mulher seria não usa batom vermelho dizia sua amiga que chamava toda as outras mulheres de vadia, mulher seria veste cores neutras dizia seu chefe. Marta chegou aos 40 sentindo-se com 90 e como aos 50 sentia-se com 25? O que há fez mudar?
Aos 45 anos Marta infartou durante uma discussão com o então marido. O que ela fez depois que se recuperou? Eliminou o marido, mandou um recado pra amante dele no Facebook: usei, não deu muito certo, não recomendo, cuidado pode matar, mas fique a vontade em seguir o uso. Leve de graça e não aceito devolução. Logo depois comprou uma passagem e foi viajar com uma amiga. Se arriscou a ir num luau, foi paquerada por um rapaz da idade do filho dela. Lembrou do ex-marido, que vivia apontando seus defeitos, como queria que ele visse aquela cena. Ligou pra o advogado pra saber que pé tava o divorcio. Comprou uma bicicleta e passou 3 meses namorando um surfista  baiano 15 anos mais jovem. Fez sexo e gozou como nunca, descobriu prazeres que nem sabia que tinha, se sentiu desejada, bonita. Seu chefe ligou perguntou quando que ela voltaria do ano sabático e não gostou da resposta, ela tinha comprado um quiosque na praia e estava se associando a proprietária de pequena pousada. Seu chefe não acreditava. Anos depois um.ex-colega se hospedou na sua pousada e num café da manhã lhe elogiou dizendo que não sabia que ela tinha talento para o mundo dos negócios, em seguida parecia o rei do “bussiness” querendo lhe ensinar o que ela ja sabia e pior “pirou” no cabelo dela, disse que deveria voltar a ser castanho. Marta perguntou:

– Qual o problema com o meu cabelo?
– Muito indiscreto esse vermelho não acha? E tá muito longo pra uma senhora…
Marta não acreditava no que estava ouvindo aquelas alturas da vida.
Então, respondeu:
– Sua estadia acabou, junte suas coisas e volte pra aquela aldeola conservadora, machista, misógina, fria, dinheirista e estúpida. Volte pra o inferno de São Paulo e nunca mais o traga de volta pra minha pousada, entendeu bem?
Seu ex-hospede ainda disse
– Você mudou mesmo heim Marta! Antes você nem falava..
– Mudei sim pra melhor e você deveria se esforçar pra fazer o mesmo. Agora dá licença que eu tenho que preparar meu chá de hibiscus e uma felicidade pra cuidar.
2h depois Marta cruzou por aquele espelho decorado que ela mesmo fez e ria sozinha se sentindo linda, mais feliz que nunca, plena pela primeira vez na vida. Acendeu a vela do próprio bolo, levou até a sala, aquela cheia de conforto onde eatavam e só aqueles que somam e lhe fazem bem. Descobriu o amor próprio, antes tarde do que nunca sempre dizia.

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