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Brigitte Bardot: anotações sobre a atriz libertária | Ricardo F. Mendes

By Ricardo Fontes Mendes
30 de dezembro de 2025 3 Min Read
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Brigitte Bardot menstruou durante o voo que a trouxe ao Brasil em 1964. Maurício Kubrusly, ex-repórter da Globo, foi escalado para fazer a cobertura da chegada dela em Búzios, no Rio de Janeiro, para onde seguiu de carro, lugar em que a atriz tentava (e conseguiu) se esconder um pouco da fama. Estava mal-humorada, um tanto irritada com a situação.

Kubrusly era estagiário do Jornal do Brasil, o JB, e tinha 17 anos. Foi conhecer a rádio e caiu por acaso na redação do diário. Mandaram que voltasse na manhã seguinte, de terno e sem barba, para trabalhar. Um dia a chefia deu a ordem e ele chegou em Búzios. Foi assim que descobriu a empregada de Bardot saindo da casa onde a atriz francesa ficou hospedada.

Brigitte Bardot em cena do filme que inaugurou “de fato” o movimento estético Nouvelle Vague, a Nova Onda criada por um grupo de jovens cineastas franceses. Foto: Divulgação.

A funcionária seguia para a farmácia para comprar absorventes higiênicos. O estagiário puxou conversa, soube do ânimo da moça e do ciclo menstrual dela. A história rendeu uma reportagem inusitada, publicada nas páginas do JB, embora o fato íntimo, por si só, não fosse nada de extraordinário. Afinal, mulheres sangram todos os meses.

O relato breve do episódio está no documentário Mistério sempre há de pintar por aí, do Globoplay, em que a Demência Frontotemporal (DFT) do jornalista é contada por amigos, com informações recuperadas de entrevistas que deu. O repórter vive hoje no sul da Bahia: com a esposa e sem a memória. Esqueceu de quase tudo, só não do nome dela: Beatriz, “aquela que traz felicidade”.

Mambo

Cecília Malan, correspondente internacional da Globo em Paris e Londres, chamou Bardot de “complexa” em um texto delicado e elegante em que reconstruiu a trajetória do ícone da Nouvelle Vague. Próxima do fim da vida, Bardot expressou pensamentos homofóbicos, rejeitou a presença de imigrantes e demonstrou apoio às ideias da direita na Europa. Uma contradição para quem foi sinônimo de liberdade elogiada até por Simone de Beauvoir, a feminista.

O que ficará de Madame Bardot na memória dos que viveram seu tempo é o cabelo desgrenhado, suas coxas grossas e o suor na pele em Et Dieu… créa la femme (E Deus Criou a Mulher), de 1956. Ela é Juliette, uma mulher sensual que se sacode ao som de um mambo louco. O filme de Roger Vadim é chamado por muitos de o “terremoto”. Ele preparou o terreno para o movimento cinematográfico francês, o mesmo que influenciou o Cinema Novo no Brasil de Glauber Rocha.

Brigitte em Búzios, no Rio de Janeiro. Foto: Arquivo.

Brigitte se mostrava descalça, com apetite, sexualmente livre, despida e sem remorsos, o que se tornou a estética central da Nouvelle Vague. A imagem congelada em acetato do filme é o que ficará em torno da atriz como uma aura. Ela que abandonou a carreira aos 39 anos para se dedicar à causa animal. Sua memória sempre será como a estátua de bronze erguida na orla de Búzios, onde as pessoas param para fazer selfies, lembrando de um tempo que, como tudo, passa.

Estátua feita por Christina Motta retratando Brigitte Bardot em Búzios. Foto: Arquivo/Prefeitura..
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Ricardo Fontes Mendes

Escritor e jornalista, duas vezes vencedor do Prêmio Tim Lopes. Ex-Folha de S. Paulo, foi repórter do JN e editor-chefe da Globo para a Rede Bahia, além de editor-chefe do Grupo A Tarde. Foi consultor e diretor da IREX Mozambique, suportado pela USAID. É autor de "Para Onde os Gatos Vão Quando Dormem" e "A Casa da Memória". Visite a sua página na Amazon ou o seu Substack em https://ricardofontesmendes.substack.com.

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