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* PORTAL* ECONOMIA E INOVAÇÃO* SINA AUTORALOLIMPIO CRUZ NETO

A diplomacia da cunha – O recado de Pequim ao Brasil no ‘reset’ com o Canadá | Por Olímpio Cruz Neto

By SINA
13 de fevereiro de 2026 4 Min Read
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O ano de 2026 começa com um sinal que recalibra a bússola de risco para as economias emergentes — e, por tabela, o espaço de manobra do Brasil. A China reage aos cercos comerciais do Ocidente com a execução de uma “diplomacia da cunha”. A lógica é estratégica: abrir fissuras em consensos rígidos por meio de precedentes técnicos, trocando o confronto ideológico por um pragmatismo seletivo, desenhado sob medida.

O laboratório dessa estratégia é a distensão com o Canadá, a primeira visita de um premiê canadense à China em oito anos, selada na segunda quinzena de janeiro. É um movimento que carrega lições para a estratégia externa brasileira.

O lance decisivo foi o destravamento do impasse tarifário sobre os veículos elétricos chineses. Aqui, a precisão técnica é o coração do precedente: o Canadá retirou a sobretaxa adicional de 100% e a substituiu por um regime administrado. Estabeleceu-se uma cota anual de 49.000 unidades, mantendo a tarifa MFN (Nação Mais Favorecida) de 6,1% para embarques dentro desse teto.

Na prática: não é “tarifa zero”. É a troca de punição por gestão.
Em contrapartida, a China comprometeu-se a reduzir drasticamente as tarifas sobre a canola canadense — de proibitivos 84% para cerca de 15% — além de destravar pontos sensíveis de acesso a mercado para outros ítens do agro e pescados.

O acordo não é simbólico. Pequim-Ottawa reorganizam incentivos em duas frentes críticas (mobilidade elétrica e agronegócio) e indicam que o “isolamento tecnológico” pregado por Washington é mais permeável do que parece quando a inflação e a transição industrial apertam os governos.

O pragmatismo como arma

A tática de Pequim é clara: oferecer pontes de “pragmatismo econômico” a aliados históricos dos Estados Unidos que enfrentam dilemas produtivos. Não se exige alinhamento ideológico. É hora de modular o atrito.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, descreveu o movimento como uma recalibração estratégica para adaptar o país às “novas realidades globais”, num momento em que Ottawa também administra tensões tarifárias com Washington sob Donald Trump. É nessa janela de vulnerabilidade do vizinho que a China opera, alongando a cooperação para encurtar as irritações.

Para o Brasil, o recado é direto: a China está disposta a desenhar modelos de comércio customizados que premiem a previsibilidade, em detrimento da adesão automática a blocos de sanções. Em um mundo de cadeias tensionadas, instrumentos técnicos — cotas, undertakings de preço (compromissos de preço mínimo), certificações e seguros à exportação — tornam-se tão vitais quanto a retórica diplomática.

O fim do “aspirador infinito”

Internamente, a narrativa de Pequim para 2026 mostra um deslocamento de foco crucial para o Brasil: menos fetiche pelos dígitos do PIB e mais ênfase em qualidade e densidade tecnológica. A política econômica chinesa agora opera por alvos (inovação, economia verde, segurança), não por estímulo indiscriminado.

Isso altera o mapa para os parceiros. A China tende a ser menos “aspirador infinito” de insumos brutos e passa a ser mais seletiva — comprando com critérios de rastreabilidade e posição tecnológica.
Esse reposicionamento impacta o Brasil na veia. A “janela da quantidade” — vender commodity no piloto automático — perde força. A janela que se abre é a de valor e segurança. Não basta vender o que a China consome; é preciso vender atributos que reduzam o risco ao comprador e elevem o poder de barganha.

O Brasil como Estado-pêndulo

O nosso país entra em 2026 numa posição de “Estado-pêndulo” altamente valorizada, mas que exige sofisticação. O realinhamento China-Canadá sugere um manual de sobrevivência:

1. Negociar por desenho, não por inércia: acesso a mercado e financiamento devem vir com metas verificáveis, fugindo do comércio spot.

2. Precificar a neutralidade: rastreabilidade e previsibilidade logística viraram moeda geopolítica e devem ser cobradas como tal.

3. Ler a gramática do poder: entender que são as prioridades industriais e os instrumentos de Estado (crédito, padrões) que determinam o fluxo — não a ficção do livre mercado.

4. Não terceirizar a segurança: Pequim é um ativo diplomático, mas o seu “guarda-chuva” é econômico. Ela não substitui a arquitetura regional nem resolverá crises “no terreno” na América do Sul.

O “reset” canadense mostra que Pequim tentará converter interdependência econômica em estabilidade política, fragmentando blocos de contenção por atalhos bilaterais. A inteligência estratégica exigirá que o Brasil entenda que não estará negociando com um mercado, mas com um projeto de Estado. O preço da ingenuidade, nesse tabuleiro, é estratégico.

O que observar em 2026
* A expansão de acordos “administrados” (cotas/undertakings) para destravar mercados sob atrito.
* O uso de padrões técnicos e ambientais funcionando como “tarifa invisível”.
* A evolução do contencioso agrícola como moeda de barganha cruzada.
* O teto do “guarda-chuva” chinês em crises regionais: condenação diplomática vs. ausência de intervenção direta.

 

Olímpio Cruz Neto

Jornalista, analista de risco institucional e geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República.

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