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* PORTAL* SINA AUTORALMENALTON BRAFF

Aquilo era o mar por Menalton Braff

By SINA
2 de agosto de 2021 3 Min Read
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Nascido no interior; era a primeira vez que eu via o porto. Andava aí por meus quatro anos, alguém, provavelmente um de meus irmãos mais velhos, puxava-me pela mão.

Na minha lembrança eu era muito pequeno e imagino que tenha sido pequena também a emoção sentida no momento de olhar lá pra baixo e ver o mar, que os demais apontavam com alegria. Enfim, era a emoção possível em uma criança daquela idade, uma emoção que mais parecia um susto: aquela água movendo-se.

Estávamos em cima de uma plataforma de cimento, uma plataforma muito alta, até hoje me parece que era altíssima, o que me enchia de terror. Acredito que fosse bem mais alta do que eu. A água, àquela hora do entardecer, vinha mansa até o pé de cimento da plataforma, correndo por cima de uma areia preta, misturada com todo tipo de dejetos da cidade. E a espuma, que navegava no dorso das ondas, não era branca como a neve. A impressão que me causou, logo depois do primeiro entusiasmo, foi horrível. Quatro anos de idade não é uma época da vida apropriada para sofrerem-se decepções, e lá estava o menino, olhando o fundo daquele mar ali, um mar vizinho, inteiramente decepcionado com aquele lodo asqueroso e com o cheiro intenso, talvez repugnante. .

A cidade de Rio Grande, onde se deu esse encontro, pode ser a cidade mais úmida do Brasil, mas não é mais suja do que qualquer outra cidade portuária, e estávamos no porto novo, por pressuposto um porto limpo. Bem perto de onde estávamos, um prédio escuro de sete andares vinha aos poucos sendo tragado pelas areias da praia. Mas isso fiquei sabendo depois, bem depois, quando já sabia o que eram decepções e as plataformas já não me pareciam tão altas assim.

Não sei como se deu o milagre, não me lembro. Nem me lembro do que era, mas deve ter sido um milagre, pois, de repente, surgiu daquele lodo alguma coisa de cor muito viva. Uma forma que brilhava lá no fundo. Minha memória inventa um azul intenso, com listras amarelas e vermelhas. O que era? Não há como saber. Podia ser um peixe ou apenas uma latinha de pomada ou de salsicha. Do que me lembro, e com que intensidade!, é do meu deslumbramento. Aquela coisa, aquele ser, me encantou. Nada de prático, nenhuma ideia de utilidade ou de significação me restou. O que ficou grudado em meus neurônios encarregados por minha memória, o que nunca mais vou esquecer, é a emoção que então experimentei. Essa vou carregar comigo enquanto viver.

 

 

Menalton Braff 

Nasceu em Taquara (RS) e radicou-se em São Paulo (Capital e interior) Formado em Letras, com pós lato sensu exerceu o magistério superior antes de mudar-se  para o interior onde se dedicou ao ensino médio. Tem 27 livros publicados, sendo nove infantojuvenis e catorze de literatura geral (contos e romances). Conquistou o Jabuti, livro do ano em 2000, com À sombra do cipreste, foi finalista da Jornada de Passo Fundo em 2003, finalista do Jabuti (contos) em 2007 e finalista do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura (romance) em 2008. Pela Editora Reformatório teve publicados Amor passageiro (coletânea de contos) e Além do rio dos Sinos (romance), livro com que conquistou o Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional.  

 

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