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* PORTAL* SINA AUTORALROSANA ZUCOLO

Não iremos a Paris por Rosana Zucolo

By Rosana Zucolo
20 de agosto de 2025 5 Min Read
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Paris está aqui. É logo ali. Basta atravessar o Mampituba, rio que divide o RS de SC e delimita a fronteira entre as cidades de Torres e Passo de Torres. Fica na rua que leva o nome do rio. É só chegar, sentar, pedir um café e planejar revoluções possíveis.  O  lugar é agradável, tem um certo intimismo e o atendimento é atencioso e gentil, assim  como é a educação de boa parte dos catarinenses que vivem aqui.

Mas me peguei a pensar no que leva alguém a dar ao seu estabelecimento comercial um nome estrangeiro cuja aura é impregnada de glamour.  Diante da realidade local, Paris soa anacrônica. Ainda assim, entre a estranheza e a curiosidade, o lugar me jogou longe no tempo, e me fez refletir sobre como tudo muda de modo célere.

Para quem como eu, teve a formação universitária entre as décadas de 70 e 80,  a travessia intelectual se fazia obrigatoriamente pela Rue d’Ulm, pela École des Hautes Études, pelos cafés do Quartier Latin onde se arquitetavam revoluções, e Paris representava o centro do pensamento ocidental.  De lá vinham as leituras indispensáveis para se frequentar a universidade com alguma credibilidade.  E depois ir a Paris para um doutorado ou pós-doutorado, a coroação simbólica da respeitabilidade intelectual. Pensar parecia exigir, inevitavelmente, atravessar o Sena.

Nós, aqui nos trópicos tupiniquins, líamos, sôfrega e existencialmente, teóricos e literatos franceses, ainda que com 10 anos de atraso, no mínimo.  O fato é que a formação intelectual crítica no Brasil bebeu nessas fontes que marcaram o pensamento da esquerda universitária, das ciências sociais e da crítica literária.

Do iluminismo francês de Condorcet na defesa direitos do homem e, especialmente, os direitos das mulheres e dos negros, à revolução conceitual promovida pelos estruturalistas e pós-estruturalistas, tudo nos chegava em cópias xerocadas e traduções tardias como ecos distantes a alimentar nossa avidez em compreender o mundo ou apenas ler nossa realidade tropical.

Construir uma biblioteca era o sonho de consumo da maioria dos universitários das Sociais e Humanas , como éramos “classificados”. E nela, autores franceses eram imprescindíveis. Que mulher universitária da minha geração não leu o Segundo Sexo de Simone de Beauvoir? Ou as “Marguerites “: Duras e Yourcenar? Quem não disputava os poucos exemplares dos Cahiers du Grif e do Cahiers du cinema que chegavam como raridades? E tudo se complementava com  leituras e livros de Sartre, Camus, Gide, Genet, Proust, Barthes, Baudelaire, Foucault, Bachelard, Derrida, Ricoeur, Rancière.  Ou ainda Buber, Mounier, Bourdieu, Morin, e mesmo Althusser cuja credibilidade despencou depois que ele estrangulou a própria mulher. Infindáveis leituras e rodas de debates.

Hoje, aquilo que um dia nos forjou e foi central, cedeu espaço a ideias irradiadas por múltiplos eixos fragmentados dispersos nas e pelas redes digitais: universidades periféricas, coletivos independentes, até mesmo podcast produzido domesticamente entre outros modos atuais de manifestar e comunicar. Isto num mundo a mudar de modo vertiginoso – dos processos cognitivos ao modus operandis, agora perpassado pela inteligência artificial, como se o pensamento crítico pudesse ser baixado em algoritmos.

Com raras exceções, o atual universo do jovem universitário que parece impregnado por um pragmatismo de resultados fomentado por apelos digitais, não desperta nenhuma paixão pela leitura analógica. Menos ainda pelos franceses. Quiçá, em alguns nichos, o Michel Mafesolli  com sua noção de tribos urbanas, ou  Annie Ernaux cuja literatura parece ter, recentemente, caído no gosto de parte das brasileiras graças à sua tessitura de memórias e sociologia íntima.

