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* PORTAL* SINA AUTORALAS MULHERES QUE DIZEM NÃOMEL INQUIETA OPINA

“Eu não vou em mandinga de ninguém” – Equilibrivum o álbum manifesto de Anitta em tempos de intolerância e feminicídio | por Mel Inquieta

By SINA
1 de maio de 2026 4 Min Read
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Eu não vou em mandinga de ninguém
Foi mamãe que ensinou a vigiar
Não vou morar nas asas de ninguém
Nem me apequenar pra te agradar

Há algo de urgente e profundamente necessário no que Anitta apresenta em Equilibrivum. Não é apenas um álbum. É um posicionamento que chega em um momento em que o Brasil ainda convive com índices alarmantes de feminicídio e com a persistente intolerância contra religiões de matriz africana. E talvez por isso ele atravesse tanto, porque não é neutro, não é confortável e, sobretudo, não é superficial.

O que se constrói ali é uma obra que assume, com força e beleza, a religiosidade brasileira que nasce das matrizes africanas. Não como cenário, mas como linguagem viva. Está nas palavras, nos símbolos, nos gestos, na atmosfera dos clipes, na fotografia, nos figurinos. Está na presença de elementos como a pemba, a pimenta, as encruzilhadas, nas referências às mães, às ancestrais, às forças que protegem e ensinam. Em um país onde essas tradições ainda são alvo de preconceito e violência, ver esse universo ocupar o centro de uma obra pop de grande alcance é, por si só, um ato político.

Esse discurso também ganha corpo nas presenças que atravessam o projeto. Em “Mandinga”, a participação de Marina Sena soma força e sensibilidade, criando uma troca potente em cena. Presença que contribui para essa construção coletiva de um imaginário feminino forte e simbólico. Há ainda outras presenças em “Mandinga” que reforçam esse universo, nomes que ampliam a cena e a estética, mesmo que nem todos estejam amplamente identificados pelo público, compondo esse corpo múltiplo que o clipe propõe. É visível um feminino que não se deixa capturar, que reconhece sua força e rompe com o que a diminui. E é justamente no trecho “Naquela noite que eu te deixei / mil flores nasceram em seu lugar” que essa virada ganha uma dimensão ainda mais potente. O rompimento não aparece como vazio, mas como fertilidade, como renascimento. Onde havia dor, nasce vida.

O clipe e a letra de “Desgraça”, de Anitta, constroem um ritual de ruptura atravessado por referências às matrizes africanas. Imagens como “sete encruzilhadas” e “sete saias” reforçam a tentativa do outro, enquanto a decisão dela é definitiva, “já é fevereiro, e eu não vou voltar”. A repetição de “se tu vai, não vou” vira um mantra de proteção. No clipe, a estética e a dança sustentam esse feminino que não implora, se retira. Não é sobre dor, é sobre lucidez e força.

Em “Meia-Noite”, de Anitta, constroem um feminino que ocupa a noite com autonomia e poder. A madrugada deixa de ser espaço de risco para se tornar território de pertencimento, “depois da meia-noite eu vou sair… o meu lugar é lá”. Elementos como “fogo na barra da saia” e “pemba e pimenta” trazem uma dimensão espiritual de proteção e força, em diálogo com as matrizes africanas. No clipe, essa energia se traduz em presença, atitude e movimento, afirmando que não se trata apenas de circular, mas de ser vista e respeitada. “Aceita, respeita” não é refrão, é posição.

Mas talvez o que mais pulsa em Equilibrivum seja a forma como essa espiritualidade se entrelaça com um discurso claro de empoderamento feminino. Não é um empoderamento genérico. É concreto. É vivido. É sobre reconhecer relações abusivas, romper com elas e, principalmente, não se diminuir para caber em nenhum lugar que exija menos do que se é. Quando a letra afirma que não vai em mandinga de ninguém, que não vai morar nas asas de ninguém, que não vai se apequenar para agradar, o que está sendo dito é simples e radical. O amor não pode custar a própria existência.

Há também uma força ancestral nesse ensinamento, essa vigia que vem das mães, das que vieram antes, das que alertam, protegem e sustentam. Uma rede invisível que atravessa gerações de mulheres e que aqui aparece como guia, como consciência, como proteção espiritual e emocional.

E tudo isso é construído com uma estética cuidadosa, potente, bonita. Nada parece solto. Tudo conversa. Tudo reforça a ideia de que há um projeto ali, artístico e político. Um projeto que não tem medo de dizer de onde vem e nem para onde quer ir.

Em tempos duros, em que tantas mulheres ainda perdem suas vidas por relações violentas e em que tantas expressões religiosas seguem sendo atacadas, Equilibrivum surge como um respiro, mas também como um enfrentamento. Era urgente. Era necessário. E que bom que chegou.

E talvez nada disso seja tão surpreendente assim. A Anitta já dava sinais lá atrás, quando lançou “Show das Poderosas”. Naquele momento, já havia algo diferente, potente, um pressentimento de que essa trajetória não seria comum. Anos depois, isso se confirma com ainda mais força. E quando vemos notícias como a publicada pela Band, sobre o perfil “Café com Teu Pai” ter sido derrubado após denúncias e uma briga pública com a artista, envolvendo acusações de discursos misóginos e ataques direcionados a ela, fica evidente o quanto esse avanço feminino ainda incomoda e provoca reações violentas . O show, no entanto, está só começando. E que toda essa machosfera que insiste em reagir com ódio seja enfrentada, superada e deixe de ter espaço com a urgência que o nosso tempo exige.

Fica aqui o reconhecimento. Parabéns à Anitta e a toda a equipe de produção por tanta força, beleza e representatividade em um tempo tão difícil.

Viva as mulheres que vigiam, que rompem, que se escolhem.
Viva a força ancestral que sustenta.
Viva os orixás.

 

ASSISTA A PLAYLIST QUE SELECIONEI COM OS CLIPES DO ÁLBUM

 

 

 

Mel  Inquieta – Melina Guterres

 

é jornalista, produtora cultural e cineasta, fundadora da Rede Sina. Atua no audiovisual desde 2001, com projetos de ficção e documentário. Trabalhou em veículos como Folha, Estadão, UOL e IstoÉ.
Em 2015, criou a página “As Mulheres que Dizem Não” no Facebook. Desenvolve conteúdos sobre cultura, sociedade e narrativas com impacto social.

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SINA

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