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“Como Nossos Pais” de Laís Bodanzky

por Melina Guterres

Rosa é uma mulher que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Quanto mais tenta acertar, mais tem a sensação de estar errando. Filha de intelectuais dos anos 70 e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas duas gerações que exigem que ela seja engajada, moderna e onipresente, uma super-mulher sem falhas nem vontades próprias. (sinopse do filme)

Como nossos pais levou seis Kikitos no 45º Festival de Cinema de Gramado: melhor filme, direção para Laís Bodanzky, atriz para Maria Ribeiro, ator para Paulo Vilhena, atriz coadjuvante para Clarisse Abujamra e montagem para Rodrigo Menecucci.

É um tanto que difícil descrever o filme, impossível assistir e não identificar pelo menos alguma amiga vivendo situação semelhante como também a queixa de toda mulher que tem uma família: a sobrecarga. Os personagens masculinos, estão longe de ser aqueles esteriótipos de agressividade, frieza ou heroísmo. Pelo contrário são afetivos porém deixam a desejar na vida das mulheres quanto companheiros, parceiros. A heroína do lar (Como Nossos Pais é um drama familiar que lembra muito filmes europeus) é a jornalista Rosa (Maria Ribeiro) que além do trabalho, tem marido, duas filhas pequenas, uma mãe doente e um pai com problemas financeiros. É interessante observar no roteiro e olhar da Laís como diretora, as cenas na hora que a personagem acorda pela manhã. Rosa levanta sempre as 6h15 para chamar as crianças para ir a escola. A cena aberta contrasta os dois quartos, em um o marido dormindo, no outro as crianças, entre eles a mãe, mulher, esposa, trabalhadora que além de tudo é cobrada pela falta de sexo. Fato muito bem descrito na cena em que o casal está em terapia e Rosa questiona se o marido “já parou pra pensar no que faz uma mulher ter vontade de fazer sexo”.

Além do conflito com o marido, Rosa tem um emprego que não gosta e um chefe que nem sequer coloca o nome dela nos projetos que faz. No entanto, a trama cresce na relação conflituosa de mãe e filha. Clarice (Clarisse Abujamra) uma socióloga aposentada que tem uma cobrança e certa rejeição pela filha a quem revela abruptamente ter sido gerada numa aventura. Existe uma certa revolta e aceitação de Rosa, um tanto que imposta pela doença da mãe meio a um mar de outros conflitos. As atrizes que levaram o Kikito em Gramado engrandecem com suas interpretações cada personagem que ao longo do filme acabam se aceitando como são e apaziguam sua relação.

Dá vontade de revelar e analisar cada detalhe do filme, mas mais que isso é vontade de dizer: assistam, levem para seus lares e debates. Eu diria que é “a vida como ela é” de muitas famílias de classe média dos tempos de hoje, só com um olhar menos ácido que Nelson Rodrigues, um olhar sensível, feminino e mais do que nunca, necessário.

Difícil ser mulher e não terminar com aquela sensação de gratidão, com uma vontade de dizer “obrigada por terem feito esse filme dessa maneira”.

***
Disponível para compra ou locação em:
https://www.looke.com.br/filmes/como-nossos-pais

O roteiro de Laís e Luiz, 

Nasceu da ideia de se falar sobre reuniões de pais na escola. Segundo Luiz Bolognesi, que fez o primeiro tratamento, o roteiro passou no total por 10 tratamentos e teve alterações na montagem. Bolognesi se diz leitor de Adélia Prado, Simone Beauvoir, Clarisse Lispector, entre outras autoras e pai de duas filhas adolescentes. Ele já escreveu diversos personagens femininos e afirma que sempre é um desafio buscar o olhar do outro. “Laís acrescentou muito ao roteiro ao trazer a opressão que as mulheres passam no trabalho. Acho que conquistamos uma maturidade que mexeu com as pessoas”. Ainda sobre opressão, ele diz que uma transformação precisa ser construída, lembrando o quanto se elogia os homens quando eles são bons pais, mas esquecem de que “Um homem maravilhoso é apenas uma mulher normal”. Para ele é necessário que mais roteiristas, diretoras ocupem o mercado cinematográfico, espaço que acredita que as mulheres “tem que abrir na porrada”. Leia no site da ABRA

 ELENCO:
Maria Ribeiro – Rosa
Clarisse Abujamra – Clarice
Sophia Valverde – Nara
Annalara Prates – Juliana
Paulo Vilhena -Dado
Felipe Rocha – Pedro
Jorge Mautner – Homero

FICHA TÉCNICA:

Direção /Laís Bodanzky
Coprodução / Gullane, Buriti Filmes, Globo Filmes
Distribuição /Imovision
Roteiro / Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi (também um dos roteirista do filme Elis, leia a crítica aqui)
Direção de Fotografia /Pedro Márquez

Cena do casal em terapia:

 

por Melina Guterres Rosa é uma mulher que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Quanto mais tenta acertar, mais tem a sensação de estar errando. Filha de intelectuais dos anos 70 e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas…

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