Revisitar este percurso histórico e analógico até pode soar nostálgico. Mas, entre um café e um pão de queijo de Minas nessa Paris que nos acolhe, lembrei, no tempo presente, de um trabalho de pesquisa que ajuda a entender a presença francesa no pensamento crítico brasileiro.

A questão da história intelectual entre Brasil e França é detalhada no interessante livro Termos de troca- intelectuais brasileiros e as ciências sociais francesas, de Ian Merkel, historiador estadunidense, publicado no ano de 2023 pela  EDUSP, editora da Universidade de São Paulo. Trata-se da pesquisa de Merkel que busca demonstrar o jogo sutil de influências entre Brasil e França nas décadas de 1930 a 1960, desmontando a ideia de que nosso país seria apenas receptor passivo. Para ele houve um intercâmbio desigual, mas profundamente ativo, onde o conhecimento circula, se contamina e se reinventa.

Intelectuais como o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o historiador Fernand Braudel, o sociólogo Roger Bastide e o geógrafo Pierre Monbeig , que se tornaram referências mundiais na sua área de atuação depois de terem vivido no Brasil, aportaram jovens no país e se impregnaram da cultura nacional.” (…) não só leram a obra de seus colegas brasileiros, mas, junto deles, definiram suas disciplinas, orientaram trabalhos de campo, construíram instituições inovadoras e interdisciplinares e desenvolveram suas teorias”.

Braudel, Monbeig e Lévi-Strauss chegaram ao Brasil em fevereiro de 1935, na condição de professores contratados para lecionar na Universidade de São Paulo. Bastide chegou em 1938, substituindo Lévi-Strauss, que saiu do cargo para realizar pesquisas etnológicas a campo. E assim, a vinda dos  então 37 jovens professores  franceses que viveram no Brasil entre os anos 30 e 40, atrás  de oportunidades inexistentes a eles na França, foram fundamentais para a criação das primeiras universidades no país. E na visão de Merkel, as ciências sociais francesas foram profundamente marcadas pela história da USP e das universidades brasileiras, em geral.

Para além do intercâmbio internacional entre os anos de 1930 a 1960, aconteceram as trocas, afetivas e intelectuais, que estes professores  franceses realizaram entre si e também com os interlocutores e as realidades sócio históricas que encontraram aqui. A colaboração com intelectuais brasileiros, entre eles Caio Prado Jr., Mário de Andrade, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes se prolongou por toda a carreira deles e influenciou seu entendimento do colonialismo, do sincretismo religioso, da economia global e dos fundamentos das estruturas sociais.

O livro revela conexões que lançam um novo olhar sobre a Escola dos Annales, o estruturalismo e a democracia racial, ao mesmo tempo em que propõe revisitar o pensamento estabelecido sobre o processo de formação do conhecimento por meio do trabalho de campo e do intercâmbio intelectual.

Enfim, mais só lendo o livro, cuja menção aqui não tinha intenção de spoiler, nem  de ensaio. Foi algo que veio à memória durante um despretensioso café na Paris sulista.

E não, não iremos tão cedo a Paris francesa, nem atravessaremos o Sena. Vamos ficando na Paris daqui de onde é possível chegar e contemplar o por do sol às margens do Mampituba.

Rosana Zucolo, jornalista, professora universitária aposentada, mestre em Educação(UFSM) e doutora em Comunicação(Unisinos). Nascida gaúcha, mora em Santa Maria, tem alma cigana, a Bahia como segunda terra e o mundo como casa.  Descobriu ter uma certa predileção por pares: dois filhos, dois prêmios Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, dois empregos por muito tempo, dois projetos de cursos de comunicação, dois blogs,  duas casas, dois irmãos, dois cachorros, duas cachorras, dois gatos…

 

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