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Ricardo Mendes

O espaço que separa a água do rio | Ricardo F. Mendes

By Ricardo Fontes Mendes
1 de fevereiro de 2026 1 Min Read
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Há um lugar, na superfície da água, em que a vida não é rio nem é ar. Neste espaço definido que a ciência chama de Neuston, gravitam vidas de minúsculos seres, se equilibrando, sem peso, sobre a nata da água ou pendurados sob o líquido.

O Neuston onde seres vivos habitam uma pele precária entre a água e o ar. Imagem: Arquivo Pessoal.

Eles são o que separam a água do rio, a interface transparente entre o que inunda e o espaço total. Um mundo à parte, um lugar invisível aos olhos despidos. É provável que funcionem como as imensas cidades em que nos esquecemos de nós mesmos e dos outros.

Fazemos isto displicentes, sem a exata consciência de que a vida e o mundo são bem maiores. Como em metrópoles que também têm vidas intermediárias. Gente que existe a metros do chão, meio fora d’água e meio submersa no cotidiano. Milhares de indivíduos escondidos em apartamentos, que não saem de casa nem para comprar leite.

Pedem quase tudo por aplicativos, sozinhos em seus isolamentos emocionais, onde convivem com lembranças de uma vida ausente. Não é solidão, nem solitude. Não é desfrutar da própria companhia ou existir livre dos outros. É habitar o nada deslocado de si próprio e, ainda assim, continuar.

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Author

Ricardo Fontes Mendes

Escritor e jornalista, duas vezes vencedor do Prêmio Tim Lopes. Ex-Folha de S. Paulo, foi repórter do JN e editor-chefe da Globo para a Rede Bahia, além de editor-chefe do Grupo A Tarde. Foi consultor e diretor da IREX Mozambique, suportado pela USAID. É autor de "Para Onde os Gatos Vão Quando Dormem" e "A Casa da Memória". Visite a sua página na Amazon ou o seu Substack em https://ricardofontesmendes.substack.com.

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