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Ricardo Mendes

O funeral surreal da pintora Frida Kahlo | Ricardo F. Mendes

By Ricardo Fontes Mendes
10 de janeiro de 2026 3 Min Read
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Não sei porque, no mês passado, uma frase curta tomou os meus pensamentos. Parecia — e poderia ser — o título de um livro: “O Funeral de Frida Kahlo”. Abri o celular e fiz a anotação no bloco digital que mantenho para não esquecer do que preciso fazer ou sobre o que posso escrever. Descobri que chamam a este tipo de pensamento de “lateral”, um conceito parido pelo médico e psicólogo maltês Edward de Bono (1933–2021). Ele descreve a capacidade de se ter ideias fora da lógica linear e óbvia que a realidade imediata costuma propor.

Dias depois, retomei o assunto. Pesquisei como foi a morte, o funeral e a cremação da mulher e artista mexicana que marcou profundamente o seu tempo. Eu já tinha assistido ao filme — disponível em streaming — em que Salma Hayek interpreta divinamente a pintora. Conhecia a sua biografia, mas não tinha os detalhes sobre a partida, consumada por uma embolia pulmonar, em 1954. Frida exigiu ser cremada, exaurida pelo sofrimento: “He pasado demasiado tiempo acostada… ¡simplemente quémenme!” Em bom português: “Já passei tempo demais deitada… apenas queimem!”

A atriz Salma Hayek na pele da pintora Frida Kahlo, no filme Frida, de 2002. Divulgação.

Uma das principais biógrafas de Frida Kahlo, a norte-americana Hayden Herrera, conta os detalhes da cerimônia, a comoção que tomou conta do México, dos amigos e familiares. Está tudo no calhamaço de mais de 600 páginas chamadoFrida, publicado pela espanhola Taurus em 2003 e, depois, revisada em uma nova edição em 2019. A tradução brasileira é de 2011, da Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, e a original americana é da Harper & Row, atual HarperCollins, de 1983.

A edição espanhola custa R$ 195,16, e R$ 84,90 para Kindle. A brasileira sai por R$ 69.

Não foi realizada uma autópsia no corpo minúsculo de 1,60 de altura. “Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar” foram as últimas palavras que registrou em seu diário, o que alimentou a suspeita nunca comprovada de uma overdose de analgésicos. No último ano de vida, Frida era uma criatura deprimida e tomada por dores insuportáveis, consequência de um acidente de bonde na juventude. Ela passou por várias cirurgias na coluna e teve uma perna amputada por causa da gangrena.

As informações mais impressionantes são sobre o momento da cremação. É como a descrição de um quadro surreal seu. Há relatos consistentes de que (morta) ela sentou, quando o forno do crematório foi ligado e aqueceu. Em um requinte místico teria esboçado um último sorriso enquanto os seus cabelos ardiam em chamas, como se tivesse um halo na cabeça. Há uma explicação científica para isto. As altas temperaturas e a desidratação fazem os tendões e outros músculos contraírem e podem gerar a sensação de que o corpo ganhou vida e reclinou — antes de virar pó.

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Author

Ricardo Fontes Mendes

Escritor e jornalista, duas vezes vencedor do Prêmio Tim Lopes. Ex-Folha de S. Paulo, foi repórter do JN e editor-chefe da Globo para a Rede Bahia, além de editor-chefe do Grupo A Tarde. Foi consultor e diretor da IREX Mozambique, suportado pela USAID. É autor de "Para Onde os Gatos Vão Quando Dormem" e "A Casa da Memória". Visite a sua página na Amazon ou o seu Substack em https://ricardofontesmendes.substack.com.

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