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Ricardo Mendes

A mala vermelha e os cartões de memória | Ricardo F. Mendes

By Ricardo Fontes Mendes
17 de janeiro de 2026 2 Min Read
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Há uma mala vermelha no canto do meu quarto e cartões de memória no criado-mudo, dentro da gaveta. Na mala, estão centenas de fotos de pessoas e lugares, mas também negativos resgatados de uma época em que a lembrança era fixada em nitrato de prata, sobre filmes 35 mm, dentro de laboratórios.

Eu mesmo passei dias inteiros entre produtos químicos. Revelava fotografias que fiz com máquinas mecânicas — sempre as melhores —, regulando o foco, escolhendo a abertura do diafragma e a velocidade do obturador. São milhares de imagens em arquivos físicos; retratos de toda uma vida.

Havia roupas (que ainda aguardam alguma providência) empilhadas sobre a mala que eu abri ontem. Desejei rever alguns registros de um tempo não tão distante assim. Fotos de família, imagens de amigos e amigas queridos. Há inúmeros álbuns que herdei dos meus pais — preenchidos ou que ocupei com retratos alegres, felizes no que pude experimentar até aqui.

Sempre dei atenção a histórias comuns contadas por tias, tios, avós, amigos, amores. Tenho o hábito de reter recordações e colecioná-las como se fossem partes preciosas de mim e dos outros. Elas não deveriam ser dissolvidas pelo tempo. Cedo ou tarde, inevitavelmente, é o que acontecerá. Sobretudo porque lembranças são como o absinto de losna: assustadoramente forte e volátil.

E assim, meio sem querer, me dou conta de que a mala vermelha é a minha tentativa de conter o que cabe em mim. De represar o tempo, de manter fora do corpo o que nos torna únicos. Penso que o mesmo deve ocorrer com os cartões de memória usados nas máquinas digitais que nem tenho mais. Eu ainda não os acessei para rever o que eles guardam.

Sei que há girafas e elefantes órfãos, gorilas. Sei que há pessoas que chegaram e que partiram, todas elas me esperando para reconhecê-las como parte importante de quem fui, de quem sou e de quem serei. Pretérito de mim a mirar sozinho o horizonte que me aguarda agora mesmo.

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Author

Ricardo Fontes Mendes

Escritor e jornalista, duas vezes vencedor do Prêmio Tim Lopes. Ex-Folha de S. Paulo, foi repórter do JN e editor-chefe da Globo para a Rede Bahia, além de editor-chefe do Grupo A Tarde. Foi consultor e diretor da IREX Mozambique, suportado pela USAID. É autor de "Para Onde os Gatos Vão Quando Dormem" e "A Casa da Memória". Visite a sua página na Amazon ou o seu Substack em https://ricardofontesmendes.substack.com.

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